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ARTIGO|Os “Economísticos” liberais e a magia do investimento via austeridade fiscal

Publicado por: em 26/09/18 9:30 PM

Os economísticos dizem que a solução para o investimento é o corte de despesas do governo.
Se isso passa longe da economia real, seria, então, uma magia?

Economia não tem laboratório, essa é a primeira lição que aprendi na faculdade. Não dá pra fechar pessoas num aquário como fazem os biólogos. Ou fazer partículas se chocarem como na física. Dessa forma, estudar economia é entender o sistema e desenhar cenários. Dito de outro modo: é exercer a imaginação. Mas alguns economistas vão longe demais nesse processo. Eles se perdem da realidade. Ao invés de cientistas, tornam-se místicos, os economísticos.

O símbolo da magia é o discurso — ou mantra — da confiança do mercado por meio da austeridade fiscal. Recita-se: que se corte as despesas, que se saneie o Estado, a confiança do empresário acompanhará e o investimento as alturas chegará. Todos concordam, como poderia ser diferente? Já ouviram tantas vezes essas palavras nos livros — ou grimórios — de economia. Mas será que isso faz sentido? Que confiança é essa? Por que o empresário se sentiria confiante diante de um Estado austero?

 

Primeira incoerência: recuperação do investimento via confiança dos empresários

Vamos nos colocar no lugar de um empresário. Eu nunca me sentiria confiante para investir assistindo ao jornal e vendo que o governo está cortando despesas. “Olha só, o governo está fazendo um baita superávit primário. Quer saber? Amanhã vou contratar mais dois funcionários e expandir minha produção.” Mãos na cintura e um sorrisão.

Seria muito bom se fosse assim, mas nenhum empresário chegaria a essa conclusão. Muitas vezes, o governo cortar despesa significa menos dinheiro circulando. Isso não é bom para o empresário, que visa lucro por meio de venda. É preciso lembrar que todas as vezes que uma venda é feita, faz-se, também, uma compra — ou consumo. De um lado alguém recebe, mas do outro alguém está pagando. Então, em última instância, o empresário só ajustará sua oferta — venda — diante da demanda — consumo. A demanda, portanto, é o motor para o investimento.

 “Olha só, já faz um tempo que não para de entrar clientes novos na minha loja. Se continuar assim, não vou conseguir atender todos. Se eu aumentar o preço, eles correm para o concorrente. Já sei! Vou contratar mais dois funcionários e aumentar minha produção.” Mãos na cintura e um sorrisão. Esse sim é o empresário padrão.

 

Segunda incoerência: recuperação do investimento via confiança dos consumidores

E os consumidores, será que se sentem confiantes quando o governo corta gastos? Os que trabalham diretamente para o governo e são demitidos, claro que não. Aqueles que trabalham numa indústria que supre as demandas do governo e são demitidos também não. Os outros trabalhadores que sentem os reflexos de menos dinheiro circulando na economia — adivinhem só — também não.

Existe ainda um problema maior, essa diminuição de confiança não é estática. Quando eu me sinto receoso em relação ao futuro, gasto menos e imagino que a maioria das pessoas sejam assim. De forma generalizada, os empresários, então, ajustam sua produção de acordo com uma demanda cada vez menor. Eles param máquinas, não pagam bônus, cortam benefícios e demitem. Rodadas após rodadas, os ajuste são sempre para baixo. Entra-se, portanto, num ciclo de recessão.

Para quebrar esse ciclo, o governo não tem que cortar mais despesas, retirar direitos trabalhistas, deixar de atender as demandas de saúde, educação ou cultura do trabalhador. Tudo isso só piora o quadro. É o gasto do governo que vai gerar emprego e confiança ao trabalhador. E é a demanda que esse faz aos empresários o motor do investimento.

 

Terceira Incoerência: recuperação do investimento via confiança do mercado financeiro

Os economísticos podem dizer que são os investidores que terão sua confiança elevada. Num cenário onde não há risco de calote ou de processos inflacionários, não faltará dinheiro na praça. Dessa forma os juros cairiam e os empresários tomariam empréstimos para investir.

“Olha só, como os juros estão baixos. Quase não tenho clientes, afinal o desemprego está altíssimo desde que o governo parou suas obras. Já sei! Vou aproveitar essa oportunidade única para pegar um empréstimo e construir uma nova fábrica. Aí, quando a demanda subir, eu já tenho o dobro da minha capacidade produtiva.” Mãos na cintura e sorrisão. Qualquer CEO que fizesse uma sugestão dessas passaria a integrar a massa de desempregados.

Claro que juros baixos incentivam empresários, mas sem a certeza da demanda o investimento não sai do papel. Empresários não são como algumas pessoas — meu irmão é um bom exemplo — que compram um liquidificador industrial só porque estava na promoção, mas, na verdade, nem sabe onde vai usar.

 

Algumas coerências

Como sacerdotes de seitas excêntricas, os economísticos só parecem loucos. Seus diagnósticos são propagados como o melhor para o povo e os empresários, mas isso é besteira. Eles querem favorecer poucas pessoas que ganhariam com uma economia deflacionada e uma massa de trabalhadores dispostos a trabalhar por quase nada.

A demanda sempre será o motor da prosperidade de uma empresa, mas e se sua demanda vier de outros países? Se assim for, quanto mais fome seu trabalhador tiver, mais disposto ele trabalhará por um prato de comida. Quanto menos serviços do Estado ele tiver, mais entregue à sua própria sorte ele estará. Sem amparo, ele poderá ser oprimido à vontade. No extremo, nem sei se podemos chamá-lo de trabalhador. Escravo é uma palavra forte, mas se adequa melhor.

Um outro grupo também não se importa com a demanda: o mercado financeiro que aloca seus recursos em meios estéreis. Não geram emprego e não produzem nada. Morrem de medo da inflação, que corrompe seus recursos ou de imposto sobre suas rentabilidades obscenas. Por isso advogam contra qualquer gasto público ou política social. Vivem nas sombras comprando deputados e senadores. São os financiadores dos economísticos e repetem sempre o mesmo mantra: que se corte as despesas, que se saneie o Estado, a confiança do empresário acompanhará e o investimento as alturas chegará.

Moacir Liberato
Economista graduado pela Universidade Federal de Goiás.
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