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ANÁLISE | 5 diferenças cruciais entre Bolsonaro e Trump

Publicado por: em 8/08/18 11:00 AM

A grande imprensa tem dedicado a Lula e Bolsonaro uma classificação de “extremos”, condenando ambos, enquanto Geraldo Alckmin se apresenta como um candidato de “centro”

A grande imprensa tem dedicado a Lula e Bolsonaro uma classificação de “extremos”, condenando ambos, enquanto Geraldo Alckmin se apresenta como um candidato de “centro” alinhado por um “esforço conciliatório”. Por causa disso, quase todos os dias se produzem matérias e perfis que atestam que “Bolsonaro é o Trump brasileiro”, para a alegria de seus fãs e terror dos ingênuos que afirmam “contra Bolsonaro voto em qualquer um”. Na realidade, apesar do esforço midiático pela semelhança, existem diferenças importantes entre os dois.

“Cada um por si” x emprego

No início do mandato Obama o desemprego chegou a 9,5%, o maior em 26 anos, e ao fim do mandato obteve êxito em reduzir a 4,9%, menor que a média mensal de 5,5% desde 1948. Entretanto a campanha de Trump que prometia emprego e resgate da economia começou junho de 2018 com 3,8%, sendo o menor índice em 18 anos.

Bolsonaro defendeu no último Roda Viva que é “difícil ser patrão no Brasil” e que o trabalhador do campo, por exemplo, que sofre com a perda de postos de trabalho é o responsável por essa situação ao não buscar se capacitar. Ou seja, enquanto Bolsonaro se converte ao neoliberalismo e a política de emprego do “se vire”, Trump anunciava em campanha que criaria ambiciosos 25 milhões de empregos durante seu mandato.

“Se você, por exemplo, que tá como repórter e tu acha que tua posição vai declinar, você tem que se preparar para fazer outra coisa”, resposta do pré-candidato Jair Bolsonaro

Globalização x nacionalismo

Donald Trump fez sua campanha condenando ferrenhamente o fenômeno da globalização e a desnacionalização da economia norte-americana, culpando-a inclusive pelas questões de empregos e salários. Trump disse em campanha que “carros americanos irão viajar nas estradas, aviões americanos irão sobrevoar os céus, navios americanos patrulharão os mares (…) mãos americanas irão construir essa nação (…)”, o que reflete uma visão de Estado antagônica aos anseios privatizantes de Bolsonaro.

Sobre a “parceria” entre a Boeing e Embraer – que vinha sendo privatizada desde a década de 90 – Bolsonaro concordou sem constrangimentos com o acordo que na prática fez a gigante empresa brasileira, criada na Ditadura Militar defendida pelo candidato, ser engolida pela estrangeira. A venda da Petrobrás também recebeu aprovação do presidenciável desde que o Brasil possuísse poder veto sobre pequenas ações e que se fosse observado quais os países a comprá-la.

Se Trump queria “aviões americanos sobrevoando os céus” nos EUA, Bolsonaro quer aviões americanos sobrevoando a Amazônia – que declarou não considerar brasileira – e abastecidos pelas riquezas energéticas nacionais só que vendidas aos estrangeiros.

Antissistema x político trigenário

O arcabouço financeiro mobilizado pelo empresário bilionário Donald Trump atingiu quase 1 bilhão de dólares, usando muito da própria fortuna, o que levou o candidato a afirmar que o fato de ser pessoalmente rico não o faria buscar enriquecer na política. O exato oposto de Bolsonaro que multiplicou o próprio patrimônio na política e nunca abriu mão dos auxílios mesmo quando claramente não os necessitava, como é o caso do auxílio moradia sempre requisitado e recebido pelo capitão.

O fato de ser um gigante CEO fez Trump defender que o sucesso obtido na carreira empresarial seria um comprovante de que obteria sucesso a frente do maior cargo do país. Bolsonaro acumula três décadas de mandatos sem atuação relevante, sem capacidade de fazer passar suas propostas e demonstrando total desconhecimento sobre a realidade nacional. Não é exatamente uma carreira de sucesso a exibir. Ao longo de 28 anos na vida pública o que fazia o deputado dentro da Câmara para que hoje não saiba diferenciar setor primário, secundário e terciário da economia, um simples conteúdo de geografia de ensino médio?

Embora o presidenciável se afirme como um candidato de “fora do sistema” o mesmo se encontra parlamentar há praticamente três décadas, além de ter escorado três filhos no nome para colocá-los no ramo. O que soa contraditório com o discurso de mérito individual, afinal o que estes fizeram para se consolidarem na política, além de ter herdado o sobrenome do pai?

Um muro de contradições

Donald Trump defendia abertamente a criação de um muro com o México para “proteger” os EUA, uma proposta criticada, mas ainda assim uma proposta de fato e que está sendo implementada. No outro lado da fronteira, quais são as propostas do presidenciável militar para a segurança pública? Quando perguntado sobre muitos temas o candidato tergiversa, mas grande parte de seu eleitorado o defende pensando no tema segurança.

O processo eleitoral se aproxima e Bolsonaro ainda não apresentou proposta reais sobre o que fará, caso eleito, apenas esbravejou frases genéricas sobre o assunto segurança pública. Considerando o passado militar do presidenciável, seu nítido interesse no tema e a urgência da pauta para a população em geral era de se esperar uma proposta mais concreta do que frases de efeito.

O gigante x o nanico

Outra diferença fundamental entre Bolsonaro e Trump é a estrutura partidária que o gigante partido republicano dos EUA pôde oferecer a seu candidato em contraposição ao alcance limitado do minúsculo Partido Social Liberal. O PSL dispõe apenas de oito deputados e nenhum senador, além de nenhum governador ou prefeito de capitais, o que contrasta fortemente com a máquina republicana de Trump, cerca de 3/5 dos governadores, entre inúmeros deputados e senadores.

A fortuna acumulada de Trump foi vitrine para o republicano “comprovar” sua eficiência e instrumento do seu discurso antipartidário ao recusar fundos públicos para realizar sua campanha. O nanico PSL tenta através de vários recursos abolir o fundo partidário, porém, com a entrada de Bolsonaro que carregou uma leva de deputados para o partido, os “sociais-liberais” tentam aumentar a fatia que possuem do mesmo fundo partidário que tentam abolir.

Conclusão

Quando se tornou notícia o Brexit os Bolsonaros defenderam a saída do Brasil do Mercosul, quando os EUA deixaram o conselho de direitos humanos da ONU, outra vez, os Bolsonaros defenderam a saída do Brasil do mesmo conselho. Ou seja, o capitão brasileiro sente desejo de ser soldado estrangeiro sem capacidade de apontar decisões originais para o Brasil. Contenta-se com a ideia de que o Brasil sendo um dos maiores, mais populosos e mais ricos países do mundo se rebaixe a condição de país-satélite dos EUA.

O candidato Jair Bolsonaro se esforça para espelhar o êxito da campanha de Donald Trump através da semelhança óbvia de pensamentos conservadores de ambos, mas o patriotismo do brasileiro se restringe ao discurso. No Roda Viva, Bolsonaro disse que “ele [Trump] quer a América grande, eu quero o Brasil grande”, mas seria difícil imaginar Trump prestando continência a bandeira do Brasil ou se deixando guiar por ações de outro país para definir o próprio.

Arthur Tytiro
Professor de história formando pela Universidade Federal Fluminense que acredita na educação como única trincheira possível em tempos de drones.
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