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Flávio, defensor de bandido ou simplesmente não sabe o que fala?

Publicado por: em 6/09/18 8:30 AM

(Foto Principal: Andre Melo/Futura Press)

Nas ultimas semanas dois PMs gêmeos que atuavam na campanha do candidato ao senado carioca, Flávio Bolsonaro foram detidos na Operação Quarto Elemento. A ação, desencadeada pelo Ministério Público Estadual  investiga suposta quadrilha de policiais especializada em extorsões na zona oeste do Rio de Janeiro.

Policiais, extorsões e zona oeste do rio… Sabe o que estas três coisas tem em comum? Apesar de não comentado pelo ministério público os 3 pontos são características fundamentais na composição das milicias que aterrorizam há mais de 20 anos a região metropolitana do Rio e se transformaram no simbolo da institucionalização do crime.

  • Policiais:  As milícias nasceram como um pelotão formado por policiais da ativa, ex-policiais civis e militares, agentes penitenciários e bombeiros. No começo, elas foram saudadas como a volta da ordem às comunidades de onde nem o Bope tinha conseguido expulsar os traficantes. Os líderes das milícias ganharam prestígio. 
  • Extorsões: É a principal forma de arrecadação dos grupos criminosos, imagine que um grupo de homens armados bata na porta da sua casa e afirme que a partir daquele momento será necessário pagar uma “taxa de segurança”, caso contrário “coisas ruins” podem acontecer. Ainda por cima fazem o monopólio do transporte publico de maneira ilegal onde se instalam e obrigam moradores a comprar TV e internet piratas e gás desses grupos. Em alguns casos chegam a tomar casas e apartamentos de pessoas beneficiarias do programa Minha Casa, minha vida. A coisa ficou tão grave que no inicio deste ano a lei que rege o programa foi mudada, possibilitando que moradores expulsos por criminosos possam receber novos imóveis.
  • Zona oeste: a região da capital carioca é a fortaleza e berço destes grupos criminosos, foi lá que o principal grupo, a “Liga da Justiça” se estabeleceu e cresceu assim como diversas outras milicias, em 2009 a presença era tão forte que os grupos lutavam entre si pelo controle de áreas.

Os gêmeos Alan e Alex, segundo o MP, eram sócios em um loteamento irregular em Paciência na zona oeste, área comandada pela milicia Liga Da Justiça. Eles são suspeitos de constituir, integrar, financiar e promover organização criminosa. Inclusive Alan já havia sido preso em janeiro deste ano por agentes da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança do Rio por outra acusação em janeiro de 2018. por conta desta acusação.

Entre outras acusações, segundo denúncia do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio, a suposta quadrilha de policiais extorquia dinheiro de pessoas que estavam em situação ilegal.

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Importante lembrar que a venda de loteamentos irregulares também faz parte de uma das fontes de renda das milicias na zona oeste carioca. Como em Santa Cruz onde milicianos vendiam lotes irregulares com preços entre 
 R$45 a R$100 mil.

Flávio negou, pessoalmente e por nota, que os irmãos integrassem a sua campanha. Valdenice, porém, afirmou ao jornal Estadão que os dois atuavam como voluntários em agendas do parlamentar. 

Detalhes estranhos

Apesar do candidato a senador negar qualquer tipo de envolvimento ou vinculo com os acusados de serem membros da suposta quadrilha de policiais extorquia dinheiro de pessoas, (o que pode ser facilmente confundido com uma milicia) a alegação fica um pouco complicada quando olhamos o Instagram do aspirante a senador que carrega a seguinte foto:

Na foto tanto Bolso pai quanto Bolso Filho estão presentes e ainda é possível ver a carinhosa inscrição “Parabéns Alan e Alex pelo aniversário, essa família é nota mil”.

A coisa só melhora quando olhamos outros membros do grupo como o policial militar Leonardo Ferreira de Andrade que segundo a investigação estive em fevereiro de 2017 em uma ação em um frigorífico de Vista Alegre.

No local, constataram a existência de alimentos em condições impróprias para consumo (fora de validade e com padrões de higiene questionáveis). Eles exigiram R$ 30 mil para que o dono não fosse preso em flagrante.

No mesmo ano em setembro, ele recebeu uma condecoração de Flávio,  
uma “Moção de Louvor e Congratulações” com direito a elogios. 
Carlos Menezes de Lima outro acusado pela operação também teria recebido uma condecoração em 2007.

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Legislatura esquisita

Em 2007, no primeiro mês de seu segundo mandato na Assembleia carioca Bolsonaro já votou contra a instalação da CPI das milícias e, inclusive, planejou apresentar um projeto regulamentando a atividades das “polícias mineiras”. A sua justificativa foi:

“As classes mais altas pagam segurança particular, e o pobre, como faz para ter segurança? O Estado não tem capacidade para estar nas quase mil favelas do Rio. Dizem que as milícias cobram tarifas, mas eu conheço comunidades em que os trabalhadores fazem questão de pagar R$ 15 para não ter traficantes”

Em julho deste ano Flávio postou um vídeo em sua conta no Twitter onde afirmava que na época as milicias eram diferentes e que a prática de extorsão remete a tempos mais recentes na história das milicias.

Acontece que a afirmação do candidato é falaciosa, uma vez que a “militância” em prol da defesa das milicias não tem quase 20 anos, as afirmações de Flávio foram feitas em 2007, se estamos em 2018 então as afirmações tem um pouco mais que uma década.

Outro ponto, anos antes declaração do candidato (feita em 2007)  já haviam relatos sobre a ação criminosa e até os perigos desses grupos, em 2005 uma matéria do jornal O Globo trás a declaração de Fernando Mondolo, ex-subprefeito de Jacarepaguá onde ele apesar de elogiar, também alerta para os perigos a longo prazo da permanência das milicias:

“Essas milícias armadas formadas por policiais têm seus aspectos positivos, mas podem se tornar nocivas a longo prazo, pois você tem a ausência do poder constituído. São “xerifes” se prevalecendo da força”

Em 2006, em uma matéria para a Folha de São Paulo a Ex-diretora da Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Pública), a antropóloga e cientista política Jacqueline Muniz afirmou que a milicia exercia “a mesma tirania, da mesma natureza e grau, do tráfico”

No mesmo texto o  diretor do serviço Disque-Denúncia, na época,  Zeca Borges, rotulou o problema das milícias como “o mais grave” da segurança pública da região metropolitana.

Em 2006 outra matéria afirma que a quase dois anos (ou seja desde 2004) moradores do Rio de Janeiro temiam as milicias e relata também os esquemas de extorsão dos bandos criminosos.

Patricia Acioli

Para completar, em 2011 a juíza Patricia Acioli foi executada por PMs que estavam sendo julgados por ela por crimes envolvendo homicídios e extorsões em São Gonçalo. (veja só, PM’s, extorsão e São Gonçalo, outra fortaleza das milicias do estado do Rio de Janeiro)

Em seu Twitter Flávio fez a lamentável declaração:

Sim, o homem que vive bradando contra os direitos humanos reclamou da juíza ser dura na atuação e repressão do crime organizado na policia carioca.

Após criticas o deputado declarou:

“Repudio a morte da juíza, apenas disse que ela teria muitos inimigos, não pelo exercício da profissão, mas por humilhar gratuitamente réus.”

Flávio ainda citou exemplos de reclamações que recebia sobre o suposto tratamento grosso de Patrícia para com os réus.

“Cansei de receber em meu gabinete policiais e familiares, incentados (sic) por ela, acusando-a de chamá-los de ‘vagabundo’ e ‘marginal’ nas oitivas.

(Eu) orientava sempre que deveriam formalizar denúncia no CNJ (Conselho Nacional de Justiça) contra ela, por abuso de autoridade, nunca para tomar atitude violenta.”

Mais uma juíza

Em 2015 Flávio se envolveu em outra polemica ao defender e justificar a agressão feita contra juíza aniela Barbosa por policiais detidos no Batalhão Especial Prisional em Benfica e que foi utilizada para a detenção de policiais envolvidos em crimes e que estariam aguardando julgamento. Após o episódio o batalhão teve suas atividades encerradas.

Na ocasião o candidato afirmou:

“Ao serem tratados como bandidos, por uma pessoa que representa o Estado, se sentiram indignados”

Flávio que sempre militou contra os direitos humanos reafirmou que os detentos reagiram depois de serem tratados de forma desumana pela juíza, não apenas desta vez (veja aqui a declaração).

Os detentos envolvidos na confusão foram identificados como:

Aloísio Souza da Cunha, preso por suspeita de extorsão, denunciação caluniosa e abuso de autoridade. O PM foi acusado de forjar flagrante de um menor e se tentaram extorquir a mãe dele.

Após denúncia do tio do menor, que diz ter visto os policiais forjando a apreensão, policiais civis vistoriaram o veículo particular de um deles, um Ecosport, onde encontraram pinos com cocaína.

Alan Lima Monteiro, envolvido em um caso de assassinato

Aldo Leonardo Ferrari, acusado da morte de um militar português e flagrado recebendo mesada do traficante Nem da Rocinha

José Luiz da Cruz, expulso da corporação por cobrar propina de comerciantes em bangu.

Na época, o ex-secretário de segurança pública, José Mariano Beltrame afirmou que alguns dos PM’s eram membros de uma milicia.

Em 2016, quando questionado sobre a defesa dos policiais envolvidos na agressão após saber o crime de cada um dos envolvidos afirmou não conhecer nenhum deles, porém afirmando que houveram excessos de ambos os lados se esquecendo que do outro lado haviam dois PMs envolvidos em casos de assassinato.

Uma série de coincidências entre declarações desastrosas, criminosos e milicianos cerca a vida pública de Flávio Bolsonaro membro da família Bolsonaro e defensores da máxima:Bandido bom é bandido morto.

O problema aparentemente é que quando o criminosos usa farda, bate continência e calça coturno nem sempre o tratamento é o mesmo.

Cleber Lourenço
Editor-chefe, fundador e colunista desse site que tem como objetivo questionar e denunciar.
Entre em contato: cleber@acoluna.co
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