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Agosto acabou, a lesbofobia não!

Publicado por: em 4/09/18 8:52 PM

O mês de agosto acabou, mas a lesbofobia não. Imagine as seguintes situações: 1) uma fotógrafa lésbica e rebelde, que decide largar o pai religioso e volta para casa após o falecimento deste, reavivando um amor do passado; 2) uma mulher rica e uma balconista que se apaixonam em plena década de 1950; e 3) um relacionamento experimental entre duas mulheres que juram absoluta honestidade e transam de hora em hora por 24 horas. Essas três narrativas cinematográficas apresentam três perspectivas distintas sobre a relação entre mulheres, emoções de todos os tipos, ações e desejos de múltiplas naturezas.

O mês agosto, embora tenha acabado, não acabou também com invisibilidade lésbica. Apesar da quantidade de pessoas que propagam a ideia de que as lésbicas são aceitas socialmente, é importante dizer que essa falsa noção só se explica por duas coisas que circundam o dia-a-dia da mulher lésbica: elas sofrem apagamentos sistemáticos da sua sexualidade e, além disso, são fetichizadas. Homens gays, por exemplo, não tem que dar satisfações de relacionamentos passados que venham a ter tido com mulheres e ninguém nunca duvida de sua sexualidade por isso. O mesmo não acontece com mulheres lésbicas. Se em algum momento de suas vidas já tiveram um relacionamento com algum homem, isto automaticamente se torna razão para dizer que “é só uma fase”, “ vai passar”, “ela deve ter tido alguma grande decepção amorosa”, entre outros pérolas. E mais, se pesquisarmos a palavra “gay” no Google, vamos encontrar uma série de notícias sobre homofobia e violência, mas nada  ou bem pouco sobre lésbicas. Agora, se pesquisarmos a palavra “lésbica” no Google, encontramos basicamente pornografia, e nem estamos falando de pornografia voltada para lésbicas, mas pornografia voltada para homens heterosexuais.

Muitas pessoas ainda não compreenderam que “fetichização” não é sinônimo de aceitação social. Fetichização, no caso das mulheres lésbicas, é sinônimo de objetificação. Esse é principal caminho que devemos todos percorrer para entender ideologicamente o lugar que a mulher lésbica ocupa na sociedade. Para tal, gostaria de indicar três filmes que redimensionam a visão sobre as coerções vidas por essa mulher. Filmes em que essa mulher tem que passar e “objeto” a “sujeito de suas ações”. Vamos lá…

Desobediência, dirigido por Sebastian Lelio

No filme Desobediência, a mulher lésbica é apresentada em duas versões complementares aparentemente. Numa delas, ela é domesticada pela religião (Esti, interpretada por Rachel McAdams); em outra, a mulher rebelde que recusa suas origens (Ronit, interpretada por Rachel Weisz). Em ambos os casos, suas condições de existência foram escolhas e não coerções. Quando o pai de Ronit, um respeitado rabino e figura paterna repressora, falece, a filha decide retornar à cidade-natal para o enterro. Lá, ela descobre que a moça por quem se apaixonou na adolescência está casada com seu amigo de infância. O retorno de Ronit é visto com desconfiança por todos, inclusive Esti, sua paixão. Esta foi obrigada a se confinar no mundo de boa esposa judia, como prática curativa de sua doença, isto é, sua purificação dependia de sua obediência a sua fé. Elas se enveredam em reviver a paixão da adolescência. A tensão entre as duas: tanto do ponto de vista sexual, quanto emocional, as carregam ao abismo de suas próprias vidas. Ambas se encontram no limiar da desobediência e é disso que o próprio filme trata. No caso específico da constituição da personagens lésbicas, a figura feminina é obrigada a obedecer, mas sua libido é um problema para a ordem social. Ambas são levadas acreditar que escolheram suas condições de existência, escondidas e abafadas pelo dever de servir a alguém. O discurso do marido de Esti, no final do filme, parece que será uma realização e uma libertação, mas é apenas a exposição da incerteza entre viver o realidade de si mesmo ou uma farsa. O discurso das incertezas e da ordem, é claro, vem de um homem.

Carol , dirigido por Todd Haynes

Situação semelhante encontramos no filme Carol, estrelado por Cate Blanchett e Rooney Mara. Carol, a personagem de Blanchett, é uma mulher rica, prestes a se divorciar, já segura de seus desejos, que se apaixona pela balconista de uma loja de brinquedos Therese Belivet, interpretada por Mara, quando procura um presente para sua filha. O presente escolhido por Carol é um trenzinho, pois Belivet diz que adoraria ter ganhado um quando era pequena. O trem, brinquedo normalmente associado ao universo masculino, já indica o caminho que seguirá a narrativa. Therese, apesar de ter um namorado e se interessar por fotografia, não sabe ainda o que deseja fazer da sua vida. Ambas se envolvem, a ponte de Harge, marido de Carol, querer afastá-la de sua filha, principalmente, por sua masculinidade castrada. Não suportando a ideia de ser separada da filha, Carol decide partir numa viagem de carro com aquela que ama. Nesta jornada, ambas terão que encarar uma dúvida: que tipo de mulher desejam ser? Não é uma narrativa de pura desobediência, mas da formação da identidade da mulher. Identidade que, primeiramente, lhe foi imposta, e através do exercício e liberação do desejo sexual, esta mulher precisa se redescobrir. Carol, antes bastante segura, se fragiliza, enquanto Therese se assegura.

Duck Butter, dirigido por Miguel Arteta

Duck Butter, no entanto, apresenta um outro universo de tensões. Este filme experimental mostra a simbiose entre duas personagens interessantes, mas ao mesmo tempo esquisitas uma a outra, que causam estranheza em quem vê. Naima (Alia Shawkat) se apaixona num bar por Sergio (Laia Costa). Sergio recebe este nome porque sua mãe sempre quis ter um menino, então, tomou como segundo nome e passou a usá-lo. Naima fica extasiada pela leveza, beleza e liberdade que Sergio transmite ao cantar. A mulher que via diante de si era livre, artística e bem humorada; talvez fosse tudo o que mais procurou numa mulher. Naima, porém, está concentrada no seu primeiro emprego como atriz de filmes e não mais de comerciais. Ela seria a mulher que não mais é produto de comercial, mas de uma peça de arte. Ao perder o emprego no filme independente, ela procura Sergio e resolve aceitar a proposta de passar 24 horas juntas, se conhecendo, transando e conversando sobre tudo na mais absoluta sinceridade. Boa parte do filme foi filmado em 24 horas, de fato, o que transparece nas reações genuínas de cansaço das atrizes. No entanto, aos poucos, uma vai se tornando a outra, aderindo uma outra. Naima, que sempre se viu como uma “tomboy” logo passa a se sentir mais “delicada”, e Sergio, apesar do nome masculino, é mais “delicada” e se “masculiniza” ao se envolver. Aos poucos, o relacionamento passa a ser o personagem principal. O título do filme é devido a uma história em que Naima, ao dormir, com um homem, ele não gosta do fluido de lubrificação natural dela, comparando a uma “Duck Butter”. O título, representando uma fala misógina, coloca em xeque a intimidade que pode ser partilhada entre mulheres, não mais para representá-las lésbicas, mas para representá-las como seres humanos em um relacionamento, apesar das falhas.

Em nenhum dos casos, as relações entre mulheres têm garantias de que darão certo, mas em todos os casos são convites para repensar sua própria condição de existência. A mulher lésbica não é mais aceita em nossas sociedade, como julga o senso comum. Além disso, sua invisibilidade é consequência do seu desejo ser obrigado a existir mascarado de “amizade”, como ocorrem todos os casos acima.  Tudo apenas contribui para a invisibilidade da mulher lésbica. Um mês como o de agosto, apesar de campanhas discretas, não pode passar despercebido, pois o mês acabará, já a lesbofobia não. Ela persistirá, se cruzando ao machismo estrutural e à misoginia. As palavras “lésbica” e “lesbofobia” são palavras necessárias para dar conta do fenômeno social, inclusive dentro movimento LGBTQI+, que nem sempre trata com as mesmas prioridades pautas de mulheres, como trata a de homens. Apenas através da linguagem podemos propor nossa identidade e apenas ela é capaz de tornar real aquilo que somos, para lutar e, enfim, existir.

Redação A Coluna
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