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ANÁLISE | Brasil, o país acolhedor e de braços abertos (?)

Publicado por: em 22/08/18 8:00 AM

O que é ser brasileiro? Para muitos – principalmente aqueles que desconhecem – nossa cultura se manifesta pelo samba, caipirinha, feijoada, futebol e alegria. O povo que apesar da vida dura e sofrida, carrega o sorriso no rosto e o gosto de viver. Mas, dentre tantos rótulos que nos colocaram, destaca-se aquele que diz somos um povo pacifico e acolhedor – provocação representada no título deste artigo. Aceitamos todas as culturas e abraçamos todas as crenças. O Brasil é maravilhoso! Não existe povo igual!

Foto de Geraldo Maia (Reprodução El País – https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/18/politica/1534628902_135239.html)

Esse rótulo foi construído sob o signo da ingenuidade, como quando aprendemos no antigo Ensino Primário que o Brasil é formado pela ‘mistura de raças’ que, de forma muito romantizada, deu origem ao novo povo, sedimentado na figura do mulato, do mameluco e do cafuso. Ignora-se o estupro, a humilhação, a exploração e a convivência forçada. Assim aprendemos que somos um povo diverso e tolerante. Ignora-se também a própria ‘ideia’ de Brasil – conceito que se perde ao longo da nossa história e passa o tempo todo precisando ser reconstruído frente as inúmeras e imensas diferenciações regionais que nos transformam numa nação completamente fragmentada, se é que somos apenas uma nação.

Quando recebemos grandes levas de imigrantes vindos do Japão e da Europa, sobretudo da Itália, Alemanha, Polônia, Espanha, entre outras, exaltamos suas contribuições para a nossa cultura e seus grandes feitos no país. Povos de pele branca que aprendemos a ver como superiores a nós. Só prestaria, nesse contexto, o que eles criam e praticam, já o que é brasileiro é ruim, mal feito, descartável. Devemos imitar nossos imigrantes e ostentar nossos sobrenomes quando descendemos deles.

Consolidado ao longo do século XX, esse rótulo cai por terra quando quando o imigrante recebe o adjetivo “refugiado”. Quando ele é descendente de povos nativos americanoscomo bolivianos em condições análogas à escravidão confinados em confecções (muitas vezes patrocinadas por grandes marcas de vestuário e calçados), quando é muçulmano como os sírios que carregam o estigma do terrorismo, quando ele tem pele negra como os haitianos que convivem com o medo diário da agressão e do homicídio ou quando vem da Venezuela (país cujo modelo econômico e político é rejeitado pela direta raivosa no Brasil) os braços, outrora abertos para o branco europeu e o educado japonês, se encolhem e voltam-se para o estrangeiro com o punho cerrado, inclinado a expulsar aqueles que não são bem vindos.

Hino nacional + expulsar imigrantes. Onde termina essa combinação? Em https://www.youtube.com/watch?v=8365EC-wNcE

Para aqueles que exaltam o imigrante europeu, mas odeiam o refugiado venezuelano, aqui vai uma reflexão: já pararam pra pensar que, no passado, aqueles a quem amamos como imigrantes na verdade eram também refugiados? Sim, os japoneses fugiam da guerra e o italiano fugia da fome e da exploração do trabalho fabril. Mas, mesmo como refugiados, foram bem vindos porque a elite brasileira depositou neles a esperança de embranquecer o país. Embranquecimento que se vê constantemente ameaçado quando a população pobre se reproduz (Bolsonaro já comentou sobre isso quando defendeu o controle de natalidade entre a população pobre como forma de combater a violência) ou quando gente negra, mestiça ou de uma cultura marginalizada sob o julgo da cultura branca e europeia chega ao país.

O número de refugiados que desembarcam em território brasileiro é muito pequeno se comparado aos que chegam em outros países, como a Turquia (3,5 milhões de refugiados – segundo a ACNUR) e o Líbano, que mais recebem Sírios. e a Colômbia com mais de 400 mil imigrantes venezuelanos já assentados (dados da ONU e G1). Trata-se de uma realidade que inclusive nem nos atinge na sua forma mais complexa e numerosa.

É preciso refletir cada vez mais sobre o papel do conservadorismo e de ideologias de ódio na sociedade brasileira – o caminho que seguimos agora, nesse ritmo, aponta para uma trilha sem volta. 

Destruição resultante do ódio (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Fontes:

ACNUR. Deslocamento forçado supera 68 milhões (…)


G1. Como os países vizinhos tem reagido à chegada de milhares de imigrantes da Venezuela.


G1. Venezuelanos atravessam a fronteira após ataques em RR. 

O povo. Bolsonaro defendeu esterilização como forma de combater miséria e criminalidade.

Redação A Coluna
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