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COLUNA | Os ratos soltos na praça

Publicado por: em 23/10/18 12:09 PM


O fascismo não será derrotado se apenas o vencermos nas urnas. Mas se não o vencermos nas urnas, será ainda mais difícil combatê-lo nas ruas.

Estamos há poucos dias do pleito mais decisivo da história recente brasileira. A derrocada da Nova República com o golpe parlamentar de 2016 inaugurou um período ainda difuso, em definição, mas certamente de muito mais sombras do que sol para os próximos anos. Estamos diante de uma eleição presidencial na qual as opções se restringem, de um lado, à adoção de um paradigma de extrema-direita ultraneoliberal do ponto de vista econômico, ultraconservador do ponto de vista ideológico e dos costumes, e de deterioração absoluta de qualquer resquício de institucionalidade democrática; do outro lado, o suspiro de uma democracia esquálida, limitada, fragilizada e sustentada por um projeto neodesenvolvimentista comprovadamente falido e natimorto, mas que nos permitirá, ao menos, tomar fôlego para nos reorganizarmos enquanto sociedade e pensarmos num projeto civilizatório minimamente inclusivo. Em outras palavras, não temos opção humanamente aceitável, senão a segunda.

Fernando Haddad, PT e Jair Bolsonaro, PSL (Imagem: IG Arte)

Jair Bolsonaro se tornou a personificação tragicômica e patética de uma sociedade desintegrada, desgovernada e largada à própria sorte há pelo menos 4 anos. Em terreno árido, a semente do fascismo é fértil. Maior do que seu próprio candidato, um séquito de seguidores dá vida própria a um discurso de ódio, duramente mantido sob controle por décadas. Se antes, para se dizer atrocidades, era preciso se certificar de que não havia ninguém ouvindo – ou, para exercitar a intolerância, era necessário uma verdadeira ginástica argumentativa e retórica – o candidato síntese de nossa incapacidade civilizatória confere salvo-conduto para que a livre manifestação do ódio se torne normativa em tempos de medo, mesmo antes de se tornar vitorioso nas urnas. As tampas dos bueiros estão abertas e os ratos estão soltos na praça.

Trata-se, sim, de um movimento fascista, em roupagens contemporâneas e com delineamentos específicos da realidade brasileira. Mas que trava estreito diálogo com o crescimento da extrema-direita em escala mundial e guarda características fundamentais do que podemos denominar de fascismo: o culto à violência – do Estado e do indivíduo, autorizado pelo Estado –, o nacionalismo paranoico, a indiferença absoluta com os setores mais vulneráveis da sociedade – quando não um combate aberto e atroz contra esses setores – e, finalmente, a entrega do destino e das rédeas da nação a um líder altamente personalizado e caricato.

Este movimento que, a despeito de seu próprio líder, se fortalece e ganha espaços na nossa sociedade, ainda que na base da violência, se infla de confiança por acreditar que encontrará as avenidas abertas e desimpedidas para sua marcha triunfal sobre os destroços da nossa democracia. No entanto, esta marcha precisa superar uma última barreira que é intransponível, pois sua essência é humana e sem a qual a própria humanidade deixa de existir.

O fascismo não será derrotado se apenas o vencermos nas urnas. Mas se não o vencermos nas urnas, será ainda mais difícil combatê-los nas ruas. Dia 28 de outubro temos uma tarefa histórica de impor uma derrota eleitoral a este projeto anticivilizatório representado pela candidatura de Bolsonaro. E nos dias, meses e anos que se seguirão, esta tarefa se consolidará como uma luta cotidiana para sufocar o fascismo que saiu dos bueiros. Estaremos diante da emergência de uma nova ética, de uma nova sociabilidade inédita na nossa sociedade – que esteve marcada, até agora, conforme Sérgio Buarque de Hollanda, pela cordialidade. Um novo processo civilizatório se impõe diante da necessidade de se confrontar com ideias e condutas com as quais, historicamente, fomos permissivos. Não seria possível nos constituirmos enquanto uma sociedade mais fraterna e justa sem esta confrontação. Os tempos são difíceis e serão ainda mais. Mas ainda veremos se abrirem as grandes alamedas sobre as quais passarão os homens e as mulheres livres.

Ricardo Normanha
Sociólogo, pesquisador do mundo do trabalho e professor. Escreve todas as sextas-feiras no portal A Coluna artigos relacionados à luta dos trabalhadores, aos movimentos sociais, política e cultura. Contato: apavel@acoluna.co
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