Coluna

– Jornalismo com opinião

Conor McGregor e Cristiano Ronaldo: dois pesos, duas medidas?

Conor McGregor: lutador de MMA do maior evento do mundo (UFC), 21 vitórias e apenas 3 derrotas, todas por finalização. Primeiro campeão do UFC por duas categorias de peso ao mesmo tempo, e, ainda, um dos poucos lutadores que vendem muito pay-per-view na atualidade no MMA.

Cristiano Ronaldo: superastro do futebol, com dezenas de recordes quebrados ao longo da carreira, enfileirou conquistas ao longo dos últimos quinze anos e dispensa qualquer outra apresentação, exceto a de que, recentemente, se transferiu do Real Madrid para a Juventus.

Nesta semana, os dois atletas em questão escaparam da punição da justiça que poderia levá-los à prisão. O craque português selou um acordo com o fisco espanhol, que já o tinha acusado há tempos de sonegação de impostos. A questão é um pouco complexa, e diz respeito aos anos de 2011 e 2014, em que o atacante defendia o Real Madrid.

Sem adentrarmos no mérito da questão se Ronaldo é ou não culpado, ou se a declaração foi realmente feita corretamente, usando os artifícios que um jogador estrangeiro tem direito na Espanha, fato é, o camisa 7 fechou um acordo para pagar 19 milhões de euros e evitar a prisão. Ou seja, a condenação continua mantida, mas sem a parte da prisão.

Já o lutador irlandês se envolveu em confusão em abril deste ano. A história contada é que alguém de sua equipe entrou em discussão com o lutador rival de McGregor, o russo Khabib Nurmagumedov, e, então, Conor foi tirar satisfações no dia seguinte. No ônibus estava Khabib, outros lutadores (e lutadoras) e funcionários do UFC. As imagens mostram McGregor arremessando um carrinho de carga de metal na janela do veículo, arrebentando-a, caindo estilhaços de vidro, que fizeram um grande corte na cabeça do lutador Michael Chiesa, e machucando o, também lutador, Ray Borg.

McGregor e seu comparsa também tentaram arremessar uma cadeira, uma lixeira e uma grade de proteção em direção ao ônibus. As acusações iniciais de diversos crimes poderia render até sete anos de prisão ao lutador, que no fim das contas foi acusado “somente” de vandalizar e causar desordem, tendo de pagar o conserto do ônibus, prestar serviço comunitário e frequentar aulas de autocontrole.

Para fazermos uma reflexão sobre esses dois casos, podemos tomar partido de várias posições, o que não é o objetivo aqui, que é pensar em várias nuances.

A primeira, que a maioria das pessoas pode fazer é: “se fossem cidadãos comuns, certamente estariam encrencados com a justiça e seriam presos”, o que é um pensamento válido, pois os atletas usam o poder de sua influência, do marketing e vendas do esporte e do renome mundial, para driblarem a lei, influenciando na aplicação dela com um certo poder político. Mas essa não é a única pulga que deve estar atrás de nossas orelhas.

Por que a justiça espanhola somente agora, depois de Cristiano Ronaldo jogar por quase uma década em Madrid, e de recém se transferir, condena o jogador? Por que não foi condenado enquanto ainda estava na Espanha? O Real Madrid utilizou de sua influência tradicional na política (cujo auge foi no franquismo) para protelar o máximo possível e não envolver o nome do clube na acusação? Será que o craque é realmente culpado, e aceitou o acordo porque dinheiro não vai fazer falta, e porque quer dar um ponto final nessa história mesmo não tendo culpa, como já fez Michael Jackson com acusações de abuso?

Talvez nunca saberemos isso.

E McGregor…

Dana White, presidente do UFC, logo após o ataque de fúria do irlandês, declarou que ele estaria com sérios problemas e que poderia ser preso, tendo inclusive problemas com o visto. Uma situação realmente preocupante, pois as imagens são chocantes.

Será que se fosse um lutador de “mid card” e que não é tão bom para os negócios, para vender e promover eventos no país, para movimentar a economia local em audiência e publicidade, seria praticamente inocentado, como foi McGregor?

E se não fosse um lutador europeu, fosse um lutador de qualquer lugar do dito terceiro mundo, um africano, com o componente racial intrinsecamente ligado (Jon Jones ainda cumpre suspensão!), um latino, ou um árabe, perderia o visto e seria expulso do país e, consequentemente, do evento?

McGregor poderia ter até mesmo mandado alguém daquele ônibus para o hospital em situação grave. São atitudes de destempero, de um praticante de artes marciais, como esta que ainda faz muitas pessoas terem resistência pelo esporte, justamente ratificando o estereótipo negativo.

Não temos respostas para essas perguntas, mas, quando acontecer algo parecido com outros envolvidos, já teremos um parâmetro para tais questionamentos na aplicação da lei.

Kalleb Barboza
Formado em jornalismo pela FIAM-FAAM, amante de esportes e um curioso sobre seus acontecimentos políticos e históricos

kalleb@acoluna.co
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