Coluna

– Jornalismo com opinião

Lula e as prisões de Abril

Era 19 de abril de 1980 quando Luiz Inácio Lula da Silva, então líder sindical no ABC paulista, foi preso pelo DOPS, a polícia política do regime militar.

Lula havia entrado no radar do regime ainda em maio de 1978, quando foi deflagrada a primeira de uma série de greves dos metalúrgicos, com primeira paralisação sendo na fábrica da Scania.

No ano seguinte, no estádio municipal da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, uma nova paralisação durou 15 dias.Depois no ano seguinte veio a maior de todas as greves, que durou 45 em 1980. Dessa vez, a repressão foi ainda maior. No dia 19 de abril, os dirigentes sindicais, entre eles, Lula, foram presos e, mais uma vez, houve intervenção no sindicato.

Luiz Inácio Lula da Silva na histórica foto de seu fichário no Dops, em 1980

Ele ainda seria interrogado, os agentes de repressão do DOPS buscavam provas de que o metalúrgico detido eta um genuíno marxista, ou pelo menos havia contato com marxistas. Após Lula contar que havia expulso um Trotskista de uma reunião conforme consta o documento:

“Em uma das assembleias o trotskista distribuía o panfleto ‘Partido Revolucionário Operário Trotskista’, sendo que o interrogado não procurou o nome desse elemento, mas sim [procurou] expulsá-lo daquele local o mais rápido possível”.

Os investigadores ficaram chateados ao descobrirem que Lula era apenas um trabalhador lutando por direito e melhores salários, nada além.

Lula foi processado e condenado com base na Lei de Segurança Nacional. Foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar, mas afastado da presidência do sindicato.
Depois disso Lula foi ameaçado outras diversas vezes de ser levado para a cadeia, o regime tinha certo receio em praticar com o futuro presidente qualquer tipo de tortura, a ditadura já estava quase em seu fim, enfraquecida, a população buscada cada vez mais o retorno para a democracia, não queriam ter um novo Edson Luís (estudante assassinado pela ditadura e que gerou comoção popular, quase encurtando a duração do golpe militar) na conta.

Outro Abril

Mais de 30 anos se passaram desde aquele episódio quando, em decorrência de um processo judicial cheio de falhas e afobado, Lula mais uma vez tem sua prisão decretada.

O ano é 2018 e logo após o Supremo Tribunal Federal negar o habeas-corpus do ex-presidente, aparentemente cercado de desespero e atropelos o Tribunal Regional Federal da quarta região (TRF-4) em harmonia com o juiz federal Sérgio Moro correram contra o tempo afim de emitir uma ordem de prisão que pudesse ser exibida a tempo no Jornal Nacional. Conseguiram, a atitude recebeu cobertura do plantão da Globo e alvoroço de toda a mídia e opinião pública.

Lula depois de exatos 38 anos mais uma vez entrará em uma cela no mês de Abril após um processo onde o desembargador do TRF-4 passou o caso Lula na frente de exatos 257 processos.

Ainda não se sabe qual serão os desdobramentos e consequências da decisão. O desembargador do TRF-4 passou o caso Lula na frente de exatos 257 processos

O ex-presidente petista será preso enquanto homens como Romero Jucá, flagrado em gravações conspirando contra a ordem e civilidade nacional e Aécio Neves gravado em escutas dizendo que: (sic) “tem que ser um que a gente, mata depois” seguem livres.

Enquanto setores da sociedade desviam a atenção das massas entorno de Lula, o descalabro com o dinheiro público permanece intacto, mudam os nomes, mas a corrupção segue endêmica no Brasil

Não devemos esquecer a decisão do juiz federal mergulha o país em mais incerteza e carimba um atestado de irresponsabilidade em Moro uma vez que Lula tem pendentes no tribunal que eles integram dois recursos que se votados, irão libertar o ex-presidente, que recorrerá, então, em liberdade à terceira instância. Lula ainda responde em outras ações da justiça como o sítio de Atibaia.

Tanto o TRF-4 quanto Moro sabem disso e quando do Lula for solto irão irritar petistas e manifestantes contrários ao PT jogando mais fogo no país.

Discordâncias e instabilidade

A situação não surpreende já que as instituições brasileiras aparentemente abandonaram a responsabilidade com a estabilidade e a ordem social em uma semana semana onde, um general ameaça o supremo tribunal e inflama as tropas gerando reações de outros generais, para depois deflagrar uma crise interna do exército brasileiro uma vez que o comandante da aeronáutica decide retrucar as declarações do comandante das forças armadas.

A prisão de Lula gerou desconforto em setores dentro da própria direita que reconhece e enxerga com estranheza a celeridade no pedido de prisão antes mesmo do esgotamento dos recursos de segunda instância.

O Jornalista de direita e histórico militante anti-petista, Reinaldo Azevedo, afirma que a prisão só reforçará a tese da defesa do ex-presidente que afirma sofrer perseguição política e que enquanto essa prisão lhe transformará em mártir, sua libertação que certamente ocorrerá nas próximas semanas certamente irá canonizar o dirigente petista.  Ele também enxerga irregularidades no pedido de prisão e ainda afirma:

“Não há mais como dourar a pílula. É um caso de perseguição política…a direita no Brasil é chucra…Lula não está sendo preso por corrupção mas por ter língua presa, ter nove dedos e ser de origem operária”

Generais de metendo na política, Lula sendo preso (novamente). Histeria anti-comunismo em pauta e FIESP se metendo em manifestações. Pelo visto o país parou para dar um cochilo e acordou em algum lugar entre 1964 e 1985.

Créditos da imagem em destaque: Leonardo Benassatto/Reuters
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Cleber Lourenço
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