Coluna

– Jornalismo com opinião

<

Já são 20 os registros de “propaganda” de ódio envolvendo nazismo e Bolsonaro em todo o país

Publicado por: em 16/10/18 3:23 PM

Desde que Jair Bolsonaro foi para o segundo turno das eleições, os apoiadores do candidato da extrema-direita decidiram não esconder a perversidade de sua militância. Um levantamento da Agência Pública mostrou que foram realizados mais de 50 ataques contra eleitores que não votaram em Bolsonaro no primeiro turno.

Aparentemente a margem de votos e a ida do candidato para a reta final das eleições foi a autorização necessária que seus apoiadores precisavam para impor terror e medo nas ruas do país.

Não é só violência, é propaganda também

Hoje (16), a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) teve a lousa de uma das salas de aula da faculdade de arquitetura e urbanismo pichada com uma suástica, além de frases de apoio a Bolsonaro e contra o candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad.

Além dos casos de violência, outro fenômeno vem se alastrando pelo país na mesma proporção.

Registros de diversos estados do país mostram que uma onda de apoio velado ao nazismo e ao discurso de ódio vem também tomando aos poucos a paisagem das cidades.

São mensagens de ódio, suásticas, pichações e cartazes espalhando-se de maneira indiscriminada em faculdades, estações de metrô, ruas e até mesmo escolas.

Realizamos um levantamento em redes sociais, sites locais e faculdades para saber quantas manifestações de ódio em “propagandas” já foram registradas desde setembro, mas que se intensificaram agora no segundo turno das eleições.

São manifestações em que o nome de Bolsonaro geralmente aparece ao lado de suásticas ou de discursos de ódio, na maioria dos casos contra gays e negros, mostrando uma personalidade preocupante sobre os militantes do deputado de extrema-direita.

O primeiro caso teria sido ainda no primeiro turno, em setembro, na Universidade Federal do Espirito Santo (Ufes), onde estudantes encontraram uma suástica pichada na porta do banheiro do prédio Ed VI do Centro de Ciências Econômicas e Jurídicas (CCJE), no campus de Goiabeiras, em Vitória – ES.

Segundo o jornal local, a pichação feita em setembro ainda permanece no local.

Em nota, a universidade afirmou, referindo-se ao ato: “inaceitável, por conseguinte, é toda e qualquer forma de violência, agressão, depredação, confronto ou intimidação”.

São Paulo

Em São Paulo, noticiamos também o aparecimento de manifestações da extrema-direita em pontos isolados da cidade. As ações seriam de grupos neonazistas, em repúdio ao ex-presidente Lula ou em apoio ao candidato Jair Bolsonaro, e foram registradas em três bairros da capital paulista: São Miguel Paulista, Butantã e no Metrô São Bento, na região da rua 25 de março, no centro da capital paulista.

Na ocasião, a Faculdade São Judas se pronunciou sobre o ocorrido na unidade no bairro do Butantã, afirmando repudiar qualquer demonstração de ódio e intolerância, e que já teria aberto um processo de apuração interna para que sejam tomadas as medidas disciplinares e administrativas cabíveis.

Na mesma semana, uma arvore localizada no Bloco O da Universidade Do Sagrado Coração, em Bauru, apareceu com uma suástica e a frase “Bolsonaro 2018” logo abaixo.

No dia seguinte, a suástica foi coberta por outros alunos que colocaram mensagens de amor e as cores da bandeira LGBT.

É importante lembrar que recentemente, na Universidade de Campinas (UNICAMP), um militante de extrema-direita foi detido também, após pichar suásticas pela universidade e fazer promessa de cometer uma chacina no local.

Rio Grande do Sul

Na segunda-feira (8), após o fim do primeiro turno, uma jovem estava a caminho de casa quando foi atacada por três homens.

Eles se incomodaram porque ela usava uma camiseta com os dizeres #EleNão, em referência ao candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL).

Ela foi então agredida e, em seguida, enquanto dois deles seguravam a garota, outro rapaz fez uma suástica com um canivete na região da barriga dela.

O delegado responsável pelo caso, Paulo Jardim, que já participou de uma operação contra anarquistas no RS, tentou minimizar o ocorrido dizendo que era uma suástica budista.

Também na mesma semana, cartazes foram encontrados por servidores públicos do Departamento Municipal de Águas e Esgotos (DMAE) em Porto Alegre, no bairro Menino Deus.

Os cartazes carregavam uma suástica e logo abaixo a frase “Bolsonaro presidente”.

Também no Rio Grande do Sul, a estátua do escritor João Simões Lopes Neto, localizada na cidade de Pelotas, teve uma suástica desenhada na testa.

Novamente São Paulo

No início de outubro, na zona norte da capital paulista, a escola estadual Rui Barbosa Conselheiro, no Tremembé, teve uma suástica pichada na porta da sala de aula com a inscrição “preta galinha”.

A  mensagem era para uma a uma professora negra de sociologia, que denunciou: dias antes tinha ouvido dos alunos gritos de apoio ao candidato Jair Bolsonaro (PSL).

Também neste ano outra escola da cidade de São Paulo sofreu com o neonazismo nas salas de aula.

Um estudante neonazista na escola estadual Professora Zuleika de Barros Martins Ferreira, na zona oeste da cidade de São Paulo, deixou dois alunos feridos em um ataque com faca.

Na ocasião os alunos da escola informaram que ele já havia sido flagrado desenhando símbolos nazistas em lousas de salas de aula, além de pichações em apologia ao grupo racista americano Ku Klux Kan (KKK). Eles também denunciam que a escola está tentando abafar o caso.

USP

Durante o feriado deste último dia 12, veio à tona também uma pichação na Universidade de São Paulo (USP), no campus da capital.

A pichação foi registrada por alunos em um dos banheiros da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e reforça o apoio de grupos de extrema-direta à Bolsonaro:

Na manhã desta quarta-feira (17), os alojamentos do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP) entraram para o mapa do ódio após portas amanhecerem  pichadas com suásticas.

Mais instituições de ensino

A Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo – SP teve uma das portas do banheiro pichada com as mensagens “Bolsonaro vai limpar essa faculdade de preto e viado” e “preto vai morrer”. As mensagens traziam junto o número 17, número do candidato Jair Bolsonaro.

No cursinho do Anglo Tamandaré, no bairro da Liberdade, também em São Paulo, um dos banheiros também foi pichado com mensagens de ódio, racismo e apoio para Jair Bolsonaro.

Já no Rio de Janeiro, um colégio da Zona Sul registrou uma pichação homofóbica feita em uma das paredes de um prédio anexo do Colégio Franco-Brasileiro, em Laranjeiras..

O prédio do Instituto de Linguagens (IL) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, também amanheceu pichado com uma suástica na ultima quarta-feira (10). A suástica acompanhava o número 17, número de Bolsonaro.

Até o nordeste

O Centro de Ciências Agrárias do campus da Universidade Federal do Piauí, em Teresina, também registrou casos de mensagens de ódio em banheiros.

Em entrevista para o jornal local, Portal AZ, os alunos relataram estar com medo e denunciaram também a coordenação da faculdade, que não havia tomado providencias sobre o ocorrido até o momento.

Nem a igreja escapou

Em Nova Friburgo, município do estado do Rio de Janeiro, uma igreja foi pichada com o símbolo nazista.

A igreja, que tem 150 anos e é a mais antiga da cidade, possui um sino de bronze doado pelo Imperador Dom Pedro II.

O ataque aconteceu 3 dias após Fernando Haddad, candidato do Partido dos Trabalhadores e opositor de Bolsonaro, ser recebido pela entidade católica Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Bolsonaro é amplamente apoiado por devotos de religiões evangélicas e possui apoio de expoentes de várias congregações no país, como Silas Malafaia e o Bispo Edir Macedo.

Bandeira neonazista em ato

Em São Paulo, um grupo de apoiadores do deputado levantou uma bandeira Kekistan durante uma manifestação na Avenida Paulista no ultimo domingo (14).

FOTO:  YAN BOECHAT

A bandeira é vista frequentemente em manifestações da extrema-direita nos Estados Unidos, como as que ocorreram na cidade de Charlottesville em agosto do ano passado, e que terminaram com uma mulher assassinada por militantes da neonazistas.

O Kekistan é um ‘país imaginário’ criado por supremacistas brancos americanos e sua bandeira é um espelho da bandeira de guerra nazista alemã.

O movimento já foi alvo de reportagens na imprensa americana

Mapa do ódio

Veja abaixo quantas ocorrências foram registradas nos estados:

É crime

Vale lembrar que a legislação brasileira, através da Lei 7.716/89, prevê no seu artigo 20: “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena – Reclusão de um a três anos e multa”.

No parágrafo 1º do artigo 20, está previsto o referido “Crime de Divulgação do Nazismo”:

“§1º – Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular, símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. Pena – reclusão de dois a cinco anos e multa”.

O racismo é crime sem direito a fiança. Este enquadramento é dado pelo artigo n. 20, parágrafos 1 e 2, da Lei n. 7716 de 5 de janeiro de 1989 (redação destes parágrafos atualizada pela lei n. 9459 de 15 de maio de 1997). Contudo, o acesso à informação sobre o nazismo não pode ser proibido.

A suástica somente é proibida quando for utilizada num contexto de apologia à doutrina nazista. Não procedem as alegações muito comuns de que é permitido a divulgação do nazismo sem a suástica: o crime existe.

A pena para o crime de divulgação do nazismo é de 2 a 5 anos, mais multa. Porém, existem poucos e recentes casos de condenação pela Justiça brasileira.

O artigo 140, § 3º, do Código Penal, estabelece uma pena de 1 a 3 anos de prisão (“reclusão”), além de multa, para as injúrias motivadas por “elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem, ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”.

A lei 7716/89 abrange os “crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, também com pena de reclusão de 1 a 3 anos, e multa.

Revisado por Renato Martins

Cleber Lourenço
Editor-chefe, fundador e colunista desse site que tem como objetivo questionar e denunciar.
Entre em contato: cleber@acoluna.co
Cleber Lourenço on EmailCleber Lourenço on FacebookCleber Lourenço on Twitter
banner com links