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OPINIÃO| Por que Keynes nunca será popular?

Publicado por: em 23/08/18 4:07 PM

Apesar de ter sido o responsável pela reestruturação econômica dos Estados unidos e de grande parte do ocidente pós crise de 1929 e por quase três décadas de prosperidade econômica, o entendimento de Keynes permanece impopular.

Eu sei que não deveria entrar em discussões de Facebook, mas preciso admitir que tenho esse hábito. Mas faço sempre tendo a certeza de que ficarei frustrado. Isso não por causa das grosserias que às vezes recebo ou qualquer outra forma de violência, mas por outro motivo: sempre que tento sintetizar todo um raciocínio citando o economista inglês J.M. Keynes e seu receituário, não sou compreendido. Dessa forma, tenho que me resignar e explicar tintim por tintim o que quero dizer.

É triste reconhecer que existe um economista tão importante e tão popularmente desconhecido. E isso vai além. Acredito que as ideias de Keynes nunca serão populares. Nunca chegarão aos pés da popularidade das ideias liberais ou marxistas/socialistas/comunistas.

Quando digo que Keynes não é tão popular, não estou me referindo aos economistas. Esses passam grande parte da vida acadêmica estudando as obras do homem que revolucionou o estudo da economia no início do século XX. Mas o trabalho dos economistas tem pouco ou nenhum resultado quando as discussões se restringem aos seus pares. A ciência econômica foi gestada com outro nome: economia política. Como o nome de família sugere, só é eficaz uma vez que se relaciona com grupos. O conhecimento precisa ser expelido para gerar efeitos. Diferente da física, por exemplo, em que dificilmente uma discussão com os mais diversos grupos faria alguma diferença.

Para entender a impopularidade de Keynes, é essencial ter em mente que economia é política e essa se faz por meio da comunicação. J.M. Keynes tinha uma preocupação especial com a retórica e a arte do convencimento. Diz-se que era um homem muito eloquente e que alguns minutos de conversa poderiam fazer com que mudasse de ideia rapidamente. O problema é que refinou sua eloquência a um público de homens altamente instruídos e desesperados. Estavam imersos em sucessivas crises no início do século XX. Dessa maneira tinham ouvidos atentos e um esforço grande de racionalidade, o que não encontramos no público em geral. Nem hoje, nem nunca.

A criação de uma retórica científica nesse contexto fez com que Keynes e seus seguidores mais próximos se esquecessem de incorporar uma grande dose de valores que extrapolassem a ciência econômica. Não importa se as práticas Keynesianas foram as responsáveis por tirar o mundo da crise 1929, garantir a prosperidade econômica por quase três décadas (Golden Age) ou que tenham sido determinantes para a retomada do crescimento pós crise 2008. Seriam os valores que atrairiam os olhos do público para que eles se interessassem pela técnica ali descrita. Mas isso não foi feito, as práticas keynesianas são deficientes em relação aos valores. São como um fruto seco altamente nutricional, mas sem encantamento, feio e sem suco.

Keynes tinha como desejos preservar o Estado democrático. Ou seja, a liberdade, mas ele tinha convicção de que isso só seria possível com crescimento econômico e distribuição de renda. Só uma sociedade mais igual poderia garantir a liberdade. Mas ele e seus seguidores não batiam muito nessa tecla. Numa época em que os valores de igualdade e liberdade se opunham tão violentamente, como seria possível explicar que este depende daquele? Keynes se preocupou com a técnica e as práticas por trás da economia. Usou sua retórica para convencer líderes de Estado a tirar o mundo de uma crise econômica que fez com que tiranos subissem ao poder e massacrassem milhões de pessoas. Depois, quando o mundo se esqueceu, sumiu para ficar restrito à economistas e historiadores.

Por outro lado, Liberais e Marxistas/Socialistas/Comunistas têm uma carga de práticas econômicas difusas. Estão sempre sem muita precisão, mas continuam na boca do povo. Ao contrário de Keynes, invocam no público não a ciência (da Ciência Econômica), mas a política (da Economia Política) com diversos valores que extrapolam a economia. Os liberais defendem liberdade individual, meritocracia, destaque e darwinismo social. Já os marxistas tendem a defender a igualdade e que os direitos de grupos minoritários sejam tutelados pelo Estado. São, na realidade, esses os apelos pelos quais o povo se apega.

Já se perguntarmos a quem suporta as práticas de Keynes o que ele defende, é provável que ele diga que não há liberdade, igualdade ou direitos das minorias até que o crescimento econômico e a distribuição de renda estejam garantidos para hoje e para o futuro.

Popularizar as práticas keynesianas tornariam os processos políticas mais justos. Os eleitores que enxergam no liberalismo a crueldade social, mas desacreditam no socialismo teriam um norte claro por onde seguir. Mas isso só vai acontecer quando esforços forem feitos para que valores fortes sejam atribuídos aos pensamentos de Keynes. Até lá, a economia, nos olhos populares, será dividida entre liberais e marxistas.

Moacir Liberato
Economista graduado pela Universidade Federal de Goiás.
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