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OPINIÃO| Os eleitores do liberalismo e suas ideias de jerico

Publicado por: em 13/09/18 10:00 AM

Para os eleitores do liberalismo, o problema não é mais a vontade do Estado. É a sua própria natureza, que é incapaz de suprir as necessidades do povo. Estratégia hábil de alguns, ideia de jerico de muitos.

A revogação da EC 95 — congelamento dos gastos do governo por vinte anos — é central para solucionar os problemas nacionais. Óbvio para alguns, mas nem tanto para outros. Eleitores do liberalismo desacreditam que aumentar os gastos do governo acarreta no aumento do superávit primário. Isso eu já sei e já desisti de convencê-los. Mas percebo outra tendência crescendo nesse grupo: eles não enxergam que alocar mais recursos numa área faz diferença.

Escutei uma história há alguns dias. Uma amiga contou-me sobre os problemas de um dos seus funcionários. Ele tinha um filho diabético que precisava de seringa, insulina, agulhas e um monte de coisas para controlar a doença. Mas o estoque da farmácia conveniada com o Estado tinha um estoque menor a cada mês. Dessa forma, ele gastava cada vez mais do seu próprio bolso ou se virava de outra maneira — como o reúso indevido de alguns itens, por exemplo.

Claro que ela me contou essa história indignada com a saúde brasileira e solidária às dificuldades do seu funcionário. Minha amiga, todavia, é uma eleitora do liberalismo. Quando eu afirmei que isso seria resolvido com mais gasto na saúde, ela não acreditou. Levantou os ombros e disse que não adiantava nada, que o Estado não presta e todo aquele discurso de privatização.

Tenho certeza que o pai do garoto diabético não acha o Estado tão ruim assim. Na verdade, o Estado é o único que está ajudando. Se a saúde fosse privatizada, a quem ele recorreria? Não adianta dizer que a concorrência vai deixar tudo mais barato. Esse pai precisa de remédios, já são privados. O Estado compra e dá pra ele, só isso. E agora, quando os gastos com a saúde diminuírem drasticamente, por causa da EC 95, como essas pessoas vão ficar?

Não acredito que os eleitores do liberalismo sejam pessoas ruins. Eles não são. Só é difícil acreditar que o Estado é um bom agente quando falam mal dele por todos os lados. É fácil encontrar casos em que o Estado não fez as coisas direito. Os interessados em destruí-lo usam desses eventos para diariamente destruírem a imagem de tudo que é público. Afirmam, ainda, que a iniciativa privada é melhor, isso porque não tem tantos problemas. Quem sabe se isso é verdade? Ninguém está interessado na iniciativa privada — como o próprio nome diz, ela é privada.

Essa ideia de ineficiência é forte. Ela implica na crença de que as demandas sociais nunca serão satisfeitas independente do montante de recursos. É nosso trabalho, então, desmistificar isso. Existem poucas estatísticas que relacionam gasto com resultados, então tive que recorrer aos números brutos. Analisei o IDEB, indicador de qualidade da educação, e os gastos com educação de 2010 até 2017. Isso para três Estados: Ceará, Goiás e São Paulo.

O IDEB médio que mais cresceu foi o do Ceará, 30.43%. E os gastos com educação de 2010 até 2017 cresceram 350%. Já São Paulo teve um avanço do IDEB de 11.03% com um crescimento de gasto de 20.58%. Um detalhe importante: não houve o desconto da inflação nos gastos.

 

IDEB (2010 – 2017)

Crescimento Gasto Ed. (2010 – 2017)

Goiás

24,81%

111,98%

São Paulo

11,03%

20,58%

Ceará

30,43%

350%

Esse estudo é trabalhoso, mas necessário. Os liberais não se esforçarão para produzir esse tipo de informação e os estadistas acham óbvio demais para ser divulgado. Acreditar na obviedade é ser arrogante. É acreditar que todos entenderam as aulas de história do ensino médio. É ter fé que o povo se lembrará: dos motivos que levaram Portugal a ser pioneiro nas navegações marítimas; do governo de Getúlio Vargas e o desenvolvimento da indústria nacional; do ressurgimento econômico da Alemanha nazista e das empresas que estão aí até hoje; do New Deal e como Roosevelt destruiu a escalada fascista.

A classe média se esquece que entre eles e a opressão dos grandes bilionários está, somente, o Estado. Não usam o seus serviços mais evidentes, então ignoram todo um aparato Estatal intangível. Querem liquidar o Estado porque ele não consegue lidar com a violência, a saúde e a educação. Mas não se joga fora um carro que deu defeito, usa-se um mecânico. Não se mata uma vaca que adoece, chama-se um veterinário.

Assim como o IDEB do Ceará que cresceu junto com o aumento dos gastos, o mesmo pode acontecer com a segurança, a cultura e a saúde. Se o Museu Nacional tivesse recebido mais recursos, ele não teria virado cinzas. Assim como se a saúde e a segurança receberem mais recursos, milhares de pessoas não precisarão morrer. O que mais me indigna é que todo esse dinheiro que poderia salvar vidas vai para a mão de bilionários e entra no mercado financeiro. Um mundo virtual de especulação que não produz nada, não gera nada e não salva ninguém.

Que tipo de escolha é essa? De uma lado tudo que torna a vida suportável e do outro o dinheiro pelo dinheiro. Tenho certeza que ninguém escolheria a segunda opção. O problema é que as pessoas não andam tão atentas às suas escolhas.

Moacir Liberato
Economista graduado pela Universidade Federal de Goiás.
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