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A deepweb é aqui. A rede de apoiadores de Jair Bolsonaro

Publicado por: em 30/10/18 9:00 AM

Dados obtidos pela reportagem Coluna,  revelam indícios de que há uma rede de apoiadores de Jair Bolsonaro com a presença de bots da Índia, Irã, Venezuela e Estados Unidos em grupos pró-Bolsonaro de Whatsapp no Brasil. Nesse grupos estão presentes os assessores dos filhos do candidato do PSL, Flávio e Eduardo Bolsonaro.

Segundo a reportagem da Folha, há uma maquina para a produção e disseminação de propaganda anti-PT financiada por grupos de empresários que chegam a gastar até 12 milhões de reais pelos disparos de mensagens. Com base na legislação eleitoral o caso é enquadrado como caixa 2: o investimento não foi declarado – e mesmo se houvesse a intenção de declarar não poderia ser feito, pois a doação de empresas para campanhas eleitorais é proibida, desde 2015.

O número de telefone indicado como da assessoria do deputado federal  aparece como administrador em alguns grupos, além disso em alguns grupos está presente, Flávio Bolsonaro que revelou seu número de telefone em um publicação no Twitter.

Os estrangeiros

A maioria dos “estrangeiros” nos grupos não possuem foto própria no avatar da rede social – usam fotos da campanha do candidato Jair Bolsonaro, deixam sem foto ou até mesmo fotos de outras coisas.

A estratégia usada pelas agências para disseminar conteúdo pró-Bolsonaro envolvia a geração de números estrangeiros dos Estados Unidos, usando ferramentas como o TextNow.

Nos grupos em que nossa reportagem esteve presente foi possível perceber a ausência ou redução da presença de números do exterior em grupos focados no norte e nordeste. Mesmo assim ainda foram localizados números com códigos dos seguintes países: Guiné, Portugal, EUA e Letônia.

Membros do exterior em um dos grupos focados no nordeste (Reprodução).

Alguns outros comportamentos foram notados por nossa reportagem: os criadores dos grupos, de forma geral, não postam, não comentam e não interagem nos grupos. Aparentemente a função desses ‘líderes’ foi apenas de criar os grupos e enchê-los de pessoas, a publicação de conteúdo se dá através dos números internacionais ou outros membros do grupo.

Foi descoberto que, entre estes contatos, uma pessoa tem participação direta na criação de grupos para determinadas regiões do país. Um número da região de João Pessoa, no estado da Paraíba, que edita os links, nomes dos grupos, cria grupos para as mais diversas regiões do Brasil e exclui pessoas contrárias a Bolsonaro que entram nos grupos e podem fazer oposição.

Levantamos também em quais grupos ele está presente:

Todos os grupos criados por ele sempre contavam com outro contato (DDD 86) do estado do Piauí, inserido nos grupos como administrador juntamente com outras pessoas que seriam moradoras da região da qual o grupo foi criado.

Nos últimos dias, o “auxiliar” dos grupos saiu de todos eles e sumiu do Whatsapp (o motivo ainda é desconhecido). Durante a madrugada deste final de semana vários grupos ainda foram renomeados e tiveram seus links de acesso revogados e alterados além da saída de diversos membros e administradores.

Mentiras e mais mentiras

Em um dos grupos onde está presente o número de Flávio Bolsonaro (senador do PSL), que ainda está como um dos administradores do grupo, há livre circulação de mentiras e calúnias, sem qualquer intervenção seja de Flávio, seja de qualquer outro administrador.

Um dos grupos é o ‘Endireita Araguaína’, grupo dedicado aos apoiadores de Bolsonaro da cidade (que fica no estado de Tocantins). O grupo aparentemente segue a regra dos grupos do eixo norte-nordeste que contam com nenhuma ou pouca presença de números estrangeiros (este grupo em questão não possui nenhum).

Neste mesmo grupo também é possível ver a participação do candidato derrotado, Comandante Sarmento de 56 anos, Membro das Forças Armadas e que tentou o cargo de Deputado Federal no Rio de Janeiro pelo PSL.

Sarmento é um fervoroso anticomunista nas redes sociais, procura sempre produzir vídeos usando seu uniforme de militar com uma linguagem forte e cercada por ódio.

Na publicação abaixo, por exemplo, ele estimula o assassinato de comunistas, ao mesmo tempo que produz uma notícia falsa ao afirmar que a imagem abaixo seria da Venezuela.

Reprodução/Facebook
Flávio Bolsonaro e Sarmento (Reprodução/Facebook)

Bolsonaro uniu o Paquistão e a Índia

Nos grupos de apoiadores ainda é possível notar uma quantidade considerável de números telefônicos que seriam provenientes de dois países que estão em conflito há décadas.

Só em um dos grupos é possível verificar a presença massiva de “apoiadores” com números destes países, inclusive do Iêmen.

O telefone da assessoria de Eduardo Bolsonaro também participa de grupos com membros e números tanto da Índia quanto outros países.

No grupo “BLOG DO MOURA/BOLSONARO” o telefone da assessoria de Eduardo Bolsonaro figura inclusive como um dos administradores, no grupo estão presentes números dos EUA, país de onde a reportagem da folha afirma ser os números usados para distribuição de conteúdo pró-bolsonaro.

Além destes números é possível ver contatos de Moçambique, Índia e Irã.

Além disso, alguns grupos possuem administradores internacionais com números também nos EUA.

Outros grupos também contam com a participação de pessoas no Paquistão e Índia, alguns não declaram apoio de maneira direta à Jair Bolsonaro – como o grupo “Escolhidos Por Deus” – que possui entre seus membros um número do Paquistão, cuja foto do avatar é um homem segurando uma arma.

Outro grupo também “invadido” por supostos árabes é o ‘Resgate Final” um grupo com apoiadores de Jair Bolsonaro criado em Julho deste ano por um número da região metropolitana de São Paulo, repleto de números internacionais, inclusive, números provenientes do Egito.

A situação é semelhante em outro grupo religioso que não é focado em apoiar Bolsonaro, diversos números do Paquistão, Índia e também Turquia.

Além de indianos, paquistaneses e números com o código do Iêmen ainda encontramos um grupo de “caminhoneiros” repleto de números da Nigéria.

A facilidade para aquisição de chips indianos é outro ponto, apesar de haver legislações rígidas quanto ao registro de números telefônicos (no país uma pessoa pode manter 5-7 números em uma única rede) e uma burocracia na ativação das linhas, há relatos de que cada vez mais os fornecedores de chips oferecendo cartões já registrados, nos próprios aeroportos.

Além disso, basta você ter um registro de uma loja de varejo ou empresa e poderá comprar ilimitados chips sem restrição para livre uso.

“Entraram em contato comigo”

Segue o relato de uma usuária do Whatsapp que não quis ser identificada:

Desde que eu entrei nos grupos do Bozo, eu ando recebendo mensagens privadas de um monte de números, alguns gringos e um inclusive que ficava me mandando pedido de chamada de vídeo, quando eu recusei ele disse em inglês que esperava que eu ficasse surda e me mandou um vídeo pornô. E constava como número comercial… eu bloqueei e denunciei pro WhatsApp

Localizamos dois dos números informados pela vítima dentro dos grupos pró-Bolsonaro, mais especificamente no grupo “Presidente 17“, onde também estão presentes diversos outros números internacionais com o código dos EUA, além do número da assessoria de Eduardo Bolsonaro e outro contato da Índia.

Mapeamento dos usuários?

Alguns programas se utilizam de perfis e contas no Whatsapp para fazer o mapeamento comportamental dos usuários. Umas dessas ferramentas é o WNL, revelado pelo The Intercept, uma plataforma que consegue mapear interações e criar dossiês de cada um dos membros dos grupos em que está presente, para assim o receptor destas informações conseguir escolher qual a melhor propaganda para atingir determinado consumidor, ou neste caso, eleitor.

O site só pode ser acessado com um endereço bem especifico (http://wppmaq.online/admin/login) e em sua página de login não há opções para recuperação de senhas, ou qualquer outro dado – o que já mostra o nível de sigilo que a ferramenta oferece ao usuário.

O servidor do site da WNL fica localizado na cidade de Nova York, nos Estados Unidos, e é hospedado pela Digital Ocean , com um provedor americano de infraestrutura de nuvem com data centers em todo o mundo. 
Os serviços de nuvem oferecidos pela empresa ajudam a implantar e dimensionar aplicativos executados simultaneamente em vários computadores.

O registro do domínio é protegido pela Domains by Proxy (DBP), uma empresa de Bob Parsons, fundador da GoDaddy e é dedicado unicamente a oferecer serviços de privacidade de domínio. Quem está pro trás da WNL? Um mistério. 

Se o WNL parece muito “obscuro” para você, não se preocupe, há opções mais “leves” no mercado, como o ChatWatch, site usa informações públicas do WhatsApp, como o status de online. Com ele já consegue gerar relatórios de atividade dos contatos que você quiser espionar.

Para isso basta a pessoa ter você adicionado nos contatos dela. Os dados oferecidos pelo serviço com base no horário de uso indicam, por exemplo, se alguém ficou acordado até tarde, se foi dormir cedo, se acordou cedo, ou seja, só com essas informações você já pode inclusive saber qual o melhor horário para entrar em contato com essa pessoa, se ela está em casa ou não, além de saber com quem essa pessoa estaria conversando.

Reprodução

Se você ainda acha que os famigerados “bots” são tecnologias avançadas de outros planetas, então irei deixá-lo um pouco mais preocupado: bots para grupos de Whatsapp são tão simples e banais que seu uso se tornou até mesmo algo doméstico dentro dos grupos, onde você pode achar até mesmo tutoriais simples no Youtube de como cria-los – caso do bot de interações e distribuição de noticias desenvolvido pela empresa indiana Duta.

A empresa possui a seguinte descrição em seu site:

Duta ™ é o start-up de crescimento mais rápido da Índia e uma empresa emergente de mídia internacional, atendendo a milhões de assinantes em todo o mundo. Entregamos notícias de última hora, esportes atualizados, as últimas notícias de entretenimento, envolvendo serviços interativos e conteúdo devocional por meio de aplicativos de mensagens móveis populares, incluindo WhatsApp e Telegram. Somos bem financiados por VCs que eram investidores em estágio inicial em sites como Facebook, Lyft e Snapdeal. Nossa equipe de liderança é formada por empreendedores de tecnologia experientes e bem-sucedidos. A Duta ™ está sediada no Vale do Silício e Chennai, com redações nos EUA, Índia e Espanha.

Entre seus fundadores está Anand Ranganathan, descrito pela empresa como o fundador da Efficient Frontier, uma plataforma de publicidade on-line unificada para gerenciar marketing de mecanismo de pesquisa (SEM), publicidade de exibição para lances e campanhas de mídia social em nome de profissionais de marketing e agências em todo o mundo. Em 2011 a empresa foi comprada pela Adobe, Inc.

Uma reportagem da Época com fontes anonimas confirma que os grupos provavelmente possuíam membros com números internacionais para disfarçar e dificultar o mapeamento da distribuição de conteúdo tendencioso e fake news.

Além de confirmar que há uma segmentação dos grupos e públicos indicando que estes mesmos números também eram utilizados como bots para mapear o perfil do eleitorado.

Chegou no Chile

No Chile o senador Alejandro Navarro quer implementar a ‘Lei Bolsonaro’ para combater as fake news no país. Segundo o parlamentar, a medida poderia até mesmo destituir os políticos e candidatos que propagarem notícias falsas em discursos ou redes sociais.

Em nota o senador afirmou: 

“a reforma é necessária para proteger a democracia”.

A medida é um reflexo de como a comunidade internacional vê a incapacidade a cumplicidade do sistema judiciário brasileiro com práticas criminosas que tem como único objetivo conduzir o debate politico de maneira agressiva com o único objetivo de causar convulsão social.

A medida prevê punições severas, como “a cassação do cargo ou da candidatura política quando for o responsável pela difusão de notícias falsas contendo algum adversário político durante a campanha”.

Navarro ainda afirma que a extrema-direita na América latina vem utilizando estratégias de big data (como o já mencionado mapeamento do perfil do eleitorado) para cooptar a opinião pública.

Rede anti-pt brasileira

Em maio deste ano,  a reportagem do UOL revelou que Fernando Francischini, coordenador da campanha de Jair Bolsonaro, usou R$ 24 mil de sua cota parlamentar para pagar uma empresa ligada a uma rede de sites para disseminação de noticias falsas.

Entre os sites estão presentes: Folha Política, Política na Rede, Correio do Poder, Crítica Política, Folha do Povo e Gazeta Social.

No Facebook o grupo fez a administração das páginas ‘MCC – Movimento contra Corrupção‘, ‘Juventude contra Corrupção’, ‘Juiz Sergio Moro – O Brasil Está com Você‘, ‘Apoio ao Moro e Movimento Democracia Participativa‘ e o perfil do recém-eleito deputado e ex-ator pornô Alexandre Frota.

Esse mês, uma semana antes do segundo turno, o Facebook Brasil removeu um grupo de 68 páginas e 43 contas da rede social. As páginas tinham envolvimento também com o grupo Raposo Fernandes Associados (RFA) e violaram as regras da empresa com o uso de spam e criação de contas falsas para disseminação de conteúdo.

Cleber Lourenço
Editor-chefe, fundador e colunista desse site que tem como objetivo questionar e denunciar.
Entre em contato: cleber@acoluna.co
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