Coluna

– Jornalismo com opinião

<

A coletiva de imprensa do TSE prova que as nossas instituições estão funcionando muito bem sim, muito bem ameaçadas

Publicado por: em 21/10/18 7:54 PM

No mesmo dia em que revivem uma “palestra” de Eduardo Bolsonaro (em julho) na Alfacon, de Cascavel – PR, afirmando categoricamente que o STF precisaria “pagar para ver” caso impugnassem a candidatura de seu pai e que “para fechar o tribunal basta um soldado e um cabo”, bem como “quem faz passeata por juiz?”, o TSE faz uma coletiva de imprensa afirmando que as instituições brasileiras estão “funcionando corretamente”. Mas ao mesmo
tempo que afirmam isso, os ministros não sabem lá muito bem como resolver o “problema das fake news“, inclusive, pedindo sugestões. 

Trecho da palestra em Eduardo questiona a legitimidade do STF

A coletiva que girou em torno basicamente de perguntas à ministra Rosa Weber e ao Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência do Brasil (prestem atenção nesse cargo) Sérgio Etchegoyen teve tom morno, tecnocrata e absolutamente cuidadoso a tecer qualquer tipo de crítica ou julgamento (coisa que um tribunal devia, no mínimo, considerar) ao escândalo investigado e revelado pela Folha de São Paulo nessa semana. O ministro avaliou que as Fake News não são o maior dos problemas enfrentados quando se trata de ‘tentativas de influenciar’ as eleições, e a ministra enfatizou que “o direito tem seu tempo” ao ser perguntada sobre o Caixa 2. Mesmo quando questionada mais de uma vez sobre o posicionamento do ministro anterior do STE, Fux (que admitia a possibilidade de cancelamento do pleito quando houvesse comprovação desse tipo de crime), o tom das respostas foi cheio de tentativas de neutralidade.

Lavando as mãos: tudo no fim é uma disputa de narrativas?

“(…) Os efeitos de um fenômeno mundial que diz com Fake News. Se estão afetando a normalidade das nossas eleições? Essa é a sua pergunta? Certeza que a solução e as respostas vão variar dependendo do ponto de observação.” Weber, Rosa. (2:43′:50” no vídeo).

Essa frase, dita pela ministra quase no fim da coletiva, revela um tom impaciente e outro extremamente problemático: continuamente questionada sobre as irregularidades da campanha de Bolsonaro e como isso tem afetado as eleições, Weber lava as mãos e acaba por tirar um raio-x do mundo sob a dominação da ‘pós-verdade’. Tudo seria uma disputa de narrativas dentro de projetos específicos, não haveria uma resposta ‘de acordo com a legalidade’, no caso, sendo todo fato passível de interpretação. Querendo soar legalista, a ministra parece deslegitimar a própria instituição e praticamente deixa a entender que o TSE não tem nada a ver com isso, o que é sintomático de como o TSE parece estar pressionado e comprometido com um desses projetos ou narrativas. Qual será?

‘Depende do ponto de vista’, ‘depende de que lado’, ‘os extremos PT e Bolsonaro’, o discurso maniqueísta que tenta nivelar o antagonismo que não anuncia se resolver no dia 28 deste mês, também marca a simplificação e esvaziamento do debate político e a ‘diminuição’ moral e estética do que significa um eventual governo Bolsonaro – ora, ou é um ou é outro. É vale tudo. A quem serve dizer que o PT pode ser tão extremo quanto o Bolsonaro? Como isso pode ser minimamente afirmado sendo que depois de praticamente 14 anos no executivo o PT não foi capaz de, ao contrário do que dizem seus críticos, aparelhar minimamente as instituições para que elas impedissem o golpe? 

Chega a ser mal caratismo e até irônico afirmar que o PT tem alguma expressão significativa institucional nas eleições a ponto de conseguir abalar seu andamento ou resultado. Não há nenhum fato – a não ser notícias falsas de que as urnas digitam 13 por si só – que comprove qualquer mínimo aparelhamento do partido. Pelo contrário, acuado e ainda receoso de fazer a autocrítica, Haddad parece vir conduzindo sua campanha sem qualquer orientação ou plano.

Outro ponto central da coletiva – e cheio de significado – foi a crítica do Ministro Etchegoyen ao que ele chamou de “arautos do apocalipse” que anunciam as crises antes delas acontecerem. Em clara referência ao PT e aos movimentos #elenão, o ministro acaba por criticar não a máquina sistemática de mentiras bancada por parte do empresariado do setor de serviços do Brasil, mas aqueles que se opõe a essa estrutura, jogando nas costas das pessoas que estão cobrando um posicionamento das instituições a própria instabilidade das instituições. É como dizer que a culpa pelo clima de ilegitimidade institucional, de questionamento, de instabilidade, não é a campanha do Bolsonaro, que ri da legalidade e da institucionalidade – mas sim daqueles que pedem para que esse mesmo legalismo literalmente faça alguma coisa em relação a isso. Um paradoxo que só não seria mais incompreensível se não houvessem ministros como Toffoli que, ao reduzir o golpe de 64 a movimento, não indicasse que há efetivamente um aceno e proximidade dos militares com o judiciário.

Recapitulando: na defensiva

Uma semana antes do escândalo do #zapgate vir à tona, a Carta Capital publica um artigo que afirma um alerta de suposta vigilância militar recebido pelo alto escalão do PT. A campanha estaria sendo grampeada, ouvida, espionada e, literalmente, tutelada.

Em 15 de outubro, um decreto cria a Força-Tarefa para enfrentamento do crime organizado no Brasil, que cria um super órgão entre as agências de inteligência, a fazenda e militares e policiais civis-federais, o primeiro órgão da lista é o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência do Brasil.

Em setembro, Frentes Parlamentares Suprapartidárias, as bancadas do Boi da Bala e da Bíblia, fecharam um acordo que envolve mais de 260 deputados com a candidatura Bolsonaro. 

Após o primeiro turno, a bancada militar na câmara salta de 10 para 22 deputados. O PSL conseguiu 50 deputados. 

Toffoli, ministro do STF, afirma que prefere chamar o golpe de 64 de ‘movimento’.

A aprovação de Temer chega a ser menor que 3% no início desse ano. Nem com um esforço midiático para ‘falar com cada candidato’ a partir de vídeos no youtube o presidente em exercício ganha legitimidade ou capas de jornais. Seu cargo é meramente ilustrativo (mesmo que tenha deixado de ser um ‘vice decorativo’). A maioria das entrevistas com figuras importantes da institucionalidade brasileira se dão apenas com militares como os Generais Villas-Bôas e Sérgio Etchegoyen. O Executivo é anulado.

O PRTB afirma que preferia General Mourão no lugar de Bolsonaro nos debates. Militantes bolsominions l

Em Abril, nas vésperas do julgamento do Lula, o Comandante Geral do Exército, General Villas-Bôas, tweeta que o exército ‘sabe bem do seu papel institucional’ e tem o mesmo anseio que a população em relação à impunidade.

Em 2016 Temer revive o Ministério do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência do Brasil, pasta na qual é colocada a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), sob o comando do general Sérgio Etchegoyen, que já foi Chefe do Estado Maior do exército e chefe do Núcleo de Implantação Nacional de Defesa.

O objetivo aqui não é deixar ninguém encucado com alguma teoria de conspiração. Mas é possível que essa defensiva do judiciário, frente ao seu protagonismo nas decisões políticas adquirido desde o Impeachment, seja justificada quando percebemos que existe, de fato, uma aproximação e tutela militar sob as instituições nesse momento. O que precisamos pensar agora é: o compromisso é com as instituições? Então é melhor que aprendamos a dialogar com os militares. 

Mas e se não for esse o compromisso?

Assista na íntegra a coletiva de imprensa do STE:

Tim
Professor, pesquisador (mestrando) geografia urbana & geopolítica (USP). Poeta & escritor, agitador cultural, colunista/editor dA Coluna.
banner com links