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ANÁLISE | Trade externa e escoamento: uma receita para a catástrofe

Publicado por: em 5/09/18 9:41 PM

Ao ser questionado sobre a importância e das ações a serem tomadas, Ciro cogitou a ação de Trades Externas atuando diretamente na  soberania alimentar brasileira. Mas o que seria uma trade?

 Na ultima terça-feira (4) o candidato Ciro Gomes participou da sabatina do Estadão/FAAP entre um dos diversos temas que foram tratados Ciro falou sobre o agronegócio.

Trading Company?

Trading companies são empresas que atuam como intermediárias entre empresas fabricantes e empresas compradoras, em operações de exportação ou de importação, a proposta destas empresas é dinamizar e facilitar a comercialização entre as fabricantes e outras empresas compradoras.

Dessa forma, há a possibilidade de ela comprar itens fabricados por terceiros para revender no mercado, ou então fazer circular variados produtos.

Em suma, é proposto por Ciro que empresas externas (estrangeiras) tragam a tecnologia e recursos necessário para aumentar e produção de alimentos no país, da mesma maneira que estas empresas também cuidariam do escoamento dessa produção.

Parece bom

O que aos ouvidos de alguns possa parecer um passeio no parque se analisado mais de perto certamente se tornará um filme de terror a longo prazo. Mas onde está o problema na proposta de Ciro Gomes? A parceria externa para escoamento da produção.

Imagine uma guerra comercial onde o Brasil esteja envolvido, ou imagine que alguém queira afetar algum parceiro comercial do Brasil.

Veja guerra comercial China e EUA, nosso maior importador é a China, ou seja, quem compra nossa produção. Só em 2014 a soja foi a responsável por US$ 13,98 bilhões do total de US$ 28 bilhões em mercadorias vendidas ao mercado chinês nos primeiros sete meses daquele ano.

Agora imagine se o escoamento de produtos fosse responsável majoritariamente por trades americanas…

Nesse cenário hipotético, o Brasil estava em guerra comercial com a China ou com os EUA? Não, mas certamente pagaria um preço alto, em especial a produção familiar, o pequeno produtor que já enfrenta suas dificuldades.

Imagine então que o Brasil entre em guerra comercial com os EUA, nossas tradings de tecnologia e escoamento também são americanas.

Resumindo, apesar de um negócio perigoso, ainda é aceitável ter alguma trade internacional segurando as pontas no fornecimento de insumos e tecnologias. O problema fica no momento que você decide projetar o escoamento dessa produção e deixar isso na mão delas. Isso sim é perigoso.

Segundo documentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, sigla do inglês Food and Agriculture Organization) países como a Alemanha não permitem que Trades assumam o controle ou tenham qualquer tipo de envolvimento com o escoamento da produção no país, a medida seria uma maneira de assegurar a segurança alimentar e constantemente é foco de embates com a Organização Mundial do Comercio, essa politica também se estende ao abastecimento do país e está em vigor desde os anos 90.

Mas a Alemanha tem medo do que?

Em 2015 mais de mil toneladas de alimentos da cesta básica foram apreendidos pelo governo venezuelano em um galpão da empresa de distribuição Herrera S.A., o “estoque” fazia parte da guerra econômica declarada pelos grandes empresários contra o governo de Nicolás Maduro.

A Herrera S.A. detém um forte controle na distribuição de produtos alimentícios, de higiene pessoal e enlatados no país, uma trade que controlava o escoamento da produção daquele país e que usou seu poder para fazer ativismo e terrorismo social desabastecendo casas e colocando famílias com medo da fome.

Outra gigante do ramo alimentício a fazer algo semelhante foi a Heinz (aquela do ketchup) que após a vitória da direita nas eleições parlamentares venezuelanas anunciou que retomaria a produção em suas fábricas. 

Como você pode perceber, deixar a alimentação de brasileiros na mão de grandes grupos internacionais é um risco para a segurança e soberania nacional.

Nada que não possa piorar

Ainda em um levantamento feito pela confederação nacional dos trabalhadores e trabalhadoras na agricultura familiar do Brasil (CONTRAF) com base em dados do IBGE do censo agropecuário a entidade alertou para o colapso da segurança alimentar e nutricional do país.

Com os dados, verificou-se a redução de 1,5 milhão no número de pessoas ocupadas nos estabelecimentos agropecuários, o que indica a falta de políticas para a sucessão rural no campo; em 2017, 1.681.001 produtores utilizaram agrotóxicos, ou seja, aumentou o uso 20,4% em relação a 2016; cerca de 15,5% dos produtores disseram nunca ter frequentado escola e 79% não foram além do nível fundamental; aumentou de 45% para 47% de 2006 para 2017 os estabelecimentos que se enquadram como grande latifúndio.

As ultimas medidas orçamentárias de Michel Temer agravaram ainda mais a situação uma vez que ouve o corte de investimentos para o Programas de Aquisição de alimentos, o corte chegou a quase 100% do valor que era destinado.

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O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), criado no governo Lula pelo art. 19 da Lei nº 10.696, de 02 de julho de 2003, possui duas finalidades básicas: promover o acesso à alimentação e incentivar a agricultura familiar.

Para o alcance desses dois objetivos, o programa compra alimentos produzidos pela agricultura familiar, com dispensa de licitação, e os destina às pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional e àquelas atendidas pela rede socioassistencial, pelos equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional e pela rede pública e filantrópica de ensino.

O PAA também contribui para a constituição de estoques públicos de alimentos produzidos por agricultores familiares e para a formação de estoques pelas organizações da agricultura familiar.

Além disso, o programa promove o abastecimento alimentar por meio de compras governamentais de alimentos; fortalece circuitos locais e regionais e redes de comercialização; valoriza a biodiversidade e a produção orgânica e agroecológica de alimentos; incentiva hábitos alimentares saudáveis e estimula o cooperativismo e o associativismo.

Qual o objetivo do desmonte desse programa? Repassar o mercado para trades que dominariam o mercado como já acontece no centro-oeste do país.

Centro-oeste, um alerta

O que acontece quando o estado é minimo na produção alimentar?

Segundo uma matéria do jornal Centro Oeste Popular o controle das trades no agronegócio da região é tão grande que produtores rurais sequer tem coragem de contradizer ou contrariar as empresas que segundo eles podem revidar qualquer critica ou manifestação contrária com a colocação do nome do produtor rural em uma espécie de lista negra, além de negar financiamentos e até mesmo depreciar produções para mercados internacionais.

A situação é tão grave que os produtores da região afirma que perderam o controle de suas produções e que as trades ditam inclusive o que deve ou não ser produzido.

Agora pense na catástrofe que seria entregar o 3º maior banco de alimentos do mundo nas mãos dessa gente.

Cenas como o descarte de batatas e tomates em beiras de estradas como foi em 2017 se tornariam ainda mais comuns e banais.

Cleber Lourenço
Editor-chefe, fundador e colunista desse site que tem como objetivo questionar e denunciar.
Entre em contato: cleber@acoluna.co
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