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O “NOVO” Empoeirado

Publicado por: em 11/09/18 2:05 PM

Com um discurso pregando “menos Estado”, empreendedorismo, menos impostos e a meritocracia, o Novo tenta se descolar de toda a lama em que se envolveu a política tradicional nos últimos anos. Sigla esta que acolheu em grande parte egressos do PSDB, tais como Gustavo Franco, ex-presidente do BACEN e Bernardinho, ex-técnico das seleções brasileiras de vôlei.

Uma das novidades desta eleição, que até agora parece ser mais do mesmo, é o surgimento de um fenômeno laranja com o número 30. Não, não se trata do Itaú 30 horas, apesar de ambos terem origem no setor financeiro. Trata-se do partido Novo.

Com um discurso pregando “menos Estado”, empreendedorismo, menos impostos e a meritocracia, o Novo tenta se descolar de toda a lama em que se envolveu a política tradicional nos últimos anos. Sigla esta que acolheu em grande parte egressos do PSDB, tais como Gustavo Franco, ex-presidente do BACEN e Bernardinho, ex-técnico das seleções brasileiras de vôlei.

Descontentes estes com os envolvimentos em esquemas de corrupção por aquela legenda, o NOVO foi criado por Ricardo Coelho Taboaço, ex-sócio diretor do Grupo Icatu e vice-presidente do Citibank, e João Dionisio Amoêdo, sócio da BBA e grande amigo de Armínio Fraga, outro egresso do PSDB e sócio-administrador da Gávea Investimentos.

Ricardo e Amoedo pregam o combate a corrupção, mas ambos foram mencionados como proprietários de off-shores não declaradas no Bahama Leaks, um escândalo de investigação que evidenciou a existência de 175 mil empresas offshore não declaradas no paraíso fiscal das Bahamas. Ambos afirmam que as empresas são declaradas.

Amoedo, dono de uma fortuna declarada, de mais de 400 milhões de reais, é o candidato à presidência pela legenda. Na tentativa, relativamente bem sucedida de se descolar de privilégios, afirma ser contra e recusa o fundo partidário ou qualquer outro benefício: mas esquece de afirmar que a legenda, ainda muito pequena, faz jus a apenas 980 mil reais de fundo no Brasil todo, o que sua fortuna pessoal rende em uma semana aplicada. Proselitismo puro.


“Na tentativa, relativamente bem sucedida de se descolar de privilégios, afirma ser contra e recusa o fundo partidário ou qualquer outro benefício: mas esquece de afirmar que a legenda, ainda muito pequena, faz jus a apenas 980 mil reais de fundo no Brasil todo, o que sua fortuna pessoal rende em uma semana aplicada. “

O Novo fala em menos Estado, discurso velho, repetido e batido. Fala em privatizar estatais e diminuir privilégios de servidores. Esquece que o setor que a ampara, os bancos, são beneficiários de quase metade do orçamento federal via emissões de títulos e juros de dívida nos patamares mais exorbitantes do mundo (os principais compradores destes títulos são mega investidores, bancos e casas de fundos de investimento).

Seu “progressismo” também só existe na economia: O partido simplesmente se recusa a discutir temas como aborto, casamento gay e legalização da maconha.

No seu programa de governo disponível na internet, o partido de Amoedo acusava os professores de serem privilegiados e buscava mudar o sistema educacional. Depois do escândalo os trechos foram retirados. Mas o certo é que, o partido defende o fim das escolas e universidades públicas, com o estabelecimento dos “vouchers” para a população, assim como outrora foi no Chile: cada aluno receberia um pequeno valor e buscaria a escola particular que mais se adequasse à sua renda. Isso na prática sucateou a educação onde foi implementado (Chile) e criou movimentos pelo retorno à escola pública, pois a diferença de ensino e o surgimento de grandes monopólios de educação exacerbou as diferenças. Quem tem dúvidas consulte o programa de governo e busque as falas de Gustavo Franco sobre o tema.

Na saúde a ideia é bastante parecida: “Ampliação das parcerias público-privadas e com o terceiro setor para a gestão dos hospitais”. Os vouchers também estão lá, o que na prática acaba com o SUS, que apesar de deficiente, ainda garante um atendimento universal.

A exaltação ao empreendedorismo e o discurso de flexibilização das leis trabalhistas é ainda mais bizarro: empreendedorismo é ter uma empresa e não ter carteira assinada. É “tentar a sorte”. Na prática, mais de 50% das empresas criadas no Brasil entram em falência no primeiro ano e isto nada tem a ver com burocracia (o que deve ser melhorado sim, mas é outro assunto): o fato é que a maioria das empresas abertas servem apenas para a flexibilização das leis trabalhista. É um exército de PJ trabalhando como representante, funcionário ou intermediário de grandes empresas ou empresários, sem direitos e sem amparo. Ao fim e ao cabo acabam por recorrer ao Estado para garantir direito à saúde, educação bem como à renda quando tudo dá errado. O mesmo Estado que o Novo quer diminuir (mas deixem os financiamentos do BNDES e as bolsa-empresário em paz, pois aí o Estado é útil).

O NOVO nada mais é que um discurso de Friedman, Delfim Neto e demais liberais, repaginado e com muito dinheiro, conservador nos costumes e liberal no dinheiro dos outros, especialmente os mais pobres. É o mercado financeiro cansado de ter intermediários e lobistas, decidindo agir na política diretamente.

(O Novo) ” É o mercado financeiro cansado de ter intermediários e lobistas, decidindo agir na política diretamente.”

Não surpreende o perfil de seus quadros políticos: homens brancos, empresários e muito bem arrumados (é o partido com menos negros em seus quadros, conforme a Justiça Eleitoral, sendo um dos únicos a não ter um indígena sequer).

O NOVO é o que há de mais velho na política. Mas bem vestido e montado no dinheiro.

Guilherme Rocha
Guilherme é cientista social pela UFRGS e consultor de investimentos no Banco do Brasil.
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