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EDITORIAL | Enquanto a liberdade acaba, a crise começa

Publicado por: em 31/10/18 1:22 PM

Quando lançamos a Coluna como novo projeto editorial, criando a estrutura que hoje nos organiza, decidimos ter como principal bandeira a ideia de que não acreditamos na abstração do “jornalismo imparcial”, já que, uma vez que o conteúdo é produzido por um ser humano, sempre carregará junto suas opiniões pessoais, convicções, vivências e crenças. Afinal de contas, é o conhecimento individual que determina com quais pautas determinado jornalista tem mais habilidade e profundidade para trabalhar.

Também reforçamos que a problemática da parcialidade, quando apoiada por mentiras e usada para enganar, ludibriar e conduzir de maneira agressiva o debate político e social de um povo ou nação, leva muitas vezes ao erro ou à convulsão social.

Dez meses se passaram desde que jornais e veículos de televisão envolvidos com plágio e mentiras decidiram seguir pelo caminho de se tornarem combustível para o ódio.

Mais preocupante ainda é um presidente eleito, antes de assumir, decidir “legalizar” a perseguição aos veículos de mídia que não se comportem como ele espera.

A toque de caixa, o site do senado abriu votação para:

Rever a obrigatoriedade das disciplinas de Filosofia e Sociologia no Ensino Médio; convocar plebiscito sobre a revogação do Estatuto do Desarmamento; reforçar o escola sem partido, proibindo os conceitos de ‘gênero’ e ‘orientação sexual’; e propostas para tipificar como terroristas o MST, MTST; e provavelmente votará nessa semana ainda a proibição de ‘formas de coação do governo’ que incluem manifestações e greves.

Ao mesmo tempo em que o presidente eleito ameaça veículos de comunicação com a retirada de verbas públicas de publicidade, como se este dinheiro fosse de sua própria carteira.

“Imprensa que se comportar dessa maneira indigna não terá recursos”

Jair Bolsonaro

Mas, o que seria essa “maneira indigna”? Durante os longos anos de governo petista, a Folha, alvo das manifestações de Bolsonaro, agiu de maneira semelhante, conquistando a antipatia da militância do partido. Aparentemente, naquela ocasião, o então deputado, não achou o comportamento indigno.

Pois vamos explicar o que é indigno para Bolsonaro: discordar, denunciar e trabalhar unicamente com fatos. A única retórica restante seria a da truculência e da ameaça, tal qual como quando os militares acabaram com a corrupção no Brasil colocando um soldado em cada porta de redação.

O fuzil virou caneta, mas a tinta da censura é a mesma. Se por um lado a informação lhe desagrada, seja nas telas ou no papel, é ameaçada. Por outro, as mobilizações que lhe desagradam também são ameaçadas, esta de forma mais clara do que em 1964, com a toga no corpo e o fuzil na mão.

Uma manobra de apoiadores do governo recém eleito já tenta enquadrar protestos como terrorismo, ao mesmo tempo que tenta coagir professores em sala de aula, retirando toda e qualquer autoridade que o professor tenha sobre seus alunos. Isso tem um nome: supressão de liberdades, do direito de ir e vir, do direito de livre expressão.

Está claro que isso tudo é um cerco, o importante é evitar qualquer medida estapafúrdia ou atropelo do futuro governo seja questionado pela população.

Acha que isso afetará apenas os movimentos como MST, MTST, Petistas e semelhantes? Engana-se. 

A possível nomeação de um corrupto notório (Alberto Fraga) para o governo já coloca os apoiadores e eleitores de Jair Bolsonaro em crise. Onyx Lorenzoni, outro homem forte de Bolsonaro, já admitiu ter recebido caixa dois da JBS. Milhões de brasileiros votaram no deputado com o discurso contra a corrupção. Caso esses mesmos milhões entrem em desacordo com o governo, certamente serão enquadrados como terroristas.

E o que dizer desse super-ministério? A fonte do dinheiro, onde se guarda o dinheiro, quem libera o dinheiro e quem paga os servidores na mão de uma mesma pessoa. Onde você acha que isso irá acabar?

Já assistimos essa história antes com Zélia Cardoso de Mello, com o mesmo super-ministério da economia no governo Collor, e que controlou seis secretarias: Receita Federal; Tesouro Nacional; Abastecimentos, as secretarias de Orçamento e Finança e Indústria e Comércio (que absorveu Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio).

A configuração é basicamente a mesma do desastroso governo que levou milhões de brasileiro à loucura, ao desespero e ao suicídio.

Com um agravante, o desprezo pelo Mercosul, que somente em 2017 teve superávit comercial brasileiro de U$ 10,720 bilhões, (o que é 5 vezes maior do que nosso superavit comercial com os EUA).

O Mercosul é basicamente o caminho de escoamento da produção industrial Brasileira, o novo “Super-ministro” demonstra uma absurda e perigosa falta de conhecimento da indústria nacional – ou má intenção – que quebraria na mesma semana em que o país se retirasse do bloco.

Os produtos industrializados brasileiros ainda não possuem condições de competição forte no mercado mundial. Para isso ainda faltam investimentos em tecnologia, capacitação e desenvolvimento. Basicamente, falta o básico de uma estrutura forte para competição global: ainda compramos muitos componentes de fora, e produzimos muito pouco se comparado a grandes potências como EUA e China.

A postura do futuro governo já preocupa a indústria brasileira, não só com o Mercosul, mas também como a criação de um super-ministério.

Se Guedes decidir de fato levar todas estas medidas adiante, preparem-se para uma crise sem precedentes, onde você não poderá sequer reclamar sem antes ser enquadrado como terrorista.

Fiquem de olho!

Redação A Coluna
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