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COLUNA | Uma eleição comprada

Publicado por: em 18/10/18 5:56 PM

2018 é sem dúvidas a eleição mais fraudada da história da nova República. Não só pelo escândalo divulgado nesta quinta, dezoito de outubro, que demonstra que empresários bancaram doze milhões em propaganda eleitoral ilegal à campanha de Jair Bolsonaro, mas por toda a construção que ocorreu antes e que vem ocorrendo durante o pleito.

Para compreendermos essa eleição comprada, temos que voltar à 2008, nos EUA. 2008 foi o ano da última crise aguda do capitalismo, a crise dos derivativos, dos créditos sub-prime. Basicamente, foi a última vez que o sistema mostrou sua falha mais intransponível: seu sistema de valoração do meio de pagamento. O sistema que da valor da moeda.

No sistema mercantil capitalista, o valor advém do trabalho socialmente útil contudo, o que movimenta a economia é o capital. O capital é em si objeto e finalidade do capitalista, é ele que reproduz a existência deste sistema baseado na exploração da mão de obra. Só que esse sistema se reproduz através da troca e a moeda é o necessário instrumento que transforma dois desiguais em iguais e permite a troca. O entrave é o valor. Para a moeda possuir valor e cumprir sua função no capitalismo, ela precisa ser o melhor representante do capital e uma das características do capital é o valor obtido a partir do trabalho socialmente útil.

No arranjo que temos desde 1971, quando a moeda padrão para as trocas internacionais deixou de ter qualquer relação com o ouro, a moeda é dívida. Desse modo, o mundo opera baseando-se num sistema dívida que traz lastro as moedas que se convertem em dólares que são os ativos utilizados no comércio internacional. Esse lastro é tênue (na verdade fictício), uma vez que países de moeda soberana não tem nenhum limite físico para tal lastreamento. A questão é que não basta pintar papel e chamar de moeda. É necessário valor e este é aferido diante da comparação com a moeda para câmbio internacional. Se a moeda não consegue manter seu valor, o reflexo é a inflação. Mas não esqueçamos que valor é trabalho e por isso que o lastro é tênue, fictício porém, não totalmente inexistente. Há de haver alguma relação com a produção existente no país que emite a moeda, por isso a existência da mecânica dos títulos públicos que permitem aos governos expandir suas receitas a partir de endividamento. Ora, o capitalismo necessita que circulação e para que esta ocorra, necessita-se de liquidez, de dinheiro. Para uma economia capitalista se manter saudável, é necessário que haja crescimento da oferta de meios de pagamento e da produção, isso implica em aumento do endividamento público se não houver crescimento rápido do produto interno do país emissor dos títulos, essa conta não fecha e o resultado é uma crise econômica.

2008 mostrou uma realidade oposta a essa configuração que sustenta a mecânica da moeda dívida. O ritmo do crescimento do bloco central do capitalismo, depois de anos de crescimento lento, mostrou a inviabilidade desse sistema, mostrou isso na crise dos sub-prime. As operações que geraram os papeis podres que iniciaram o efeito cascata, que culminou com o fechamento de centenas de bancos entre eles o Leman Brothers, um dos mais tradicionais dos EUA, foram sendo criadas a fim de maquiar a necessidade de um crescimento rápido que mesmo diante de juros negativos, de crédito fácil e muita propaganda, não vinha. Não vindo, se estabeleceu a necessidade alimentar o sistema dívida com contabilidade criativa, o que em 2008 não se sustentou mais.

A reação foi inundar de crédito o mercado, salvar os bancos e impor o ajuste as periferias e semiperiferias. Por que essa estratégia? Pela necessidade de estabilizar o sistema dívida. Esse sistema demonstrou não puder ser alimentado pelas inovações financeiras defendidas pelo Consenso de Washington monetarista, a saída foi alimentá-lo com ajuste no lado mais fraco da corda, os países de capitalismo dependente.

Não era uma questão simples. O capitalismo central tinha que dar um cavalo-de-pau nas relações político-econômicas internacionais, o mundo acabara de passar por um período de relativa bonança devido ao crescimento rápido da China, fato que também vinha colaborando para sustentar o sistema monetário. Contudo, ao passo que a China crescia, crescia a sua independência econômica e sua capacidade de ajudar seus principais parceiros comerciais a também desenvolverem mais autonomia em relação as forças tradicionais do capitalismo central. Resumindo, a China, ao defender seus interesses econômicos, entrou em conflito de interesses com as principais forças capitalistas, a mesma China, que manteve de pé o sistema diante de sua expansão, cresceu a ponto de ameaçar a hegemonia do sistema quando os sinais de esgotamento do sistema dívida apareceram. Ao reduzir seu ritmo de crescimento, os chineses deram o start no processo que elaborou os desdobramentos da crise de 2008 então, além do reajuste sobre as periferias, se tornou necessário minar a ação colaborativa em torno da China e de seus principais parceiros comerciais. É neste contexto internacional que nasce a fraude na democracia brasileira.

O Brasil, além do capitalismo dependente, é tradicionalmente um protetorado dos EUA. Nossas elites não estão assentadas na produção para o mercado interno, estão ligadas ao setor primário agroexportador, a mineração – de mesma destinação – e ao mercado de capitais. Todas essas atividades não dependem de interesses nacionais, dependem da manutenção das relações entre as plutocracias nacionais com suas parcerias dentro da divisão internacional do trabalho tradicional. Ou seja, nossas plutocracias não estavam alinhadas a posição estratégica do Brasil ao lado dos BRICs. Assim, o Brasil se mostrou um mercado importante e de fácil acesso para as forças centrais do capitalismo atuarem de modo a aumentar o grau de exploração de nossas forças produtivas, com a finalidade de sanar o problema do sistema dívida que ocorre na centralidade do sistema.

Entre 2008 e 2013 a recuperação da crise foi mais lenta do que o esperado. A Europa atravessou mais amargamente a situação, sobretudo a periferia onde a Troika devastou países como a Grécia e colocou outros tantos em cheque. Entretanto, não bastava só a periferia da Europa, essa conta foi cobrada de todo o sistema velho. Da Europa foi repassada a periferia, da periferia da Europa, chegou a América Latina. Este delay durou até meados de 2012.

2013 foi o estopim da chegada desse movimento a América Latina. A onda de manifestações que eclodiram no Brasil abriu margem para o desembarque dos think tanks internacionais. Grupos parceiros da Atlas Network chegam ao Brasil e Argentina criando seus tentáculos através de páginas como Ilisp, Mises Institute, Livres, MBL e outros. 2013 foi fruto da frustração relativa da classe média diante da percepção que o bom momento não trouxe consigo mudanças estruturais e que na mudança da conjuntura internacional, aquele ambiente de conquistas estava interrompido e o que se tinha era uma rápida perda dos ganhos de uma classe que historicamente tem sua mentalidade colonizada. Essa insatisfação se traduziu num amontoado de manifestações sem pauta definida, que foi aproveitada pela direita a serviço da centralidade do capital. Ao longo dos protestos, essa direita foi se organizando e cooptando lideranças na internet e nas ruas, trouxe seus mecanismos de financiamento e introduziu suas técnicas de engenharia social a fim de desconstruir o legado lulopetista e inviabilizar uma nova vitória do grupo que vinha conduzindo a economia brasileira na última década e que vinha se alinhando aos interesses da China. Portanto, essa aproximação, podia ameaçar a hegemonia do capital por dois vieses: um, porque impediria uma maior exploração do Brasil a fim de custear o sistema dívida da centralidade do capitalismo. E por outro, porque aumentaria a influência do principal concorrente dentro dessa disputa por hegemonia, a China.

A gratidão do povo, em 2014,  foi mais forte que a desconstrução realizada por tais grupos de interesse e mais uma vez, o grupo alinhado aos BRICs venceu as eleições.

A estrutura montada por tais grupos para vencer as eleições foi mantida, o capital não poderia esperar mais quatro anos, não poderia assumir esse risco. Essa estrutura não só foi mantida como ampliada, a engenharia social contava também com os tradicionais grupos de mídia brasileiros. A mídia brasileira tem uma peculiaridade desagradável, é extremamente concentrada e abrange um mercado de 217 milhões de habitantes, isso a faz muito cara e como nossa economia não tem uma burguesia dependente da vitalidade de nosso mercado interno, quem financia essa mídia são grupos direta ou indiretamente ligados aos interesses existentes nos países centrais do capitalismo. O ambiente de desconstrução do legado lulopetista se arrastou de 2013 até 2016 agora, não mais para vencer uma eleição, mas para impedir a continuidade de um Governo alinhado a interesses que não permitiam que as principais plutocracias do planeta executassem seu plano de aumentar a exploração nas periferias a fim de equilibrar o sistema dívida de suas economias.

Deu certo. 2016, Dilma Rousseff, Presidenta eleita pelo Partido dos Trabalhadores, representante da continuidade do projeto que não estava totalmente alinhado aos interesses do capital central, foi deposta num Golpe de Estado patrocinado pela mídia e por tal antropotécnica estabelecida desde 2013. Michel Temer, seu vice, assumiu como despachante dos grupos que patrocinaram o Golpe. Assumiu com a incumbência de impor a agenda desses grupos e assim o fez.

2018 é ano de eleição no Brasil, é ano da confirmação ou não da continuidade da agenda de defesa dos interesses da centralidade do capitalismo, é ano de por a prova a engenharia social aqui construída. É o momento da fraude se concretizar.

Os grupos que organizaram essa técnica de dominação cultural, fizeram isso com o objetivo de construir no Brasil o que se construiu na África do Sul, nos EUA, no Brexit e mais próximo da realidade brasileira, na Argentina em 2015. O objetivo é ganhar as eleições. Ganhar as eleições significa vencer, significa êxito total, significa que a tentativa de desconstruir o mais eficiente e recente momento de desenvolvimento do país, o mais recente e eficiente momento de redução das desigualdades, deu certo. Que o povo foi convencido que aquilo que foi um grande salto de desenvolvimento socioeconômico foi, na verdade, um momento de desastre econômico e corrupção.

Desconstruir os avanços e transformá-los em perdas aparentemente deu certo, ao menos de acordo com o resultado do Primeiro Turno (realizado dia oito de outubro do corrente ano), só que a intensidade da antropotécnica aplicada desconstruiu não só tais avanços como também toda a fé do brasileiro nas instituições como ferramentas para a resolução dos problemas econômicos e sociais ou seja, criou o ambiente que abre espaço para o discurso extremista, o discurso “outsider”, o discurso moralista e conservador. Em suma, a mesma técnica usada para desconstruir um legado popular, também criou um ambiente onde os antigos atores apoiados pelos grupos que realizaram tal engenharia, não conseguissem mais ser vendidos como solução ao povo. Uma solução moderada, de dentro do sistema, não teve espaço e todos os antigos meios de eleger um Governo, que nossas plutocracias conhecem, foram inócuos a fim de alavancar uma candidatura do stablishment.

Neste vácuo chama a atenção Jair Bolsonaro, um político que há trinta anos se elege com o discurso mais reacionário e troglodita da direita nacional, ele serviu perfeitamente a esse ambiente criado para derrubar Dilma. Bolsonaro cultiva um desapego pela institucionalidade, uma fala extremista anti-esquerdista, um discurso direto, simplista, baseado em senso comum enviesado por antropotécnica, uma moralidade conservadora e um radicalismo descabido. Ele cresceu em meio a tudo o que ocorria durante o frenesi que gestou o Golpe de 2016. A condescendência da mídia para com suas atrocidades o fez ter caminho livre, suas conclusões baseadas nos termos vendidos pelos think tanks importados do tea party norte americano serviam de alimento para a engenharia social que estava sendo construída, e seu perfil caricato o fazia não parecer uma ameaça aos planos de eleger um representante legítimo do capital em 2018.

Neste ponto a estratégia deu errado. Foi montado o megazord da política tradicional, das plutocracias responsáveis pelo Golpe em torno da candidatura de Geraldo Alckmin, se organizaram para fazê-lo seu representante legítimo e assim dar continuidade ao projeto iniciado no Governo Temer. Ao término do Primeiro Turno, Alckmin não chegou aos 5% dos votos válidos, Jair passou para o Segundo Turno juntamente com o herdeiro do lulopetismo com quase 50% dos votos válidos.

O lulopetismo, em meio a tudo o que foi construído, perdeu Lula, seu expoente máximo. Lula foi transformado em preso político e em meio a outros dos efeitos colaterais da engenharia produzida para o Golpe, o ativismo jurídico que levou a nação a uma situação clara de lawfare, como enfatizarei a seguir, tirou o ex-presidente da disputa. Sem Lula, a gratidão popular pode não vencer o medo gerado pela caricatura do Brasil imposta a massa via modelagem social.

A candidatura de Jair Bolsonaro, ainda no Primeiro Turno, recebeu o reforço do que há de mais avançado em termos de engenharia social, da Cambridge Analítica, empresa de Steve Bannon, responsável pelas campanhas vitoriosas pró-Brexit no Reino Unido e de Donald Trump nos EUA. Esta empresa é a mesma empresa que comprou de Mark Zukerberg, do Facebook, dados sobre contas de mais de 50 milhões de usuários o que permitiu a Bannon (um conhecido militante da extrema-direita conservadora dos EUA), e seus funcionários, elaborar uma estratégia de campanha baseada em marketing direto, na produção de mensagens com maior propensão a chegar no destino. Com a posse dessa enorme quantidade de dados, foi possível criar mídias distorcendo informações e criando outras, com base no perfil de acesso dos usuários. Ou seja, Bannon criou um mecanismo de propaganda onde o material enviado ao destinatário vem com todas as características que são atrativas ao clique do indivíduo que recebe, isso é elaborado com base nas preferências do próprio receptor. É uma  estratégia poderosa.

Agora eleve esse raciocínio a outro patamar. Pensemos, se dados do Facebook foram assim utilizados, outros cadastros também podem ter o mesmo destino. Existem muitas empresas que possuem cadastros de telefones, empresas de telefonia, de varejo, de pesquisas, de controle de crédito etc. Imagine que no Brasil, onde a internet ainda é restrita a classe média, onde o sistema educacional não responde aos novos tempos, imagine isso diante de um país de 217 milhões de habitantes onde a internet consumida pela massa se resume ao feed de notícias do Facebook e ao Watsapp, que nada mais é que uma forma de deep web onde não é possível nem denunciar as publicações e onde rastrear é quase impossível.

Hoje, as denúncias em relação a campanha de Bolsonaro dão conta de mais de 12 milhões de Reais gastos de forma ilegal, por empresários, nessa estratégia de disseminação de material de campanha via watsapp. Isso só corrobora que a Cambridge Analítica compreendeu rapidamente a mecânica da disseminação de informações falsas. É a ponta de um esquema que tentei resumir aqui nestas linhas, Bannon é um militante da extrema-direita que já conseguiu vitórias importantes em ambientes bastante mais complicados, no Brasil, o judiciário já parece convencido que existe uma luta do “bem contra o mal”, parece estar imune a percepção do perigo que uma vitória eleitoral obtida através de mentiras muito bem espalhadas pode trazer.

Não há como mensurar o tamanho do perigo que estamos correndo, uma pessoa visivelmente desqualificada, rodeada de militantes extremistas, envolvida com o que há de mais vil em termos de extrema-direita internacional e nacional, certamente suscetível a aliciamento por grupos de poder já estabelecidos – é com isso que nossas plutocracias contam desde o fim do Primeiro Turno – ou por grupos de poder dominados pelo convencimento do ativismo da luta do “bem contra o mal”, aí se encontram juízes, promotores, membros do Ministério Público e principalmente, militares. Estes grupos são ainda mais perigosos que nossas antigas plutocracias, estes grupos estão se baseando em caricaturas criadas ao longo do processo que aqui relatei e que se arrasta desde 2013. Como a mentalidade desses grupos está baseada em mentiras e distorções, não podemos imaginar até que ponto podem ir quando descobrirem que trata-se de uma grande armação com a antiga finalidade de manter alinhado nosso país, nossas riquezas e nosso mercado consumidor, a centralidade do sistema capitalista global.

A prova final de que não estamos num ambiente minimamente sadio é o fato destas denúncias graves de manipulação do processo eleitoral, através de propaganda irregular, através de canais de financiamento irregulares, centradas na disseminação de notícias falsas, não resultarem em nenhuma penalização contra Bolsonaro e sua candidatura. Mesmo que o STF tenha criado uma comissão para apuração da influência das “fakenews” nas eleições, mesmo que a possível atuação da Cambridge Analítica, no Brasil, já tenha sido ventilada lá atrás, nos EUA, quando o Facebook se comprometeu a atuar contra esses expedientes depois dos casos expostos internacionalmente, mesmo depois de tudo isso, nada ocorrerá no âmbito da Justiça eleitoral, no máximo uma multa.

O PDT entrou com pedido de cassação da candidatura de Bolsonaro baseando-se nessas denúncias, se estivéssemos minimamente num ambiente de normalidade institucional seria plausível crer nisso. Entretanto, não é. Assim, só nos resta militar pela democracia e esperar que o pior não aconteça, de qualquer forma essas eleições já estão marcadas pela ilegalidade de um processo que agora se desdobra mas, que vem se constituindo desde 2008 no plano internacional e desde 2013 no plano doméstico.

Como disse Eduardo Cunha, um dos artífices dessa tragédia, “deus tenha misericórdia dessa nação”.                 

Humberto Matos
Humberto Matos, professor de história, especialista em ciências sociais e ensino de filosofia, amante da economia e vlogger do Saia da Matrix.
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