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ARTIGO | Entre revolucionários, golpistas e legalistas

Publicado por: em 22/08/18 6:24 PM

A história da república no Brasil é uma coleção de golpes, incluindo sua própria proclamação, onde os anseios transformadores constantemente esbarraram com a realidade. Em muitos momentos de instabilidade golpistas, revolucionários e legalistas se viram necessitados de recorrer uns aos outros e, para tanto, renunciar ao desejo em favor da estratégia.

Na Primeira República (1889-1930) foi a era do liberalismo ortodoxo, ao longo dessas quatro décadas o país ainda não havia criado órgãos estatais mínimos para se entrepor nas relações sociais. A Revolução de 1930 inaugurou a premissa básica de um Estado social provedor e regulador da sociedade. Ao longo da Era Vargas (1930-1945) foram criadas, pela primeira vez, a justiça eleitoral, justiça do trabalho, ministério do trabalho, ministério da saúde e educação, salário mínimo, etc.

Getúlio Vargas foi um ditador que impôs várias critérios cruéis e pelegos de sindicalização aos trabalhadores que isoladamente haviam criados sindicatos livres e fortes, mesmo sendo tratados como “caso de polícia” ao longo da Primeira República. Mais que isso, Vargas expandiu as polícias políticas em direção aos militantes e líderes “subversivos”, sofisticou e utilizou ostensivamente os órgãos de propaganda contra o comunismo e em favor de sua própria imagem, enfim, educou uma nação sob o lema de “cumprir seus deveres para ter seus direitos”.

Entretanto, quando o fim da Segunda Guerra (1945) constrangeu as pretensões varguistas de perpetuação no poder vários trabalhadores se alarmaram diante da possibilidade de que aqueles quinze anos de Vargas fossem, talvez, apenas um surto dentro da tradição liberal-ortodoxa do período anterior. Formou-se o queremismo como movimento dos trabalhadores e outros grupos em torno de Vargas defendendo sua continuidade no governo, como forma estratégica de preservar os ganhos trabalhistas e sociais.

Luiz Carlos Prestes, o famoso secretário-geral do PCB, experimentou a face autoritária do varguismo quando do envio de sua grávida esposa e companheira Olga Benário a Alemanha nazista, enquanto assistia tudo à distância encarcerado. Porém, diante da conjuntura do pós-guerra, a realidade política brasileira e a orientação de Moscou, Prestes apóia o movimento queremista. “As necessidades coletivas estavam acima das minhas necessidades individuais.” afirmou o próprio Prestes em entrevistas posteriores quando questionado pelo impensável apoio.

A História absolveu Prestes, seu gesto em favor do prosseguimento do Estado social, naquele momento associado a Vargas, é lembrado como um ato de grandeza de quem faz política maiúscula pensando mais além de si mesmo. Getúlio Vargas não se tornou menos ditador ou menos assassino de Olga por ter anistiado Prestes e com ele subido no palanque, assim como, Luiz Carlos Prestes não “desrespeitou” a memória de sua esposa ao ter que separar seus antagônicos desejos privados e públicos.

Por outro lado, uma equivocada análise de conjuntura do PCB em 1954 não entendeu que os golpes que ocorreram em maio no Paraguai e em junho na Guatemala do mesmo ano poderiam encontrar espaço no Brasil, o que levou o partido a fazer coro com a UDN golpista pela deposição de Vargas. O tiro no peito de Getúlio adiou o golpe em dez anos, como disse o historiador Antônio Barbosa.

Mais de uma década depois, durante a ditadura militar de 1964, Carlos Lacerda, pivô da campanha pela deposição de Vargas e pelo golpe contra João Goulart, apoiou a eleição indireta de Castello Branco. O ex-presidente e também herdeiro do varguismo Juscelino Kubitschek, líder das pesquisas presidenciais para 1965, acreditando na manutenção do calendário eleitoral também votou em Castello Branco no processo golpista.

Carlos Lacerda era um notório oportunista que aprovaria qualquer ato de exceção que julgasse favorecê-lo, sonhava com a presidência da república. Juscelino foi cassado meses após o golpe e as eleições presidenciais suspensas, estava claro que a possibilidade de chegar ao planalto desaparecera para ambos. Nesse contexto, surgiu, em 1966, a Frente Ampla que mobilizava Lacerda, Kubitschek e Goulart contra a ditadura, sendo extinta e cassada juntamente com o próprio Lacerda em 1968.

Evidentemente o golpe de 1964 não deixou de ser golpe porque os golpeados coligaram com golpistas tentando aproveitar as rachaduras no bloco político de sustentação da ditadura. E o fato de ter tido o voto de Castello Branco ter obtido voto de políticos importantes da oposição a ditadura como Ulysses Guimarães e Juscelino não democratiza o autoritarismo, pelo contrário, o expõe na medida em que evidencia a disposição antidemocrática do regime até para com os que colaboraram com esse.

Não cabe aqui o papel de positivar ou negativar esses encontros aparentemente contraditórios, mas compreendê-los como frutos de uma estratégia pensada nas condições dadas pelo momento histórico. Ao invés de julgar com critérios morais as apostas políticas feitas, a situação julgada demanda que se analise as razões pelas quais essas apostas foram feitas, sem moralismos equivocados.

Arthur Tytiro
Professor de história formando pela Universidade Federal Fluminense que acredita na educação como única trincheira possível em tempos de drones.
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