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A ameaça da caserna

Publicado por: em 12/09/18 9:00 PM

Aparentemente a facada sofrida por Bolsonaro nas vésperas do feriado de 7 de setembro causou mais euforia do que indignação nos militares, desde o episódio, uma série de declarações começaram a pipocar pela imprensa sobre movimentações de membros da sociedade militar.

Primeiro, engana-se quem acredita que os militares “collocam ordem” no país ou que colocaram em algum momento sejam um elemento de estabilidade e ordem social.

“Corrupção nem sempre acontece com mala de dinheiro. Ela acontece também no Diário Oficial, disfarçada de atos oficiais”.

As palavras são do coronel da reserva Rubens Pierrotti Junior, de 49 anos. Ele foi supervisor operacional durante o desenvolvimento do Simulador de Apoio de Fogo (SAFO) do Exército Brasileiro e se tornou famoso por acusa o vice de Bolsonaro, o general Mourão, de corrupção.

Em 2017 três coronéis da reserva, um coronel e dois majores da ativa envolveram-se em fraudes de dispensa de licitações em contratos celebrados entre o Departamento de Engenharia e Construção (DEC) e fundações privadas coordenadas pelo Centro de Excelência em Engenharia de Transportes (Centran). As fraudes em licitações causaram um prejuízo de 150 milhões de reais aos cofres públicos entre 2005 e 2010.

Ainda no mesmo ano uma reportagem especial do UOL mostrou que a corrupção dos agentes de farda eram tão corriqueiras e semelhantes quanto as cometidas por políticos e outros agentes públicos.

Na ditadura militar não foi muito diferente, de plataforma política para criminosos como Paulo Maluf até outros absurdos, como o assassinato do jornalista Alexandre von Baumgarten, que havia descoberto um esquema envolvendo a Agropecuária Capemi — empresa dirigida por militares, contratada para comercializar a madeira da região do futuro lago de Tucuruí. Pelo menos US$ 10 milhões teriam sido desviados para beneficiar agentes do SNI no início da década de 1980. O general foi inocentado pela morte do jornalista.

Isso tudo durante os anos de chumbo, não há como falar que não houve corrupção com um soldado em cada porta de redação.

O retorno dos derrotados

Como puderam perceber, militares não só se envolvem em corrupção como perseguem quem a denúncia e se já não bastassem, desde que a ditadura acabou já faz 33 anos que o exército retomou ao seu posto de gerar instabilidade e insegurança social no país.

Apesar de muitas vezes as declarações virem com um verniz de recomendação ou apenas de uma divagação é muito importante lembrar que quem dirige tanque e usa fuzil, nunca dá recados, faz ameaça.

E é o que anda acontecendo, cada vez mais, o dólar chegando em cinco reais, um pleito eleitoral cada vez mais ameaçado e uma insegurança que nos faz dormir sem saber se no dia seguinte acordaremos com tropas saindo de Minas Gerais enquanto tanques ocupam a esplanada dos ministérios.

Começou em abril (assim como o golpe de 64) o aumento do tom dos militares e sua intromissão na vida politica quando o General do Exército Eduardo Villas Bôas ameaçou o Supremo Tribunal Federal que estava nas vésperas de julgas um habeas corpus em benefício de Lula.

O recado era claro: “Soltem Lula e esse país se tornará um inferno”. Não tardou para a caserna se sentir a vontade para apavorar e assustar a população como o general da reserva Paulo Chagas que não perdeu tempo em ameaçar o jornalista Ricardo Boechat no seguinte tweet:

O mesmo general meses depois ameaçou também o desembargador envolvido na confusão conhecida como “prende-solta do Lula” em julho. Atualmente ele concorre para governador pelo Distrito Federal pelo mesmo partido do general Mourão (PRTB).

Passou despercebido

Na véspera do ataque contra Bolsonaro um texto do jornalista William Waack (aquele mesmo demitido da Rede Globo por racismo) passou despercebido devido ao desenrolar dos fatos no dia seguinte… O texto com o título: ‘Chamado à razão’ pode ser lido como uma ameaça contra a democracia por parte dos militares desse país.

Nele o jornalista reuniu uma série de declarações de militares das mais diversas patentes (inclusive altas patentes) sobre a situação politica no país e como estariam se movimentando.

Para qualquer defensor da legalidade e da democracia a mensagem é clara por parte dos militarem que alegaram que uma eventual libertação de Lula ou a vitória do PT no pleito presidencial poderia ser o estopim para uma “ação”, o texto não se restringiu a ameaçar petistas e também colocou a faca no pescoço do Supremo Tribunal Federal ao afirmar que outro ponto de tensão poderia ser a revisão da lei da anistia.

Três dias depois em entrevista à GloboNews o General Mourão afirmou que, em situação hipotética de anarquia, pode haver um “autogolpe” por parte do presidente com apoio das Forças Armadas. Quem definiria essa situação? O mandatário no momento, no caso o presidente que em sua suposição seria Bolsonaro, candidato do qual é vice no pleito presidencial.

O recado estava dado para os usuários da farda verde-oliva que não tardaram que se agitar obrigando o General Villas Bôas a se pronunciar afirmando que:

‘Legitimidade de novo governo pode até ser questionada’

O General que ameaçou o STF em abril é conhecido por dar este tipo de declaração para tentar conter os setores mais radicais das forças armadas, estranhamente ele é conhecido por liderar a facção mais “moderada” do exercito brasileiro, uma linha de frente empenhada em conter a “linha dura”.

Leia também: O retorno do verde-oliva no planalto, isso vai acabar bem?

Em 2016 ele afirmou:

“Eu avisei (ao presidente e ao ministro) que é preciso cuidado, porque essas coisas são como uma panela de pressão. Às vezes, basta um tresloucado desses tomar uma atitude insana para desencadear uma reação em cadeia”.

Veja também: Exército faz propaganda de pesquisa positiva por golpe militar

Ligeirinho

Nesta quarta-feira (12), com Bolsonaro fora do jogo devido a facada, o general agiu rápido e entrou com um pedido no Tribunal Superior Eleitoral em que requisita substituir o deputado em entrevistas à TV e debates eleitorais. O candidato à vice, no entanto, não consultou a cúpula de Bolsonaro ou seu partido, o PSL, antes de protocolar a ação judicial.

A entrevista de Waack com os militares também revelou que eles também não enxergam em Bolsonaro uma pessoa com grande sabedoria política e na verdade percebem que ele possui pouca capacidade de articulação para enfrentar um Congresso provavelmente hostil e por isso recomendam que ele fique encastelado com militares como o General Augusto Heleno que recomendam ocupar a pasta da Casa Civil.

A situação aparentemente é tão grave que Villas Bôas estaria se negando a passar o comando do exército, mesmo com uma doença degenerativa que lhe colocou em uma cadeira de rodas.

Provavelmente o general só fará isso após a instalação completa do novo governo em uma brasil pós-eleição. É triste acreditar que o pior talvez só não tenha acontecido por conta do que alguns consideram ser o líder do ultimo bastião legalista na caserna.

Outubro está chegando e em breve teremos a resposta sobre a veracidade do tweet do jornalista Noblat.

Cleber Lourenço
Editor-chefe, fundador e colunista desse site que tem como objetivo questionar e denunciar.
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