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COLUNA | O ciclo oportunista do Brasil: Jânio, Collor e Bolsonaro

Publicado por: em 2/11/18 4:02 PM

No último domingo (28/10) Jair Bolsonaro foi eleito presidente da sétima economia do mundo em uma das cinco maiores democracias do planeta. A meteórica ascensão do candidato de extrema-direita não representou, necessariamente, apoio entusiasmado aos seus primeiros anúncios. Esse fenômeno também ocorreu no passado republicano recente do Brasil de 1960-1989.

A política brasileira como se conhece atualmente têm suas raízes na República Democrática (1945-1964), ali nasceram os partidos dos quais os atuais herdaram a tradição de pensamento. O PTB nacionalista e protecionista encontrou seu correlato no PT atual; o PSD de centro, no PMDB; a UDN liberal e entreguista no PSDB. Da mesma forma, o bloco nacionalista (PTB+PSD) obteve sucesso em todos os pleitos, exceto pelo último.

Em um cenário de ameaça de crise, o excêntrico Jânio Quadros foi um fenômeno eleitoral nas eleições de 1960. Um político pouco relevante de um partido nanico, o PTN, que repentinamente foi subindo cargos. Era o que as pessoas queriam na época, uma solução mágica para a encruzilhada em que o país se encontrava. A candidatura de Jânio enfeitiçou multidões por motivos tão emocionais quanto racionais. Atraiu o empresariado e a classe média por seu conservadorismo político e anticomunismo de campanha.

Jânio ganhava aplausos da classe média com seus apelos pela moralidade pública e promessas de prender os corruptos, “botar os vagabundos dos funcionários públicos para trabalhar”, dizia. A prometida encarnação da eficácia e modernidade tão propagandeada por JK previamente, tal qual Brasília, os automóveis, a televisão – as novidades do período. Simulava desmaios para ressurgir como a “fênix” empoderada para enfrentar os corruptos, usava ternos escuros que realçava sua caspa, sacava do paletó um pão com mortadela, prometia “varrer” a sujeira do país com seu símbolo de campanha: a vassourinha.

Grande parte da população, em especial a classe média, já naqueles tempos de 1960, rejeitava partidos e políticos em geral. Jânio percebeu isso, se apresentava como o candidato que não era político, apenas o homem de bem, cidadão indignado. Ser de um partido inexpressivo permitia que fosse visto como “o único que não tem rabo preso com os grandes”, ainda que tenha recebido apoio da UDN. Vitória fácil, com 48% dos votos derrotando o sucessor de JK, Marechal Lott (PSD+PTB), que fez apenas 33% dos votos.

No governo, Jânio exerceu um mandato liberal propondo “austeridade”, fim dos subsídios, corte nos gastos públicos. Talvez para desviar das críticas ou para se mostrar próximo as classes populares, o governo Quadros tomou em favor da “moral e bons costumes” sobre o cotidiano brasileiro. Proibição da briga de galos, de uso de biquínis nos concursos de misses, da corrida de cavalos durante a semana, etc.

Após sete meses renunciou por motivos nunca totalmente esclarecidos. A explicação mais comum entre os historiadores era de que pretendia adquirir mais poderes convencido de que o Congresso jamais aceitaria o trabalhista João Goulart no cargo. Entretanto, a afirmação de Jânio foi a de que “eles” o obrigaram – sem esclarecer quem seriam “eles” – e que se quisesse dar um golpe utilizaria apenas “um cabo e dois soldados”.

O ano de 1989 foi marcado pelo retorno da possibilidade da população brasileira eleger diretamente um presidente da república. A ditadura militar estava se encerrando, mas ainda contava com um fiel servidor seu na presidência, o ex-ARENA José Sarney, logo, a eleição direta significava uma oportunidade de encerrar o capítulo autoritário definitivamente. A primeira eleição direta para presidente desde a que elegeu o próprio Jânio Quadros em 1960.

A ditadura militar (1964-1985) foi um período marcado pelo desastre econômico (dívida externa e inflação), pela desigualdade social (43 milhões na pobreza absoluta de um total de 90) e pela perseguição política (milhares cassados, centenas de torturados e desaparecidos), portanto, o cenário no final da década de 1980 era desesperador. O contexto ideal para picaretas e aventureiros, era hora do Brasil conhecer o ex-ARENA Fernando Collor de Melo.

O jovem Fernando Collor era, outra vez, um desconhecido da política nacional e pertencente de um partido nanico, o PRN, circunstâncias que o fazia autoproclamar-se o “novo” na política. Collor se colocava como o “Caçador de Marajás” que iria proteger o Brasil e as cores da bandeira do “perigo vermelho”, apontado por ele na candidatura do metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, e ao mesmo tempo perseguir os corruptos. Collor entrou no segundo turno liderando e acirradamente venceu Lula.

Todos os cientistas políticos da época acreditavam que a eleição seria de Ulysses Guimarães, possuía maior tempo de TV e alta visibilidade pela Constituinte, ou Leonel Brizola, o último herdeiro de Vargas e histórico trabalhista; se enganaram.

No poder, Collor iniciou a agenda neoliberal de privatizações, defesa do Estado mínimo, cortes de despesas públicas, demissão de funcionários públicos, aumento de impostos, facilidades para importação (fechamento de indústrias nacionais), etc. Foi um período marcado pelo confisco das poupanças, hiperinflação (2500% em 1993) e pela renúncia do presidente tentando evitar o impeachment.

Alguma semelhança, amigo leitor? A agenda econômica de Jânio, Collor e Bolsonaro são rigorosamente a mesma: Estado mínimo, subserviência as empresas estrangeiras, aumento da desigualdade social, etc. Ocorre que ninguém votaria nessas obscenidades contra o brasileiro, então o recurso empregado hoje por Bolsonaro, ontem por Jânio e Collor e, talvez, amanhã em 2048. Esconder a discussão sobre projeto de país e insistir na retórica moralista, sobre costumes e sobre uma definição vulgar de corrupção. De 30 em 30 anos o Brasil se seduz pelo caminho de um aproveitador das angústias de uma população carente. Até quando?

Arthur Tytiro
Professor de história formando pela Universidade Federal Fluminense que acredita na educação como única trincheira possível em tempos de drones.
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