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ARTIGO| Desindustrialização no Brasil: um debate fundamental

Publicado por: em 31/08/18 5:01 PM

Nesta semana continuarei tratando de temas que considero relevantes para o debate eleitoral. Semana passada abordei a questão do Racismo e da desigualdade econômica. Agora é a vez do processo de desindustrialização que o Brasil vem atravessando.

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Em 1994 o economista estadunidense Paul Krugman proferiu uma daquelas frases tão impactantes e reveladoras que se perpetuam e servem de mantra ou estampas de camisetas: “Produtividade não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo”. A produtividade do trabalho é tema central na teoria econômica desde quando Adam Smith, ao estudar o funcionamento de uma fábrica de alfinetes, observou que era a divisão de trabalho e a utilização de ferramentas que acelerava o processo de produção e, em grande medida (e aqui estou simplificando o argumento dele), explicava o diferencial de riqueza das nações.

Sobretudo o relevante para este debate é que o setor industrial é o principal motor para o aumento da produtividade no longo prazo. Esse aspecto é ressaltado por muitos autores dentro da teoria econômica, embora não seja consenso (como quase tudo em economia) – o debate entre Ha-Joon-Chang e Jadish Bhagwati na revista The Economist em 2011 exemplifica esse dissenso.

O economista húngaro Nicholas Kaldor, por exemplo, destacava que em decorrência do processo de industrialização ocorreria uma transferência de recursos da agricultura para a manufatura, o que engatilharia o processo de mudança estrutural. Consequentemente, há uma mudança na própria demanda que passa a incorporar cada vez mais bens manufaturados, servindo de estímulo para os investimentos produtivos e a expansão da produção.

A partir desses investimentos, via formação bruta de capital fixo e de adoção de maquinaria e novas tecnologias, o crescimento da produtividade industrial se daria de forma mais intensa do que em outros setores. Além disso, haveria uma relação positiva entre crescimento econômico e crescimento industrial, a chamada Lei de Kaldor-Verdoom, onde tanto o crescimento da indústria teria efeito positivo nos demais setores. Quanto o aquecimento da economia e da economia poderia implicar em estímulos positivos para a indústria. Portanto, o comportamento do PIB de um país está relacionado às flutuações de sua produção industrial. Como pode ser observado no gráfico abaixo, para o caso brasileiro.

Fonte: http://www.paulogala.com.br/viva-a-industria/

Já o economista estadunidense Alfred Chandler Jr. – referência nos estudos sobre organização industrial – em sua obra “Escala e Escopo: as dinâmicas do capitalismo industrial” argumenta que a indústria teria um papel fundamental na economia e na explicação da evolução da produtividade à medida que na atividade industrial há mais espaço para a inovação tecnológica, automação e economias de escala e escopo, do que nos serviços ou na agricultura. Essa característica faria a indústria ser um setor especial.

Enquanto o economista alemão Albert Hisrchman destacava que, além disso, a indústria teria uma maior capacidade de provocar efeitos de encadeamento para frente e para trás, isto é, de criar novas atividades e transbordar produtividade nas etapas que a precedem na cadeia produtiva – caso da agricultura – e nas que a sucedem – caso dos serviços.

            Em razão da importância da indústria para o desenvolvimento e para o crescimento da produtividade no longo prazo, o fenômeno conhecido como desindustrialização é tão relevante.

O CONCEITO DE DESINDUSTRIALIZAÇÃO

            O estudo da desindustrialização se iniciou com os trabalhos de Rowthorn e Wells (1987), Rowthorn (1984) e de Rowthorn e Ramswani (1999), os quais entendiam-na como a queda da participação industrial no PIB ou da participação do emprego industrial no emprego total de um país. Esses primeiros trabalhos apresentavam uma inspiração no modelo etapista de desenvolvimento de Rostov. No qual as sociedades evoluem partindo do setor agrário para o manufatureiro até o de serviços. Onde o avanço para a próxima etapa superior diminuía a participação do setor predominante anteriormente.

Assim, por essa ótica, a desindustrialização seria um processo natural do desenvolvimento econômico. À medida que as nações se desenvolvem elas diminuiriam a participação do setor manufatureiro e aumentariam o de serviços, reduzindo a participação industrial no PIB e ampliando a participação do setor de serviços.

Esse fenômeno também está relacionado à Lei de Engel. De acordo com esse princípio econômico, existe uma relação entre os rendimentos das famílias e a respectiva estrutura de seu consumo. Quanto menor for a renda familiar, maior será a participação dos gastos com alimentação e menor a participação dos gastos com saúde, cultura, lazer, habitação, entre outros. Quando a renda familiar cresce, a participação desses outros bens aumenta na cesta de consumo da família.

Desse modo, quando um país se desenvolve, a renda média da população tende a aumentar no longo prazo, quanto maior a renda maior a participação de bens além do necessário para a subsistência. Então, em um estágio inicial de desenvolvimento, as pessoas ao terem mais renda consumiriam relativamente menos alimentos e passariam a consumir mais bens manufaturados, como roupas e eletrodomésticos, e serviços. Em um estágio superior, consumiriam relativamente mais serviços – como cinema, idas ao médico, uso de táxi/uber etc – e menos bens manufaturados.

De tal forma que a Lei de Engel estaria relacionada à desindustrialização como processo natural do desenvolvimento econômico, pois reforçaria essa redução da participação relativa da indústria no PIB à medida que a renda da população cresce e seus hábitos de consumo mudam.

O economista chileno Gabriel Palma, ao tentar compreender esse fenômeno, particularmente nos países em desenvolvimento, acrescenta que a desindustrialização teria quatro fontes principais:

  1. A relação de “U invertido” entre emprego industrial e renda per capita, que aponta para o fato destacado por Rowthorn (1994) e Rowthorn e Ramaswany (1999) de que, a partir de determinada renda per capita, o emprego na indústria se reduz;
  2. A renda per capita aumenta em proporções maiores do que o emprego industrial, e esta tendência é contínua;
  3. A queda no nível de renda per capita que representa o ponto de virada a partir do qual o nível de emprego industrial começa a se reduzir. A renda per capita do ponto de virada para o ano de 1980 era de US$ 20.645, enquanto para 1990, a renda per capita da virada foi de US$ 9.805;
  4. A doença holandesa com uma alteração na interpretação da relação entre a maldição dos recursos naturais – como é também conhecida – e a desindustrialização. Onde, de maneira simplificada, as receitas advindas das exportações de um recurso natural abundante no país provocam uma valorização cambial que diminui a competitividade de outras atividades econômicas.

A DESINDUSTRIALIZAÇÃO NO BRASIL E NO MUNDO

A industrialização é um fenômeno que tem afetado diversos países ao redor do mundo, dentre eles o Brasil. Como pode ser visto no gráfico abaixo, com exceção do Leste Asiático (linha vermelha), a maioria dos países tem passado pela perda de participação industrial relativa. No caso dos países desenvolvidos (linha preta) – EUA e países da Europa Ocidental particularmente – esse processo se inicia nos anos 1970, com a crise do fordismo e os choques do petróleo. Agrava-se com a crise de 2008 e se recupera um pouco nos últimos anos, em razão dos esforços de se re-industrializar desses países.

Fonte: Peres et. al. 2018

Na América Latina (linha verde), por outro lado, a desindustrialização está muito ligada ao processo de abertura financeira e comercial dos anos 1990. Conforme Shafaeddin (2005) o processo de abertura comercial tem como efeito induzir os países a se especializarem naqueles setores que já estão bem estabelecidos e maduros nas suas estruturas produtivas.

No caso do Brasil, que construiu uma indústria dependente tecnologicamente ao longo do processo de substituição de importações, foi se especializar em setores menos intensivos em tecnologia e, ao longo dos anos 2000 puxado pelo crescimento chinês e pelo boom dos preços das commodities de bens primários.

Consequentemente a participação da nossa indústria foi se reduzindo nas últimas décadas, caindo de um patamar de 21,6% em 1985 para 10,9% em 2014, uma participação no PIB inferior ao período inicial do Governo Gaspar Dutra (11,9% em 1947) – como pode ser visto no gráfico abaixo.

Ao mesmo tempo nossa pauta exportadora passou a se concentrar em bens cada vez mais primários, conformando a chamada especialização regressiva da pauta exportadora brasileira. No gráfico abaixo pode-se perceber uma maior participação de setores de menor intensidade tecnológica nas nossas exportações.

Uma observação importante da análise de Gabriel Palma (2005) para o caso brasileiro é de que o ponto de virada da renda, isto é, o nível de renda per capita em que o processo de desindustrialização se inicia foi se reduzindo ao longo do tempo.Nos anos 1980 era 20.645 dólares e nos anos 1990 caiu para 9.805 dólares.

Contudo, outra qualificação é necessária, pois a depender do nível de desenvolvimento do país o ponto de virada passa a ser maior ou menor. Enquanto nos países desenvolvidos esse ponto de virada está acima dos US$ 10.000 – 22 mil nos EUA, 16 mil no Japão e Reino Unido, 12 mil na Coreia – no Brasil ele ocorre em um nível de renda média inferior, em torno de 4 mil dólares per capita.

DESINDUSTRIALIZAÇÃO PRECOCE E PRODUTIVIDADE DO TRABALHO

Dessa maneira, Palma (2005) destaca que o grande problema da desindustrialização no Brasil e na América Latina é de que estaria ocorrendo precocemente, antes de atingir o mesmo patamar de desenvolvimento de renda dos países mais desenvolvidos. Assim ele não seria um fenômeno natural ao processo de desenvolvimento das economias dos países latinos, mas decorrente de patologias econômica, como a doença holandesa, agravada pela trajetória histórica de dependência tecnológica da indústria nacional que afetou negativamente a produtividade do trabalho brasileira.

No gráfico abaixo pode-se observar o processo de catching-up (emparelhamento) da produtividade do trabalho do Brasil e da Coreia do Sul aos níveis da indústria norte-americana. Até 1980 a produtividade do trabalho brasileira e sul-coreana se equivaliam e correspondiam a cerda de 30% da produtividade dos EUA. Não obstante, a partir de 1980 há uma divergência nos processos de emparelhamento desses dois países, com a Coreia do Sul dando continuidade à sua trajetória de ascensão, enquanto o Brasil ficava para trás. Por conseguinte, em 2010 a produtividade do trabalho da Coreia do Sul já correspondia a 60% da produtividade dos EUA, enquanto no Brasil essa equivalia a apenas 20%.

O que esse gráfico ajuda a elucidar é o processo deletério da desindustrialização, se as teses de Kaldor e Chandler Jr. estiverem certas, a indústria é diferente dos outros setores, pois tem maiores ganhos em produtividade decorrentes tanto da escala e escopo quanto dos avanços tecnológicos. No caso brasileiro, mais pelos primeiros do que por avanço tecnológico consistente.

A desindustrialização só piora esse cenário e deve estar relacionada a essa perda da produtividade relativa do Brasil frente à Coreia e aos EUA. E como apontou Krugman, no longo prazo, a produtividade pode não ser tudo, mas quase tudo.

Assim, nos resta questionar: o que fazer?

Na próxima coluna continuamos esse debate.

REFERÊNCIAS

CANUTO ET AL. 2012 Disponível em: http://www.funcex.org.br/publicacoes/rbce/material/rbce/112_OCMCJGR.pdf

PALMA, G. (2005) Disponível em: https://macrododesenvolvimento.files.wordpress.com/2013/06/520-20quatro20fontes20_2_.pdf

PALMA, G. (2011). Disponível em: http://www.unctad.org/sections/gds_ecidc/docs/gds_ecidc_2010d06Palma_en.pdf

PERES ET AL 2018. Disponível em: https://www.even3.com.br/Anais/AKB2/95264-UMA-INVESTIGACAO-SOBRE-OS-DETERMINANTES-DA-DESINDUSTRIALIZACAO–TEORIAS-E-EVIDENCIAS-PARA-PAISES-DESENVOLVIDOS-E-E

Jonattan Rodriguez Castelli
Economista, com mestrado e doutorado em Economia (UFRGS). É integrante do Movimento Economia Pró-Gente. Entre em contato: JONATTAN@acoluna.co
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