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Professora é hostilizada por pais de alunos após trabalho sobre intolerância e preconceito

Publicado por: em 29/09/18 10:15 AM

Professora de Franca, interior de São Paulo, é hostilizada pelos pais de alunos depois de promover ação contra o discurso de ódio na escola.

A docente da “Escola Estadual Homero Pacheco Alves”, decidiu fazer a atividade após uma criança de 13 anos, proferir o seguinte discurso: 
“Quando o Bolsonaro ganhar meu pai falou que vai comprar uma arma e matar todos os gays da cidade, porque a gente odeia gay”. A declaração gerou atrito entre dois alunos, que trocaram alguns socos e pontapés.  

O pediatra Gabriel Deveza, de Macaé -RJ, se assustou ao saber da história. “Isso tudo é muito grave”, alertou.

“Primeiro pela função socializadora da escola”. Para Gabriel: “seu papel principal é o de garantir a sociabilidade entre os diferentes tipos de pessoas”.Completou. “A escola é, geralmente, o primeiro espaço em que as crianças interagem sem a presença dos pais e da família. É um local rico para o aprendizado a partir da variedade de pessoas, de pensamentos e de comportamentos. Aprender a viver bem com a diferença é um passo muito importante para a construção da autonomia”, explicou o pediatra.

“Em segundo lugar, o crescimento do discurso de ódio na infância leva a um processo muito perigoso que é a naturalização do preconceito. Se desde a infância a criança acha normal um discurso preconceituoso, vai enfrentar muito mais dificuldade de mudar no futuro.” Conclui Deveza.

A professora declarou que a exposição inicialmente era para discutir todo tipo de preconceito, e que os próprios alunos trouxeram a temática da homofobia.  No entanto, o trabalho causou indignação entre os pais dos alunos, que decidiram procurar o Conselho Tutelar. O pastor Marco Feliciano, deputado federal também se manifestou contrário ao ocorrido: “de cultural a exposição não tem nada”. Declarou em vídeo.

 Procurado para comentar o caso, o psicólogo clínico e graduando em psicologia social, Adriano Barbosa da Silva, comenta: “Somos frutos do meio em que vivemos, os laços que nos unem são dados primeiramente dentro do seio familiar. É preciso atentar que historicamente a educação e a violência sempre caminham em lados opostos, visto que uma sempre cresce quando a outra diminui”.
“A violência está presente não apenas nos atos, mas invariavelmente em atitudes e conceitos distorcidos de realidades que não conhecemos, de causas que não são as nossas.”

Adriano cita ainda o psicólogo salvadorenho e grande estudioso dos fenômenos sociais “Este tipo de violência relatado estaria relacionado inclusive à necessidade de alcançar uma finalidade de caráter pessoal. Acredita-se que na ânsia de encontrar alguma solução para a violência que o rodeia, a criança agressora procura de maneira totalmente errônea apenas encontrar uma paz que lhe falta, mas o faz através de uma visão totalmente distorcida da realidade, e usando aquilo do que dispõe momentaneamente, ou seja, observações de adultos certamente muito afetados pelo medo e que talvez sem perceber (ou mesmo percebendo) acabam multiplicando casos e episódios tão violentos quanto”.

Já para a professora Tais de Araújo, que dá aula na rede municipal de Franca para crianças de 10 a 12 anos tudo isso é muito preocupante, mas já vem acontecendo ao longo do tempo e têm piorado com todo discurso de ódio que se tem propagado nas eleições. “Essa intolerância e preconceito que vem de casa, já existia antes, mas tinham receio de externar. Agora com um candidato que fala como eles, eles se sentem no poder de realmente por pra fora todo esse ódio. A criança só repete o que aprendeu com qualquer um que seja a referência dela. O problema é que depois desse candidato, vão vir outros e isso é um perigo pras nossas crianças, pra nossa democracia. O bem é bem maior que tudo isso, acredito que 70, 80% da população não pensem igual a ele, mas o bem se cala perante o mal. Nós professores não podemos nos calar jamais, é um trabalho exaustivo de tentar ensinar o respeito e a tolerância para todas as diferenças humanas”. Comentou a professora.

“O Brasil está em um retrocesso tão grande que os bolsonaristas têm questionado a história, o que está documentado em artigos, livros e museus. O reflexo disso é termos que explicar o óbvio dentro de sala, que todos têm direitos iguais, que todos têm que ser respeitados. As escolas têm feito cartazes e trabalhado incessantemente que é melhor um livro na mão do que uma arma, lamenta Taís.

A  13ª Subsesão da OAB/Franca se solidarizou com à professora e diretoria da escola , e afirmaram em nota:  “a atitude da professora e escola teve cunho de combater o preconceito de gênero e a LGBTI-fobia e não de fomentar a sexualidade, campanha essa que merece respeito pela iniciativa, tendo em vista os tempos sombrios e dados alarmantes de homofobia em nosso país”.
A propagação do ódio e da violência já foi feita, independe do resultado das urnas, mas deve ser revertida. É importante que os pais ajudem os professores a ensinarem a tolerância e o respeito. O papel da escola vai muito além de ensinar português e matemática, ela é um complemento do lar onde também se ensina as primeiras percepções de mundo. 

Natália Barbosa
Estudante de administração, paulista e feminista.
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