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O Retorno à Inquisição, a Caça às Bruxas e o Feminicídio

Publicado por: em 8/11/18 7:19 PM

A “caça às bruxas” é um tema que permanece aberto e circulante pela subjetividade até os tempos atuais. Pode parecer um tanto distante, mas esse processo se deu ao longo dos séculos, tendo início muito tempo antes de Cristo prosseguindo de maneira intensa  e marcando seu cume na Alta Idade Média, século XVI. Caracterizado como o período da Inquisição, a caca às bruxas é provinda de conflitos políticos, econômicos e sociais que se estenderam até o final do século XIX, deixando rastros subjetivos nas entrelinhas das relações sociais pelo contexto atual.

A caça às bruxas foi uma perseguição religiosa e social que começou no século XV e atingiu seu apogeu nos séculos XVI a XVIII. O mais famoso manual de caça às bruxas é o Malleus Maleficarum (Martelo das Feiticeiras), de 1486. No século XX a expressão “caça-às-bruxas” ganhou conotação bem ampla, sua verdadeira conotação se auto-revelou referindo-se a qualquer movimento político ou popular de perseguição política-arbitrária, com o objetivo de  Poder, muitas vezes calcadas no medo e no preconceito, submetiam a maioria, no que hoje poderíamos chamar de Terrorismo” (Wikipedia)

O processo de colonização e de suposta “civilização” dos povos por meio da força e do poder, tanto pela Igreja Católica como Protestante, juntamente com o Estado, fez uso da religião e do “nome de Deus” na manutenção da ignorância para dar encaminhamento ao aniquilamento do feminino e dos povos camponeses (de baixa renda), dos deficientes, dos desviantes da norma e os tidos como loucos, para que a elite e o clero  pudessem permanecer no poder acima de “Tudo” e de “Todos” como governantes, até o momento presente, de maneira impune vestindo a carapaça da divindade.

O Vaticano se manteve rico, intacto, gigante em sua imagem e poder devido sua corruptibilidade. Prossegue fazendo uso do lugar de Instituição de santidade – mesmo que ainda desviante em sua sexualidade fetichista – por vias de encobertamento criminoso dos escândalos de pedofilia dos e pelos próprios integrantes da Igreja, bem como pelo não reconhecimento da época da Inquisição, que foi um verdadeiro Holocausto digno de registro como “Topografia do Terror”. A caça às bruxas, no período da Inquisitório, foi intensificada pelos homens do clero em celibato, sendo compreendido como um período de perseguição e doutrinação católica por meio de mecanismos de negação, repressão e distorção da sexualidade. Os padres não podiam casar ou ter relações sexuais, logo, desenvolveram escritos e crenças de que o desejo e o prazer sexual eram pecado digno de culpa e penitência. O próprio nascimento dos homens viria carregado de culpa cristã devido ao pecado inicial da relação sexual.

Considerados uma ameaça a soberania do Cristianismo e a ordem clerical, os pagãos e suas crenças – povos da religião antiga que reverenciavam a ciclicidade da natureza, como o movimento do “Deus Sol” e da “Deusa Lua”, por meio de danças e cirandas em contato com a natureza e comemorações em liberdade, entre outros – foram forçados a doutrinação cristã, perseguidos e desapropriados de suas liberdades comunitárias. A posteriori sofreram a apropriação cultural de seus costumes e crenças, onde o cristianismo absorveu seus ritos de passagem e pontos de celebração fazendo uso dos mesmos como base dos costumes católicos. Hoje em dia, os costumes pagãos são marcos, feriados e datas comemorativas que referenciam santos e divindades supostamente católicas mas que na verdade são referências pagãs, representando, dessa forma, na atualidade, toda a repressão e extermínio vivenciado pelos povos antigos, bem como o usurpar das minorias e de suas liberdades religiosa, de expressão e de direito a vida.
Todo esse processo ocorreu juntamente com mudanças sociais significativas na Europa. A Igreja Católica, percebendo a instabilidade de seu poder, em meio a muitas guerras, revoltas e pragas que assolaram o solo Europeu daquele período, articulou-se para a retomada do poder. Para a efetivação desse processo, no ano de 1486, foi criado pelo clero um escrito em latim de 256 páginas chamado “Malleus Maleficarum”, o “Martelo das Bruxas”, uma enciclopédia e manual jurídico abrangente que comprovava a existência das “bruxas” e a necessidade de extermínio das mesmas.

O manual foi utilizado pelo Estado e pela corte clerical como instrumento jurídico de caça e confirmação de indícios de “pacto com o demômio” para condenação e morte focada exclusivamente em mulheres comuns que ameaçavam a ordem, que possuíam conhecimento ou “provocavam” desejos sexuais nos homens. 

O conteúdo desse livro é um dos mais chocantes e aberrantes no que se trata da elaboração e construção de crenças e manipulações para a caracterização e desapropriação da humanidade da figura da mulher. O “Martelo das Bruxas“, foi espalhado por toda Europa, em torno de 30 mil cópias traduzidas em diversas línguas para para dar sentido ao fenômeno da bruxaria e possibilitar a captura, a tortura e o extermínio das supostas bruxas. Foi um manual construído para o extermínio dos que se movimentavam politicamente ou fora da norma cristã, tendo como foco as mulheres, que foram descritas como seres que compactuavam com “demônios”, mais suscetíveis a carne e aos desejos, sendo responsabilizadas por causar nos homens seus próprios desejos carnais. O manual do “Santo Ofício” foi responsável por torturar, violentar sexualmente e queimar viva na fogueira mais de 60 mil mulheres. Outros escritos falam de proporções muito maiores de números em milhões de pessoas exterminadas pela Inquisição.

OS RESQUÍCIOS DA CAÇA ÀS BRUXAS EM FORMA DE FAKE NEWS

A “bíblia do caçador de bruxas” foi uma gigante e massiva “fake news”, uma farsa criada elaborada e espalhada por toda a Europa por intelectuais que governavam os povos da época e que possuíam dominação dos mesmos, intensificando tal poder por meio da doutrinação das mentes e do uso do conhecimento que tinham para construir instrumentos jurídicos que forjassem provas contra o outro com a finalidade de exercer poder sexual sobre os corpos femininos, entre outros, para satisfação de desvios sexuais de homens em celibato rumo a manutenção do poder totalitário e religioso. 
Atualmente, vemos nos Contos de Fadas a imagem das “bruxas” presentificada nas histórias de crianças, vistas como o lado mal da mulher, aquela que carrega o estereótipo da figura desagradável, mulher idosa, solitária, feia, não desejada, “encalhada”, escondida na floresta, estéril, e devoradora de crianças. 

Lilith, mulher de liderança e de poder, representante do oculto da noite, da autonomia, da força e da sexualidade, da igualdade dos sexos, independente e insubmissa, “foi uma deusa adorada na Mesopotâmia e na Babilônia associada com ventos e tempestades“. (fonte wikipedia)
Em “O Oráculo da Deusa“, livro escrito por Amy Sophia Marashinsky, 1997, que trabalha com uma linguagem simbólica, poética, dinâmica e mitológica, a autora tece caminhos de contato aos antigos oráculos tão presentes no caminho histórico da humanidade, nos guiando ao retorno da sabedoria ancestral em um processo de resgate e fortalecimento da figura do feminino por meio da apresentação dessas divindades de mulheres já reverenciadas em diferentes religiões e tempos históricos, porém apagadas pelo processo de cristianização dos povos, e da “masculinização” e industrialização da cultura. 
No cristianismo, a lenda que a grande maioria de nós conhecemos conta que, por não se submeter a Adão, Lilith foi rejeitada como mulher pela figura do homem por insubmissão, pois estava a mesma altura que ele. Dessa forma, cria-se Eva a partir da costela do homem, para submeter-se à ele. Veja, é por esse caminho que surge a ideia bíblica quanto a “verdadeira mulher”, (fala vociferada por muitos homens na atualidade contra as feministas) aquela que foi criada a imagem e semelhança do homem, de sua carne e de suas costelas, em submissão a ele, e não a “imagem e semelhança de Deus”. No entanto, em folclores medievais, Lilith foi a primeira mulher criada por Deus, que abandona Adão e o Jardim do Éden devido uma disputa dos sexos. (Wikipedia)

Lilith foi originalmente a Rainha do Céu sumeriana, uma deusa mais antiga que Inanna. Os hebreus incorporaram essa Deusa e a transformaram na primeira esposa de Adão, que se recusou a deitar-se debaixo dele durante o ato sexual. Ela insistia que, por terem sido criados iguais, eles deviam fazer sexo de igual para igual. Como Adão não concordou, ela o deixou. Depois disso, na mitologia judaica, ela era descrita como um demônio“. (“O Oráculo da Deusa”, p.119)
Neste livro, a carta do Oráculo que ilustra Lilith é uma rememoração à mulher em convite a reassumir o seu poder interior e de seu corpo. Nada mais “herege” ou feminista do que isso, não é mesmo?!

Da figura de Adão, criou-se a mulher “pecadora”, submissa e obediente. Eva nasce corruptora, já contaminada por nascer das costelas de Adão (Martelo das Bruxas) condenada a eterna penitência de servidão à família, pois comeu do fruto do pecado e o conduziu a destruição do Jardim do Éden. Na lenda, ela é responsabilizada por “tentar” o homem e destruir o paraíso. A responsabilização da figura da mulher pela destruição do Éden, foi construída pela Igreja Católica de acordo com seus interesses, como em seus diversos textos e manuscritos modificados. Mais uma vez, são versões construídas e alteradas por homens celibatários (com desvios fetichistas de sexualidade), rumo a manipulação dos povos, estes que não tinham acesso ao latim e ao conhecimento se não fosse por via dos monastérios, tudo em nome de poder fazendo uso do nome das divindades.

O RETORNO DA INQUISIÇÃO

Na atualidade, é possível ver a reprodução de funcionamentos psicodinâmicos similares ao período Inquisitório com raízes claras de base doutrinária cristã-católico-romana. Conceitos e crenças estes que permanecem a reprimir desejos, intervir na sexualidade dos povos, na elaboração e construção de leis, no impedimento da resinificação da representatividade do sexo feminino, na manutenção do controle sobre os corpos e as mentes, na manipulação subsequente da dinâmica dos afetos sociais para os fins de manutenção de grupos em disputa, sejam estas armadas ou não, de preferência em guerra para que não possamos unir forças, enquanto cada um corre atrás de seu ganha pão sustentados na ideologia de que se trata de uma questão de mérito e de força de vontade. A Igreja Católica mantêm peso significativo na construção de crenças e normas sociais que tem suas bases nas épocas obscurantistas as quais me referi acima. 

Por esse caminho, é possível visualizar o investimento aplicado dos Governantes no silenciamento dos povos em manutenção de uma dinâmica subjetiva, política, econômica e religiosa que flerta com e atua em prol do aniquilamento do outro, em especial do feminino, e das liberdades democráticas que explodem em casos de feminicídio, violência contra a mulher, extermínio LGBTQs e das minorias trans (vejam os números em fontes fidedignas). 

Um dos exemplos que tenho a colocar aqui rapidamente é a criação do Projeto de Lei 867/2015 da “Escola Sem Partido”, uma aberração que circula pelo Parlamento Brasileiro para aprovação na Câmara dos Deputados apresentado em 2015 pelo deputado Izani do partido do PSDB/DF. Este projeto coloca em cheque o conhecimento diverso trabalhado nas escolas que partem de diferentes perspectivas e referenciais teóricos, éticos e históricos, conteúdos estes baseados na multiplicidade de pensamentos ideológicos postos para reflexão e problematização no contexto escolar. O projeto de lei da “Escola Sem Partido” tem partido e chega na contramão da construção do pensamento democrático com a intenção de fazer prevalecer a “precedência aos valores de ordem familiar sobre a educação escolar nos aspectos relacionados à educação moral, sexual e religiosa” .(ficha de tramitação do Projeto de Lei 867/2015 – site camara.gov.br)

Na conjuntura do contexto atual, em que grupos marcham pela família cristã anti-direitos democráticos, retomando funcionamentos e crenças de cunho religioso-cultural que foram perpetuadas pelo Ocidente ao longo da história da civilização, quem nunca, em sua pele de mulher, quando não “agradável”, não silenciosa, não inutilizada e submissa pela figura do homem, não foi colocada no lugar de Lilith, forjando-se uma rejeição à essa “bruxa demônia” enquanto se colocava uma Eva submissa, adoradora da figura de Adão como substituta. Eva, aquela que é tênue, bela, que deve ser recatada, investida na manutenção da rotina do lar, dos alimentos afetivos da família, dos afazeres diários da casa, do sustento psíquico por trás do “grande homem”. A figura da “boa moça” e da “mãe de família” contrapõe e pune a mulher “herege”, a figura da mulher sábia, livre, solitária, engajada socialmente e autônoma, transformada em um ser vil por sua insubordinação à religião e a figura do homem, enquanto a figura de Adão é trazida como o centro do mundo. A mulher da floresta, transformada em “bruxa” até os tempos atuais na subjetividade do coletivo, eram (e parecem continuar sendo) seres que se orientavam pela natureza e por seus ciclos milenares de conhecimento ancestral por meio dos mistérios ocultos do funcionamento do Universo. Bruxas eram as mulheres medicina, camponesas, pobres, porém de grande prestígio social entre a comunidade por possuírem amplo conhecimento das ferramentas medicinais das ervas da floresta.

Costumavam ser solas, se guiavam pela sabedoria transmitida oralmente pelos povos antigos, assim como ainda fazem os índios. Produziam conteúdo e conhecimento no contato e estudo dos ciclos menstruais alinhados com os ciclos lunares. Se reuniam em grupo com outras mulheres para conversar, trocar conhecimento, receitas, idéias, se apoiarem, se fortalecerem e criarem juntas. 
Lilith, a “demônia”, eram aquelas que escolheram não casar, viver em liberdade em meio a sabedoria medicinal dos animais e das ervas, muitas vezes jovens ainda, no entanto, parteiras, terapeutas, cozinheiras, alquimistas, anciãs, aquelas que representavam ameaça à ascensão da medicina científica masculina burguesa.

Enquanto Adão sai bem na fita e na foto até os dias de hoje reinando nos Congressos dominados por homens brancos, supostamente “bem casados” (exemplo do escândalo vazado na internet do antigo Prefeito de São Paulo, eleito agora como Governador, João Doria), deixam as Liliths queimarem nas fogueira subjetiva sociais da lascívia da Inquisição do tão enaltecido mundo cristão; as mulheres dicotomizadas entre “santas” e Liliths, esta última concebida como “traidora”, “cobra venenosa”, “destruidora de lares”.

caça as bruxas acontece pela crença de que as mulheres da floresta, vis, as quais provocam desejos maléficos nos homens, deveriam sofrer esculacho (tortura e morte) em praça pública por ameaçar a masculinidade e sexualidade dos homens e representar a figura da “falsa mulher”. É por esse caminho que se dá base à disputas e competições irrefreáveis entre mulheres até os dias de hoje ao entorno da figura dos homens, para que se digladiem e se auto destruam, eliminando a possibilidade de união por meio de suas causas comuns, que são a de retomada de seu próprio poder psíquico, subjetivo, de direitos e de cidadania, bem como sua emancipação como mulher selvagem livre como um ser também completo em igualdade ao homem, aquela que pode estar integrada e vivenciar relações de parceria e respeito mútuo.

O “Martelo das Bruxas” foi um manual do “Santo Ofício” para forjar conscientemente, de maneira manipulatória, que as mulheres apresentavam características de bruxas. As mulheres que haviam sido denunciadas por bruxaria, (que poderiam ser por motivos de vingança, disputa, ignorância etc) eram avaliadas por homens do clero. Uma vez denunciada, a culpa era garantia, não se podia provar o contrário, pois as denúncias eram infundadas. Por esse caminho, os religiosos examinavam os corpos nus das mulheres, destituíam-nas de seu poder sobre seus corpos, fazendo uso de facas “falsas” para perfurá-las e causar a impressão de que não sangravam. Com isso, comprovavam, por artifícios enganosos, que as mulheres tinham “pacto com o demônio” se não sentissem dor ou sangrassem na perfuração, pelo uso dessa faca de fundo falso. Uma vez denunciada, a mulher já estava condenada ao estupro pelo clero, à tortura física e mental pela instituição da Igreja Católica. Se confessassem, morreriam também porém com pena mais branda. 

Por esse funcionamento, os afetos de medo e pânico que circulavam pela sociedade já faziam com que as pessoas vivessem em processo de defesa e ataque constantes, intensos e irrefreáveis, em prol da sobrevivência, muitas vezes em prol de interesses particulares e gananciosos. Exterminavam-se entre si para sobreviverem, fazendo prevalecer a disputa, competição e a aniquilação do outro, pela lógica do “antes você do que eu”. Manter as comunidades unidas e coesas seria uma forma de ameaça ao poder único, institucional e onipotente do clero. O processo de extermínio das mulheres e do enfraquecimento de sua sabedoria ancestral em contato com a vida em liberdade e coletiva na natureza, a mulher pagã da agricultura conhecedora dos processos da vida e dos ciclos; o poder de reunião em grupo e nas comunidades para trocar sobre os ciclos menstruais, sobre a medicina das ervas e as faces da lua, dos arquétipos mitológicos de conhecimento das Deusas, foram exterminados para fazerem da mulher a Maria Madalena prostituída e violentada por todo um clero pervertido, voraz e alucinante de maneira psicopatológica.  

No período da Segunda Guerra Mundial, Hitler trouxe a mesma linha de pensamento e funcionamento quando falou do aniquilamento do feminino para fazer uma raça superior de homens loiros, brancos, puros, de olhos azuis, sem nenhuma descendência judia, dado este que o próprio Hitler nunca conseguiu comprovar devido o desconhecimento da origem de um de seus avós. (Documentário History Channel – O Apocalipse Nazista de Adolf Hitler) Nas escolas podemos ver o mesmo processo de docilização e obediência dos corpos e das mentes. A medida em que se enfraquece ou não se trabalha o fortalecimento dos grupos e das comunidades se faz prevalecer a lógica do indivíduo por si só em um salve-se quem puder, quem chegar primeiro é “o filho do padre”, ou quem chegar por último é “a mulher do padre”?!

A mulher da agricultura, forte, sábia e dona de si, parte da aldeia, líder de exércitos, sacerdotisa de povos, passou da liberdade e conhecimento de si e da natureza para ser a princesa prisioneira da torre dos castelos dos supostos príncipes salvadores sempre a espera do parceiro ideal e da aprovação do outro. Os confessionários serviam como um método de controle das vidas íntimas dos sujeitos.Permaneceremos aprisionadas até hoje nas crenças construídas por esse processo em repetição da competição e disputas desenfreadas de quem é a mais desejada e docilizada pelos homens?!
O “falo” da mulher (pênis na literatura psicanalítica)foi inclusive “cortado” por Freud que desenvolveu em sua teoria da Sexualidade, um conhecimento sobre desenvolvimento sexual/psíquico baseado na figura do homem, entre os conceitos, coloca que a mulher tem “inveja do pênis”.  Fomos destituídas da nossa sensibilidade e de nosso poder de criação que vai além do universo peniano. Enquanto o pênis é a varinha de condão, o útero é o Universo Criador de tudo e de todos, sendo o útero o caminho entre o etéreo e o mundo físico, é o canal da vida, da gestação e da geração dos homens, que vem sendo negado e exterminado no cotidiano das cidades na reprodução de padrões milenares que circulam por afetos de medo e recusa do feminino em cada um de nós. 

É importante lembrar, pelo caminho da história, essa que foi reescrita para amenizar a barbárie do extermínio do feminino, para percebermos que nossas disputas cotidianas dentro do contexto econômico, social, político e subjetivo capitalista de cunho “sagrado” e “familiar” tem lugar no passado. Hoje, tomando consciência do que foi feito com nossas vidas e subjetividade, podemos mudar o rumo do mundo. Não tenhamos medo. Medo vem sustentando a auto destruição dos povos, indicando ser o afeto que precisa ser elaborado para nos movermos por outros mais brandos e sadios. Que possamos fazer circular os afetos de coragem e encarar a verdade da aniquilação de nossa própria liberdade, pois chegou a hora de fazer “Reinar” a União entre Feminino e Masculino. A conjunção dos corpos, o encontro do Eclipse Sol, Lua geradores do Planeta Terra.

Precisamos de espaços de resgate de nossa singularidade, liberdades individuais e em especial, de nossas liberdades democráticas, aquela que precisa da comunidade e das experiências saudáveis dos grupos coesos, do acolhimento que contrapõe o desamparo. É imprescindível nos encontrarmos, tomarmos a rua de nossas cidades com celebrações da vida, fazermos contato com nossa essência grupal, amorosa, coletiva, criadora, acolhedora, apaziguadora, calorosa, geradora, uterina, quentinha e úmida.
 
Vamos Juntxs.  






Referências:

pt.wikipedia.org/wiki/Ca%C3%A7a_%C3%A0s_bruxas

sexismoemisoginia.blogspot.com

camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=1050668#marcacao-conteudo-portal

Paula Moro
Psicóloga Clínica
Psicóloga Clínica, linha de orientação psicanalítica, Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública FSP-USP; atuou na Rede Pública de Saúde (SUS) na Clínica de Saúde Mental; atende em consultório; conduz grupos de apoio e terapêuticos.
Escreve às quintas feiras quinzenais.

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