Coluna

– Jornalismo com opinião

<

COLUNA| Os problemas conceituais da classe média

Publicado por: em 23/10/18 6:08 PM

A política nunca foi uma parte tão importante da vida social do brasileiro. É impossível sair de casa e não se deparar com os discursos inflamados na mesa ao lado. Desde os protestos precursores do impeachment da presidente Dilma, a escalada de interesse político foi brutal. Em especial é ótimo que a classe média brasileira tenha atingido níveis inéditos de engajamento político. Mas, apesar disso, ainda existem duas falhas conceituais graves que vão influenciar diretamente no resultado dessas eleições. Um conceito político e outro econômico:

Tecnocracia como solução para os problemas econômicos

É comum me deparar com pessoas que acreditam que existe o conceito de “certo” na economia. Um bom economista sabe o que fazer e agirá da maneira correta se colocado no governo. É o discurso daqueles que advogam em favor de técnicos especializados nos pilares econômicos do governo — Banco Central e Ministério da Fazenda.

Essas pessoas enxergam a economia como uma via de mão dupla. De um lado existe a prosperidade e do outro o retrocesso. Nada poderia estar mais errado quando tratamos de economia. A técnica é importante, ou melhor, essencial, mas dentro de cada ferramenta econômica existe uma visão ideológica e política impossível de ser desvinculada. Mais importante do que saber usar a ferramenta é escolher qual será usada.

Muitas ferramentas podem ser usadas para fazer com que o produto nacional cresça. Mas dependendo da que for utilizada, os benefícios podem escoar por canais diferentes. Esse é um raciocínio raramente feito pela classe média tecnocrata. Parece-me existir um desinteresse inocente sobre a distribuição, quando, na verdade, o crescimento pelo crescimento é quase irrelevante.

A classe média não deve ser foco da atenção do Estado

As classes mais pobres dependem da assistência do Estado para educação, saúde, saneamento, alimentação e segurança. É uma fração da população que precisa da ajuda do Estado para se equilibrar e conseguir desenvolver.

Os ricos tem o potencial e os recursos para financiarem o Estado por meio das suas contribuições econômicas. São eles que geram as divisas, os empregos e o produto nacional — direta ou indiretamente. Eles têm influência política e precisa da cooperação do Estado para alavancar seus negócios.

O que é a classe média? É a massa de trabalhadores que não dependem do Estado para o serviços básicos e nunca serão parte dos ricos que tanto admiram. Estão no limbo. São carentes da atenção do Estado. Mas como poderia ser diferente? O máximo que o Estado pode fazer para melhorar a vida da classe média é trabalhar em favor dos pobres e dos ricos. Atendendo seus concidadãos e os geradores de empregos.

Primeiro o Estado precisa trazer os pobres até o patamar onde a classe média se encontra e só daí começar a trabalhar em favor de todos. Mas isso é muito difícil de se fazer no Brasil. Afinal, aqui, a classe média não quer ver o pobre se pareando a ela. Pelo contrário, quer se distanciar. O problema disso é que permanecerá no limbo político enquanto não aceitar os pobres. Vão continuar batendo panela como rebeldes sem causa. O filho ignorado de um pai atarefado.

Moacir Liberato
Economista graduado pela Universidade Federal de Goiás.
banner com links