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Melancolia e Depressão: Sintomas de um Colapso Psicossocial

Publicado por: em 24/01/19 6:13 PM
Melancolia – Dührer

“É preciso que a simples experiência da vida, em si mesma, seja capaz de nos seduzir” – Viviane Mosé

Na minha última Coluna, discuti o estado melancólico como uma condição paralisante da subjetividade atual frente o momento sócio-político-econômico-social e cultural-histórico que vivemos, pontuando a necessidade em cuidarmos de nossa saúde mental.

Falar de melancolia e depressão como sintomas sociais trata-se de uma leitura clínica quanto ao funcionamento psíquico coletivo no contexto contemporâneo a partir das dinâmicas que se apresentam e se repetem. A melancolia, como a depressão, podem ser estados que tendem a bloquear a imaginação e a possibilidade de criar novos espaços de relações mais amplas, democráticas, transversais, criativas e imaginativas.

Portanto, aproveito para falar um pouco sobre esses estados, revelando suas diferenças, similaridades e facilitando a identificação da melhor forma de intervir no sentido a um cuidado de saúde mental coletiva que possa ser mais eficaz, compreendendo que, conscientizando-nos sobre a forma com que funcionamos, possamos fazer circular outras maneiras de organização subjetiva da sociedade.

Melancolia e Depressão na Contemporaneidade

A depressão vem sendo a principal causa de problemas de saúde e incapacidade em todo o mundo. De acordo com as últimas estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 300 milhões de pessoas vivem com depressão, um aumento de mais de 18% entre 2005 e 2015, considerado – na atualidade – uma epidemia.

O que nos torna propensos a desenvolver quadros de depressão e estados melancólicos está diretamente relacionado a forma com que nos organizamos subjetivamente em sociedade. Nossa base sócio-cultural foi constituída a partir de símbolos de poder e de desempenho grandiosos, muitas vezes megalomaníacos, como signos de imagens de sucesso atrelados ao imperativo de produtividade exacerbada. Dessa forma,  vivenciamos processos críticos de auto julgamento interno e constante em relação a nosso desempenho no mundo e aos outros, juntamente com a necessidade de aceitação e validação por um outro externo que carregamos.

Nesse contexto, passamos a experienciar movimento acelerado de ações e do pensamento, em que a racionalidade embasa e nos conduz a comparação dos corpos e de estilos de vida, através de recortes de modelos de comportamento instituídos e aparentemente perfeitos, supostamente felizes que estão disponíveis por todo o mundo virtual, entre outros. A racionalidade surge como um “mecanismo de defesa” frente ao vazio e a angústia que a necessidade de adequação ao ritmo capital apresenta.

Quando falo de “ritmo capital”, me refiro a estilos de vida e formas de organização sociais que necessariamente giram em torno da primazia do lucro e do dinheiro. Qualquer lógica fora do consumo, da aquisição de bens, da produção e da propriedade privada, tende a ser desconsiderada e desqualificada.

O termo depressão, utilizado para falar de um olhar médico psiquiátrico, surge a partir do estado de melancolia, e tem como função ilustrar e discorrer sobre os sintomas e as características psicopatológicas do quadro. Já a melancolia é termo antigo utilizado por filósofos, se referindo a estados da existência que englobam uma maneira de funcionar e uma estrutura psíquica, ou seja, trata-se da base de um sofrimento psíquico.

Sigmund Freud, pai da psicanálise, em “Luto e Melancolia” (1917), analisa os estados de luto e melancolia fazendo uma associação entre ambos. Enquanto o luto fala de um estado deprimido relacionado a perda de um objeto real que está situado dentro de um tempo e espaço determinado, como o término de um relacionamento, a perda de um ente querido ou algum objeto amado, entre outros, a melancolia refere-se a um processo de luto relacionado a perda de um objeto não identificado e atemporal.

No estado melancólico, como no luto, o sujeito apresenta desânimo e baixa da libido (energia) constante, perda de interesse por atividades que realizava com prazer anteriormente, sentimento de desamparo, angústia, auto-estima rebaixada; no entanto, no luto, compreende-se como um estado natural e necessário para lidar com a perda que se dá em tempo determinado de seis meses a dois anos. No estado melancólico, o sujeito vivencia a faceta patológica do luto, não identificando as causas de seu sofrimento psíquico, que podem estar relacionadas a perda de um objeto ideal inconsciente que estrutura seu modo de vida e maneira de estar no mundo.

No processo de melancolia, o sujeito consome o próprio ego como se fizesse um movimento contra seu eu, enquanto no luto, após elaboração da perda do objeto, consegue reconstruir sua estrutura egóica e seguir adiante. Na melancolia, o sujeito investe sua energia em detrimento de si mesmo, como se funcionasse em auto ataque, desvalorização e depreciação de sua personalidade, destituindo-se de sua própria humanidade e funcionando como se vivesse um “delírio de insignificância” em auto-depreciação.

O que ocorre é a perda da ilusão de um objeto fantasiado que não mais o gratificará, objeto esse perdido no processo de desenvolvimento psíquico do sujeito que costuma ter suas bases nas fases do desenvolvimento infantil. Podemos dizer que é um estado de “excesso de realidade”, em que, no contato com a mesma, se frustra e se esvazia de si mesmo, vivendo as dores intensas do existir.

A Glamourização da Destrutividade

Nos dias de hoje, é comum notarmos uma busca incessante por ideais de beleza, que se baseiam em imagens de sucesso, obsessão por alimentação saudável e por uma felicidade constante e contínua, muitas vezes exacerbada, explicitadas nas redes sociais. O contexto subjetivo que vivemos desperta alto nível de competitividade em relação ao desempenho no âmbito sexual, do trabalho, do esporte e de uma vida “bem sucedida” nos moldes caracterizados pelo consumo e pelo estímulo de satisfação e gozo incessante. Esse cenário facilita que, especialmente os jovens – na passagem da puberdade à adolescência – vivam comparações e equiparações cruéis em relação aos outros na busca de um ideal de eu.

Esse ser idealizado vem sendo construído pelo processo cultural, econômico, político e subjetivo que forma identidades por via das relações cotidianas, dos modelos de relações com os mais próximos (família, escola), da mídia, das redes sociais e também por meio dos filmes Hollywoodianos que apresentam padrões de relacionamentos e imagens ideais a seguir, o que implica, muitas vezes, no reforço de estigmas e de lugares estáticos dos papéis sociais e de gênero. Nessa dinâmica, a sociedade capitalista termina por incentivar e estimular a competição, a obediência, a servidão aos bens de consumo e a representação de papéis atrelados a status e modelos de poder, conduzindo um grande número de pessoas a se mutilarem, autodestruirem e adoecerem em processos melancólicos que muitas vezes se desenrolam em quadros de anorexia nervosa, bulimia, obesidade, dependência química e na glamourização da autodestruição.

Nota-se que há uma distorção da autoimagem em contraste com um ideal de eu devido grande pressão social de se tornar adulto as pressas e atingir determinado patamar de sucesso, novamente, idealizados, na maioria das vezes muito distante do que o sujeito é e vive como realidade.

Para entender a glamourização da destrutividade, posso utilizar como exemplo o caso do ator Fabio Assumpção, que por ser dependente químico tem sido representado através de memes como: “hoje é sexta feira, quem tem limite é município”, chegando no ponto de uma banda fazer uma música com seu nome incentivando o uso de álcool e outras drogas.

Falas como essa incentivam o extravasar das energias no fim de semana por meio de uso de substâncias, energias estas que possivelmente foram contidas durante a semana e muitas vezes reprimidas em rotinas escaldantes e esvaziadas de significado.

É possível notar certa apologia ao uso de álcool e drogas como algo recreativo e comum, no entanto, o uso de substâncias e os quadros de adicção, tem sido cada vez mais problemáticos no que tange questões de saúde pública. Situações como essa são parte responsável pela morte e suicídio de muitos indivíduos quando não mais dão conta de sustentar e entrar em contato com o vazio que nos toma e com a idealização de si criada com bases distantes do real, precisando preencher o vazio com compulsões, que sejam alimentares, de hábitos, comportamentos ou substâncias.

O Colapso

Essa maneira psicodinâmica de funcionar, em âmbito social, pode ser pensada como um estado melancólico coletivo, em que os sujeitos paralisam-se frente a frustração de um ideal fantasiado porém já fracassado internamente retornando em auto-agressão.

Quando brincamos com a questão de nossos limites, fazendo apologia ao uso de substâncias aparentemente de forma recreativa, estamos mascarando o sofrimento psíquico inerente aos quadros de abuso de drogas, bem como a necessidade de entrar em contato com as bordas da psique que nos levam a circular entre a pulsão de vida e a pulsão de morte (pulsão como energia e libido investidas em prazer e ações saudáveis ou destrutividade).

Normalizar a continuidade do uso de substâncias psicoativas, vai dizer de uma sociedade que já perdeu a beira de seus limites confundindo-se sobre o sadismo que comporta estados entre a dor e o prazer. Não sabemos mais onde dói e quando parar, pois viver em estado melancólico passou a ser a via de regra, o que denota um colapso das estruturas psicossociais que fazemos parte ativa.

Não seria a toa, então, que o brasileiro frequentemente se autodeprecie com falas que destituem nossa integridade como nação, constituindo, cada vez mais, um cenário que valida estados de violência pessoais e coletivas. O punitivismo com as próprias mãos têm relação com estados melancólicos de funcionar.

Atualmente, a depressão se apresenta como o nome que se dá a estados melancólicos de existência, porém categorizados como quadros psicopatológicos, como dito anteriormente, mas sua causa é de cunho estrutural, no enlace da psique com o meio, que apenas em acompanhamento psicológico e psicoterapêutico é possível compreender suas bases e estabelecer cuidados de saúde mental individual, e a posteriori, psicossocial.

A tal da epidemia de quadros depressivos, vem dizer que o buraco é mais embaixo, e sinalizar que, nossos hábitos, crenças e maneira de nos relacionar e organizar coletivamente, fracassou. Reconhecer o fracasso nos possibilita elaborar o luto do que não foi para dar vazão ao novo que poderá chegar.

É por meio de recursos estruturais e de políticas públicas que podemos expandir os cuidados em saúde mental, que em prejuízo incapacitam os sujeitos, tornando-os não só improdutivos (o que viria a ser até uma solução para o cuidado: improdutividade como sintoma social para resgate e reorganização de como produziremos a partir de agora ), mas também adoecidos e impossibilitados de criar, construir novas formas de existir e quebrar com o instituído para realizarmos maneiras mais saudáveis de estar no mundo.

Referências Bibliográficas:

  • Magtaz Scazufca, Ana Cecilia  – ABORDAGEM PSICANALÍTICA DA ANOREXIA E DA BULIMIA COMO DISTÚRBIOS DA ORALIDADE – 1998 – Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de MESTRE em Psicologia Clínica
  • Sigmund, Freud – Luto e Melancolia – 1917
  • Magtaz Scazufca, Ana Cecilia – Disturbios da Oralidade – 2008 – Tese de Doutorado em Psicologia Clínica apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
  • ONUBR – Nações Unidas no Brasil https://nacoesunidas.org/oms-registra-aumento-de-casos-de-depressao-em-todo-o-mundo-no-brasil-sao-115-milhoes-de-pessoas/
Tim
Professor, pesquisador (mestrando) geografia urbana & geopolítica (USP). Poeta & escritor, agitador cultural, colunista/editor dA Coluna.
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