Coluna

– Jornalismo com opinião

“Os que cairão depois de Lula”, a nova narrativa midiática

 A nova e velha narrativa

No último sábado (06/04) o ex-presidente Lula se entregou à polícia federal causando indignação em muitos, principalmente no contraste e na qualidade dos crimes de outros investigados como Aécio, Temer e companhia. Desde então os principais veículos de comunicação de massa passaram a investir na narrativa da “fila”, onde somente após a prisão de Lula será possível que Aécio e os demais irão presos.

Essa narrativa tem alguns problemas, pois se apenas após a prisão de Lula os outros poderão cair, conclui-se disso que o ex-presidente era alguma espécie de impedimento para prisão de políticos. Ora, onde estava então essa “parede Lula” quando o STF condenou vários membros da cúpula petista no julgamento do mensalão em 2012 com Dilma ainda no governo? A lógica por trás dessa linha argumentativa é a de centralizar, mais uma vez, a “corrupção” em Lula e associá-lo aos demais políticos da “fila” como “os corruptos” sem qualquer distinção entre si ou entre os crimes imputados a esses.

As falsas equivalências

Há quase uma década o caso de Azeredo segue sendo protelado, Aécio tem áudios nos quais pede o assassinato do próprio primo antes que esse o delatasse, vídeos com malas de dinheiro envolvem a cúpula do planalto, portanto, não podem ser tratados como casos equivalentes. O ministério público não conseguiu provas materiais que ligassem Lula ao famoso triplex, o que levou Sergio Moro a afirmar que apesar da ausência de materialidade o ex-presidente seria o “proprietário de fato” do imóvel, recorrendo a uma conceituação inexistente como categoria jurídica no Brasil.

Lucas Gomes Arcanjo, era o nome do policial civil que denunciava Aécio Neves associando-o ao narcotráfico e lavagem de dinheiro, esse policial sofrera quatro atentados antes de aparecer morto com uma gravata no pescoço. Rodrigo Rocha Loures é o nome do ex-deputado que aparece em vídeo correndo com uma mala de dinheiro (500 mil reais) em direção a um taxi em um esquema de propina em favor de Michel Temer, aquele que segue no cargo mesmo sendo rejeitado por 90% da população.

O verdadeiro debate

O Brasil não tem apenas um único juiz para ir julgando e condenando um por vez. Os casos não são equivalentes. E se houvesse uma fila certamente não começaria por Lula.

Interessa aos grandes conglomerados empresariais de comunicação a narrativa que defende “o Brasil contra os políticos corruptos” porque a demonização da política favorece a descrença na participação da vida pública abrindo caminho para que a elite econômica nacional e internacional se apoderem do Estado. Colocar todos os projetos de sociedade no mesmo lugar de “corruptos de direita e esquerda” anula a discussão sobre a diferença entre esses projetos e emburrece o debate.

Arthur Tytiro
Professor de história formando pela Universidade Federal Fluminense que acredita na educação como única trincheira possível em tempos de drones.
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