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Empatia – Uma Experiência Relacional Afetiva

Publicado por: em 2/08/18 5:53 PM

O tema que trago para reflexão vem sendo estudado e bastante discutido em diversos campos do saber, tais como Filosofia, Psicologia, Sociologia, desenvolvimento humano e nas áreas clínica, de personalidade e social da Psicologia.

Em um dos textos que postei anteriormente, sobre “Prevenção em Saúde Mental e Autocuidado”, discorri sobre a importância em cuidar de nosso mundo interno – subjetivo e singular – reconhecendo os próprios afetos, vulnerabilidades do sentir, marcas das nossas crenças e hábitos, expressões inconscientes do corpo e do comportamento, a partir de um movimento de debruçar-se sobre si, observando os significados que atribuímos à vida, e nesse processo, possibilitar a apropriação de quem somos, tornando possível uma maior consciência de nós mesmos, de nossas ações e impactos em nosso entorno.

Para além da relação com nosso íntimo, a forma com que lidamos com o mundo, com as relações e com o externo, vai dizer sobre nossa saúde psíquica e sobre como fomos fundados a partir de nossas relações nos primeiros anos de vida. Na psicanálise, é a partir da relação com o outro que somos constituídos e fundados sujeitos subjetivos e singulares.  Estamos circundados e imersos em referenciais do caldo cultural-histórico, político e econômico, bem como das relações institucionais, como família, escola e comunidade.

No contexto atual, vivemos cerceados e sustentados por relações de violência, medo, desigualdade e precarização das condições de vida e de trabalho. Por esse caminho, trago para a roda de reflexões, esclarecimentos sobre o que é a tão falada empatia, aliada das relações e dos laços saudáveis que podemos desenvolver com os demais.

A palavra empatia vem do grego empatheia, que se refere a adentrar o sentimento, o estado e a condição do outro, de maneira subjetiva, para então ser afetado por tal. No dicionário Aurélio a empatia é descrita como:

“Forma de identificação intelectual ou afetiva de um sujeito com uma pessoa, uma ideia ou uma coisa”.

No dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa a definição é:

“Habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa;

Compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem;

Qualquer ato de envolvimento emocional em relação a uma pessoa, a um grupo e a uma cultura;

Capacidade de interpretar padrões não verbais de comunicação;

Sentimento que objetos externos provocam em uma pessoa”.

Do ponto de vista psicológico, a empatia vai além de ser a compreensão das questões e sentimentos do outro. Trata-se, pois de uma relação que se estabelece a partir de uma dimensão afetiva em colocar-se no lugar de um outro, se abstendo de julgamentos de valor e inferências, para então entrar em contato com o mundo subjetivo deste em questão, tanto de maneira afetiva, emocional, situacional e social, partindo da perspectiva histórica e de vida, de experiências e significações singulares que esse outro carrega consigo.

É fazer o exercício de “vestir” os sapatos da pessoa e sentir-se residente em sua pele, em toda sua complexidade, para acessar, de maneira acolhedora, seus sentires e vivências particulares. Ser empático é também perceber afetivamente a condição e o estado em que o outro se encontra mesmo que este esteja fora e separado de nós e, muitas vezes, distante das vivências e experiências que passamos. No entanto, a condição humana possibilita a capacidade de nos identificarmo-nos com outrem, e sentir como pode ser a experiência de tal lugar.

Carl Roger (1902 – 1987), Psicólogo norte-americano da linha de orientação humanista, foi quem se aprofundou nos estudos da empatia na década de 1940 a 1950, desenvolvendo sua aplicação para a prática psicoterapêutica. Fundou uma nova modalidade de atendimento psicoterápico denominada Abordagem Centrada na Pessoa (ACP). É por meio da empatia que Rogers se propõe a aproximação subjetiva dos pensamentos, sentimentos e afetos de seus pacientes, criando uma atmosfera leve, terapêutica e de aceitação, com intuito de facilitar um espaço de segurança, confiança e ressonância com o cuidado e o mundo interno do paciente recebido.

A técnica desenvolvida por Rogers propõe que o psicólogo coloque-se empaticamente no processo psicoterapêutico, posicionando-se também de maneira autêntica, clara e afetiva para comunicar ao outro seus sentimentos, pensamentos e gestos sobre o que esta sendo explorado.

Na psicoterapia Rogeriana, a empatia é compreendida como o fundamento de base para estabelecer contato e acesso ao outro, possibilitando, a partir daí, um processo de cuidado em saúde psicológica. Compreende-se também a empatia como uma habilidade passível de aprendizagem, necessária ao psicoterapeuta.

Nesse cenário, ser empático não se trata de uma resposta ou reação frente ao atendido, trata-se de disponibilizar-se internamente a uma relação de vínculo e sensibilizar-se com o mundo íntimo de um grupo ou indivíduo, com objetivo de proporcionar um espaço de possibilidades em “tornar-se pessoa”. Trata-se também, de envolver-se, no momento do cuidado, com as questões íntimas trazidas por um outro, para então ser possível o processo de acompanhamento psicológico.

Para Donald W. Winnicott (1896 – 1971), pediatra e psicanalista inglês, é na relação com o sujeito que nos fundamos também sujeito, repletos de significantes que nos atribuíram ao longo do desenvolvimento. É a partir do outro que nos tornamos humanos, para que possamos então, nos tornar sujeito de uma história própria e singular. Winnicott reabre as discussões sobre a natureza humana, desenvolvimento e amadurecimento saudáveis, retomando pontos sobre o manejo clínico dos profissionais. Pontua que é na relação com o outro que vamos estabelecendo o nosso lugar subjetivo, por meio da linguagem e de nossas ações. Dessa forma, na psicoterapia psicanalítica Winnicottiana, é por meio da relação de cuidado que se estabelece entre analista/analisando que se torna possível construir um cenário e uma atmosfera para o outro existir de maneira integrada e saudável.

Em Winnicott, o que nos constitui humanos é o olhar do outro em nossas relações primárias, onde inicialmente temos um contato subjetivo fragmentado a partir das condições e etapas específicas do desenvolvimento e dos olhos de nossos cuidadores. Seguindo por essa perspectiva, apenas um ambiente “suficientemente bom” pode ser adequado para o amadurecimento e desenvolvimento saudável dos sujeitos.

Suficientemente boa quer dizer boa na medida certa, sem exageros para mais ou para menos no seu cuidado com o bebê, isto é, adaptação às necessidades físicas do bebê, que proporciona, num primeiro estágio, um sentimento de segurança e confiabilidade no ambiente”. (Winnicott, 1971)

Dessa forma o psicoterapeuta psicanalítico se disponibiliza a criar e oferecer um ambiente propício para o acolhimento de questões do outro com o intuito de dar espaço para uma relação de transferência entre paciente/analista, e possibilitar vir à tona nesta relação a transferência de afetos e funcionamentos de cunho “infantis” ou primários inconscientes para o momento presente da análise, e então permitir que estes conteúdos venham à consciência possibilitando resignificá-los.

Para além da psicoterapia, o construto teórico de Winnicott nos auxilia a pensar em como podemos nos organizar e relacionar de maneira mais saudável em comunidade. Não há receitas na Psicologia ou na Psicanálise, esse ponto é o que diferencia o acompanhamento psicológico da auto-ajuda, pois compreende-se que a relação terapêutica se debruça sobre a singularidade e a constituição subjetiva de cada sujeito, sendo a relação estabelecida entre analista/analisando o fator primordial para uma mudança de base estrutural. Em Rogers, podemos ver que é o vínculo que se estabelece com o outro, via empatia, que propiciará a criação de uma nova forma de existir no mundo, sem listas de afazeres e ou adequações.

Na teoria do desenvolvimento maturativo, Winnicott nos aponta um parâmetro para atingir a saúde psíquica, sinalizando este como maturamento saudável. Seria o cuidado “suficientemente bom” de um humano para com o outro o que nos possibilitaria dar o salto em nos reconhecer como unidade.

É por essa direção, que o cuidado suficientemente bom disponibiliza a relação de um ego fragmentado se apoiar em um ego integrado, para então “emprestar” conteúdos subjetivos do outro tornando-se inteiro, desenvolvendo assim seu próprio ego e mundo interno. É a posteriori que o sujeito vem a sentir-se constituído em seu processo de vida podendo, dessa forma, separar o que é de seu “eu” e o que é do seu “não-eu”. O conceito de ego que utilizo aqui se trata de um conceito psicanalítico postulado por Sigmund Freud na Segunda Tópica do Aparelho Psíquico em Teorias da Personalidade.

“A integração está intimamente ligada à função ambiental de segurança [holding]. A realização da integração é a unidade. Primeiro vem o “eu” que inclui “todo resto é não-eu”. Então vem eu sou, eu existo, adquiro experiências, enriqueço-me e tenho uma interação introjetiva e projetiva com o não-eu, o mundo real da realidade compartilhada.” (Winnicott, 1965)

Winnicot fala do sujeito total, aquele que a partir do cuidado suficientemente bom, pôde desenvolver-se de sujeito parcial à sujeito integral, adquirindo suas próprias necessidades. Para ele, muitos não chegam ao desenvolvimento saudável e não se tornam sujeitos, permanecendo fixados em estados de imaturidade psíquica, na dependência psíquica total ou relativa do outro. Mais uma vez, friso aqui, que seria por meio da constituição pessoal que nos tornamos humanos.

Ainda em Winnicott, a escola seria um espaço de ampliação do cuidado materno (cuidado como função materna, que pode ser exercido por qualquer gênero), não um substituto, para que se pudesse proporcionar experiências entre a fantasia e o real, por isso a importância do brincar e das atividades lúdicas.

Conclui-se que a fundação do sujeito subjetivo se dá a partir do investimento afetivo de um sujeito no outro, dessa forma, espera-se que seja possível nos tornarmos humanos, construirmos um mundo pessoal e sermos capazes de lidar com a ambiguidade dos sentires, (amor, ódio, angústia), bem como nos responsabilizar pelos conflitos particulares e também grupais. Se estendermos as relações de cuidado para as relações sociais, podemos pensar que é necessário criar e produzir um ambiente suficientemente bom para que possamos desenvolver habilidades psíquicas para estarmos em grupo, de maneira integral, de forma a não massacrarmos os diferentes egos (a vir-a-ser), em forma de barbárie.

A empatia como o manejo do outro em cuidado afetivo e singular abre caminhos em direção à relações pessoais e sociais mais saudáveis e acolhedoras.

 

Referências:

SAMPAIO, CAMINO, ROAZZIO – Revisão de Aspectos Conceituais, Teóricos e Metodológicos da Empatia –  PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2009, 29

Winnicott, D. W. (1999). Tudo começa em casa.

E.S. Santos – “Winnicott e a constituição pessoal para a formação do homem” – Periódicos Eletrônicos em Psicologia, vol.7 no.2 São Paulo  2012

Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa

Paula Moro
Psicóloga Clínica
Psicóloga Clínica, linha de orientação psicanalítica, Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública FSP-USP; atuou na Rede Pública de Saúde (SUS) na Clínica de Saúde Mental; atende em consultório; conduz grupos de apoio e terapêuticos.
Escreve às quintas feiras quinzenais.

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