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Polarização Esquizo-Paranóide

Publicado por: em 25/10/18 8:11 PM

O clima tenso e implacável da polarização política como se estivéssemos em uma disputa acirrada de futebol, vem demarcando um ambiente hostil, agressivo, tenso como coletivo, onde ameaças contra a vida e a existência do diferente gritam de maneira constante. A rivalização extrema num contexto de dicotomias inevitáveis, vem nos levando a esquecer que o que está em jogo é a democracia.

A emergência do momento tem nos forçado a ocuparmos um lugar de protagonismo e posicionamento político como em 2013, pois a vida em si é um ato político não dissociado de nossas ações e pensamentos cotidianos em relação a tudo que escolhemos vivenciar, desde os alimentos que selecionamos para consumir, as roupas que vestimos, o trabalho que investimos desejo, as relações que criamos. Todos os processos de relação humanas estão ligados de maneira coletiva indissociavelmente.
É na democracia que podemos fazer valer os processos do diferente, o direito de pequenos grupos, a possibilidade de dialogar abertamente novas idéias e mudar de opinião e ponto de vista devido a imensidão de perspectivas; é na liberdade de fluir como se é que podemos trabalhar na construção criativa de relações novas e renovadas, de maneira macro-institucional e também micro-familiar.

A democracia é um  sistema capaz de manter as diferenças no mesmo espaço para que estas possam coexistir, em respeito as diversas formas de ser e de expressar do humano. Psicólogos, Psicanalistas, o Sindicato dos Psicólogos, o Conselho Federal e Regional de Psicologia vem se posicionando de maneira clara e contundente a favor da democracia. Relatos sobre como andam devastados os pacientes na Clínica de Psicologia surgem com maior frequência de forma a ilustrar o descompensar psíquico da subjetividade atual. Penso na vida psíquica daqueles que não podem, nesse momento, se beneficiar de um espaço de acolhimento e escuta para dar vazão ao sofrimento, por se tratar de um período intenso de fragmentação do eu e daquilo que chamamos de humano.

Os discursos fundamentalistas e totalitários são discursos de repressão e privação das liberdade individuais e se espalham mundo e Brasil a fora, posicionamentos estes anti democráticos e claramente fascistas, de extermínio a tudo que se faz diferente.

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, essa semana, colocou foco na biologização dos gêneros, trazendo o aspecto biológico dos sexos (órgãos sexuais) como o fator que define a identidade de gênero, em ferimento aos direitos humanos de proteção à vida, vidas estas que são diariamente negadas, ameaçadas, violentadas, pelo simples fato de existirem como são. O Brasil é o país que mais mata transgêneros e violenta mulheres, pesquisem os números. Seguindo por esse raciocínio, podemos imaginar o impacto de posicionamentos como esse em sociedades e países de terceiro mundo que se orientam, em diversos sentidos, pelas figuras de autoridade e de poder norte-americanas. A comunidade LGBTQ se posicionou frente a fala do presidente em questão pontuando que suas existências e identidades transgênero “não serão apagadas”.

Não é de hoje que, os chamados diferentes, excluídos e oprimidos se posicionam, por meio da arte, poesia, escrita, canções, exposições, etc, para abordarem a importância e o direito a diferença, bem como o direito de existir.
David Bowie, músico inglês, em 1974, gravou o disco “Dimond Dogs”, em homenagem ao livro “1984” de George Orwell, romance distópico amplamente influente no século XX, que trata das mazelas da humanidade em períodos de guerra permanentes conduzidos por governos totalitários. Distopia é o antônimo de utopia que ilustra situações de detrimento das liberdades individuais, caracterizada por processos de extrema violência e desumanização. O disco de Bowie, com onze faixas, discorre sobre os pontos abordados no livro que deflagram um cenário mundial pós apocalíptico, desenrolando uma crítica elaborada e acirrada ao capitalismo norte americano, nomeado de “Big Brother” (“O Grande Irmão”) por George Orwell, aquele que mantém os olhos hiper vigilantes nos demais por meio de ações de controle escamoteadas.

George Orwell, escritor, novelista e jornalista crítico, é conhecido por seus livros “Animal Farm” (Fazenda de Animais – 1945), “A Revolução dos Bichos” (1945) e “1984” (novela distópica de ficção política literária- 1949), onde marca oposição ferrenha a regimes totalitários e ditatoriais. Em “1984”, denuncia diversas formas de manipulação de sistemas autoritários como a quebra da privacidade em prol de vigilância constante e invasiva para controle, a manipulação da informação e da história; crueldade sádica da tortura política travestida de “Ministério do Amor”, a distorção consciente e intencional da realidade por um governo que goza via autoritarismo, a provocação de estados de guerra pelo “Ministério da Paz”, a subserviência imposta a lá “Saló” de Marquês de Sade, a opressão física e mental que tem início com o aprisionamento dos pensamentos e a regulação das relações; a vigilância secreta e constante de um governo comandado por uma pequena elite, explanado sobre as injustiças sociais governadas pelo terror e pela propaganda, esta última, responsável pelo culto a personalidade, ao poder e a lavagem cerebral. Processos provocados deliberadamente que podem levar à confusão psíquica dos indivíduos. 

Orwell, social democrata, construiu críticas elaboradas ao sistema político e pontuou a necessidade de ir além dos partidos e dos espectros políticos direita e esquerda. O ponto que trago para reflexão é o denunciar, de maneira literária e criativa, de sistemas de dominação das mentes e dos corpos, estes em que o amor só pode acontecer as escondidas. O romancista deixou um material importante para que não precisássemos recriar a roda e então nos beneficiar de suas reflexões provocativas.
É pela ilustração e análise de um cenário político, no romance “1984”, que podemos ver a opressão se estender e também partir do controle e regulação das relações amorosas, da repressão da livre expressão que pode ser artística, do pensamento livre, do ir e vir. O autor constrói uma narrativa lúcida política sobre os processos de pauperização e empobrecimento da vida psíquica e fisica que abrem caminho para a vazão da barbárie de regimes ditatoriais que colocam em ameaça e risco permanente a integridade dos cidadãos por meio de uma cisão impetuosa entre humano “bom” e humano “mau”.

Visivelmente o Brasil vive um processo como esse, mais uma vez em direção a negação e a necessidade de apagamento do outro, da anulação e repressão da existência do diferente e de tudo aquilo que está fora de um funcionamento autoritário. Processos como esse denunciam uma subjetividade fragmentada do eu em aspectos individuais bem como coletivo/sociais, conduzindo, dessa forma, colocarmos para fora o que temos de mais primitivo e voraz em nós, como as projeções no outro externo daquilo que não pudemos acessar em algum momento de nossa história para cuidar. 
A barbárie vai sendo autorizada e tomando forma na crescente dicotomização do “mau” no outro e o “bem” em mim.
A cada semana que avança, os temas se repetem e se intensificam, mantendo claridade permanente em um importante ponto: a partir do olhar clínico psicanalítico, se faz perceptível os processos de repetição correspondentes àquilo que retorna, de maneira incessante como sintoma ou como ato, em reivindicação de seu lugar de direito, ou seja, aquilo que reprimimos, ignoramos, não aceitamos e negamos, retorna também por meio de projeções inconscientes em que o outro funciona como espelho, para que o conflito seja visto, exposto, reconhecido e então elaborado. Esse é o caminho de amadurecimento psíquico postulado por Freud. Quando há possibilidade e via de expressão de nossos mal estares, podemos entrar em contato com nosso discurso interno inconsciente e dar vazão para elaboração, direcionamneto saudável da energia libidinal. Quando não elaboramos conteúdos psíquicos, estes retornam em seu devido tempo podem a por meio do ato e do conflito via violência. Portanto, atua-se no externo o que tem de mais violento e voraz em nós.
Conteúdos inconscientes não permanecem perdidos dentro da psiquê, não desaparecem, tomam lugar e forma representando nossas mazelas nos corpos ou no outro, no outro PT, no outro comunista, no outro direitista. Na teoria psicanalítica Freudiana, o recalque de tais conteúdos exercem a formação de mecanismos de defesa associados a um caminho patológico das pulsões, já a sublimação é associada a caminhos criativos e saudáveis dessa energia denominada pulsão.

Melanie Klein (1882-1960), psicanalista alemã, a partir das teorias de Sigmund Freud desenvolve uma teoria própria tratando dos processos de constituição do humano. Klein postula as primeiras posições do desenvolvimento como processos de projeção e introjeção da agressividade e da libido, estes que serão formadores da personalidade e do caráter. A autora da teoria do “desenvolvimento psicossexual e piscopatologia”, coloca que a medida em que conteúdos agressivos são introjetados e projetados acontece a formação do superego (instância responsável pelo juízo, pela moral e pela crítica), que pode vir a ser demasiado severo caso haja alguma falha no desenvolvimento devido traumas ou excesso de agressividade vivenciada ou reprimida na primeira etapa do desenvolvimento.
A posição esquizo-paranóide, formulada por Klein se refere a fase de desenvolvimento do primeiro ano de vida em que o bebê vivencia o processo de cisão e separação da pulsão (libido/agressividade), entre o prazer e o desprazer, objeto bom e objeto mau. 

Nessa etapa do desenvolvimento, Klein fala de uma cisão/clivagem nas relações de objeto, denominadas de objetos parciais. O ego ainda não se encontra desenvolvido, dessa forma, o bebê é movido por ansiedade persecutória para sobrevivência do ego. Esse estágio pode retornar em diferentes momentos da vida a partir de conflitos atualizados no presente, fazendo circular os mecanismos de defesa primitivos dos primeiros meses de vida. As características dessa posição são medos persecutórios de ameaça a sobrevivência do self, negação, identificação projetiva, ansiedade persecutória, fragmentação do eu, dissociação e despersonalização em casos extremos.
A posição-depressiva (que não está relacionada aqui com depressão como conhecemos o termo) seria uma fase posterior do desenvolvimento em torno dos 6 meses de vida, significando o amadurecimento do bebê para uma posição de mecanismos de defesa mais saudáveis e menos persecutórios em que a libido se sobressai a agressividade, rumo a constituição de um sujeito integrado. Nessa etapa integra-se o objeto parcial para a formação do objeto total. Coloca-se para dentro de si o bom e o mau projetados no objeto, em referência a uma posição de canalização criativa no direcionamento das pulsões para formas de expressão satisfatórias (libido/energia/agressividade). No entanto, falhas nas primeiras posições (estágios) do desenvolvimento podem fazer prevalecer mecanismos de defesa tais como a dissociação, despersonalização e negação da realidade, processos maníacos e de onipotência. 

Posto isso, venho apontar e clarificar o período que vivemos no Brasil e no mundo como um momento coletivo de fragmentação do eu, de clivagem e cisão de um eu interno projetado no mundo externo. Nesse quadro, não há separação entre bebê e mãe, há projeções esquizo-paranóides no outo que ocorrem por meio de mecanismos de defesa primitivos e patológicos do ego quando este sente-se ameaçado em sua sobrevivência em negação do real.
A incitação a guerra, o clamar de destruição e aniquilamento do outro denota  a incapacidade, neste momento, de relação com um outro real e externo ao sujeito/bebê. A demanda de aniquilamento do outro vai dizer de uma demanda de aniquilar o sofrimento e o desprazer constante que se encontram interiorizados pelo processo de desenvolvimento. O outro, que tem outra constituição, se torna única e simplesmente o objeto mau, o inimigo externo, por apresentar uma outra posição de pensamentos, idéias, sensações e ações diferentes da que se percebe. 

Nas falas e verbalizações de aniquilamento de um diferente é que se tornam claras as intenções genocidas extremos absolutamente patológicas de alguns grupos de pessoas, estes que se expandem a cada dia em nosso cotidiano. Na identificação desse processo se torna urgente a necessidade não de aniquilamento, mas de escuta, afeto, de educação para compreensão dos processos de dor do humano, a necessidade de cuidar da infância e de proteger a vida, caso contrário, fazemos manutenção da mostruosidade que nos habita e nos é escancarada nas faces nesse tempo-lógico. Precisamos de espaços de debate, convivência, educação política, escolas que abordem a sexualidade para desmistificarmos a falácia leviana e persecutória esquizofrênica de um “kit gay”.

Um povo fragmentado caminha rumo a barbárie, e a resposta de um caminho saudável, sem precisarmos criar a roda, se faz presente: é na coletividade amorosa do respeito mútuo que podemos dar vazão à libido (pulsão/ energia vital saudável/eros/amor)  de maneira criativa e artística. A caminho do voto nesse final de semana, ainda é tempo de retomarmos a humanidade presente em nossas dicotomias, em prol de mantermos os espaços de liberdade, livre circulação do pensamento e em especial, dos afetos.

Paula Moro
Psicóloga Clínica
Psicóloga Clínica, linha de orientação psicanalítica, Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública FSP-USP; atuou na Rede Pública de Saúde (SUS) na Clínica de Saúde Mental; atende em consultório; conduz grupos de apoio e terapêuticos.
Escreve às quintas feiras quinzenais.

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