Coluna

– Jornalismo com opinião

Pixação: uma arte urbana incompreendida

Pichação, ou pixação escrita com “x”, oriunda do Movimento Pixo, pode trazer várias reflexões. Uma delas seria sobre o que consideramos como arte e aquilo que não é arte.

Antes de tudo, vale lembrar que faz parte da nossa história a necessidade de se expressar através de imagens, e o pixo é uma forma de expressão que pode ser caracterizada por diversos traços, com letras e códigos que são ilegíveis a pessoas que não entendem essa expressão.

Definir o que é arte não é algo simples, talvez até impossível, já que existem várias discussões sobre arte.

Para grande maioria das pessoas, a pichação é vista como algo feio, como um problema, e pela lei 9.605/98 – Art. 65 ela é considerada como crime ambiental, sob pena de detenção, que pode variar de três meses a um ano, além de multa. Mas uma pequena parcela consegue enxergar a arte por trás dos pixos. Por isso é importante fazer uma análise sobre o assunto.

Desde que a burguesia começou a ter o papel de protagonista na história, por volta do século XVII, começou a ser denominado como belo o que a burguesia achava que era belo. Dessa forma, se tornava arte o que era belo, mas esse conceito começou a ser derrubado no século XX, quando a arte ganhou novamente liberdade em relação às classes sociais, mas também começou a se tornar uma manifestação de classe social. E é nesse contexto que entra em cena a pichação, ela assume um papel de marcação de território, se tornando para muitos um ato de vandalismo e depreciação do patrimônio, mas também assumindo uma manifestação de classe, afinal, essa arte também tem um contexto artístico de cunho social e político.

A pichação pode ter como suporte ambientes externos como prédios, muros, fachadas, mas também ambientes internos como banheiros, paredes, e acaba trazendo questionamentos em relação ao crime ambiental que é aplicado a ela. Em 5 de novembro de 2015, uma barragem estourou e 34 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério de ferro jorraram do complexo de mineração operado pela Samarco, percorrendo 55 km do rio Gualaxo do Norte e outros 22 km do rio do Carmo até desaguarem no rio Doce. No total, a lama percorreu 663 km até encontrar o mar, no município de Regência (ES). Até hoje os responsáveis não foram presos, mas se uma pessoa fizer uma pichação e for pega, ela é punida rapidamente dentro do crime ambiental. Por que tão rápido quando é um pixo? A pichação é tão grave a ponto da lei “funcionar” nesse caso? Por que até hoje não prenderam os responsáveis da Samarco? Enfim, é possível abrir várias questões.

Tratando-se de uma sociedade desigual e alienada em relação à indústria cultural, que lhe empurra diariamente o discurso de que a arte só é válida quando é algo que possa ser consumido, a pichação se torna um grito de resistência, uma arte que não é compreendida, porque ela não está ali para vender. Para conseguir entendê-la, você precisa se aproximar, sem preconceito e sem opressão, para assim, compreender essa estética que é libertadora.

Franciele Garcia
Contribui com A Coluna na redação jornalística.
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