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REFLEXÃO | Educação básica à distância, alguns pontos a serem considerados.

Publicado por: em 25/10/18 5:34 PM

A educação básica do nosso país não é das melhores. Infelizmente, não temos investimento suficiente nesta área, que é bastante precária, visto os problemas com vagas no ensino infantil, falta de material, de professores qualificados e com salários compatíveis à sua atuação, merenda, infraestrutura e horários.

Em épocas de eleições, todos esses problemas são levantados e, juntamente com eles, propostas de melhorias, afinal, educação de qualidade deveria fazer parte do currículo das crianças do nosso país.

O atual candidato à Presidência, Jair Bolsonaro, em seu projeto sobre a educação, apresentou algumas propostas para este caso. Uma delas é a educação à distância para áreas rurais. Bolsonaro afirma que essa seria uma solução viável devido à localidade, falta de transporte que leve essas crianças até a escola. Além disso, propôs a criação de escolas militares em todo o país, e as matérias seriam diminuídas focando apenas em português, ciências e matemática.

Diante destas propostas, podemos levantar algumas considerações importantes, principalmente para os pais. Sobre a educação à distância, o candidato defende que deveria acontecer a partir do ensino fundamental, ou seja, 6 anos de idade. A criança deveria aprender ciências, matemática e português sem acompanhamento físico de um profissional.

Quem é mãe/pai, tem filhos em idade escolar e trabalha fora, sabe o quanto é difícil essa rotina. Muitas vezes, a escola presencial é uma válvula de escape para que os pais possam trabalhar e sustentar suas crianças. Com o ensino à distância, seria bastante diferente. Primeiro porque quem iria estar em casa com essa criança nas 4 horas de aula? Quem acompanharia e tiraria as dúvidas destas crianças?

Esta é a idade da alfabetização, e ter um professor que acompanhe de perto é fundamental, pois estão sendo introduzidos à leitura e escrita; cada criança tem seu tempo, dificuldade,  muitas delas precisam de um reforço e uma atenção a mais no momento do ensino. Como isso seria feito? Com quem você deixaria seu filho? Você tem internet e computador na região?

Um ponto para se pensar é que a escola, além de fazer seu papel de alfabetização, também faz o seu papel de socialização. É importante que crianças tenham contatos com outras crianças, outras maneiras de ver o mundo, outras culturas, saberes, aprender a conviver em sociedade, brincar, lanchar. Aliás, muitas crianças, infelizmente devido à falta de condições, tem na merenda a sua comida do dia garantida.

Continuando sobre a merenda. Ela vem de agricultores e comerciantes de alimentos, pessoas que vivem exclusivamente como fornecedores (como a Copavil que distribui leite, iogurte, bolos e verduras) e, com o ensino à distância, esse trabalho seria reduzido e cortes de funcionários deveriam ser feitos. Aconteceria o mesmo com os professores, afinal, um professor por classe poderia ser muito, além dos demais funcionários, como serventes, inspetores, diretores, limpeza. Metade dessas pessoas perderiam seus empregos. Ou seja, o desemprego poderia ser um grande problema atrás de uma falsa solução.

Mães solteiras que trabalham fora teriam de sair dos seus empregos e se dedicarem exclusivamente à vida escolar do filho. Quem trabalha fora sabe o quanto é difícil se manter em um emprego sendo mãe, e que, muitas vezes, essa é a única fonte de renda que alimenta e veste seu filho.

Neste caso, propostas de mais investimento para melhoria deveriam ser a solução. Em áreas rurais, principalmente, em vez de colocar as crianças para estudarem em casa, alternativas como mais transportes, construção de escolas, de saneamento, gerariam mais empregos na área!

Capacitação de professores e aumento de salário, uniforme, material escolar, leite, merenda, utensílios básicos nas escolas como computadores, transporte, internet, giz, carteiras, materiais de higiene, limpeza, deveriam ser as metas essenciais para começarmos a ter uma educação de qualidade para nossos pequenos. Futuramente essas crianças precisarão procurar um emprego, e sabemos que sem qualificação em educação, não é uma tarefa tão simples. Então, pensar numa solução fácil e momentânea, é mais fácil e rápido que pensar numa solução futura que dá mais trabalho, mas que seria o ideal para as propostas dos candidatos nessas eleições.

Segundo dados do MEC, atualmente temos 73.483 instituições de ensino municipais e estaduais no campo, das quais 1.856 quilombolas, 2.823 indígenas. As demais 68.804 são escolas rurais ou unidades em assentamentos. Diante desses números, seria mesmo relevante acabar com tantas escolas em locais que têm muito a ser investido?

Precisamos de planos que contemplem a todas as pessoas, classes sociais menos favorecidas e não apenas uma.

A educação de qualidade é direito de todos, ou pelo menos deveria ser.

Joice Melo
Mãe, feminista e ativista social. Luto contra a romantização da maternidade e pelo fim da exploração e invisibilização da mulher. Acredito no feminismo classista. Contato: joice@acoluna.co
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