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Sucesso do treino aberto na Arena Corinthians expõe elitização do futebol mercadológico

Publicado por: em 28/09/18 9:05 AM

Na última terça-feira (25), o Corinthians realizou mais um treino aberto em sua Arena. Não foi a primeira vez e não será a última, e o modelo já foi copiado por outros clubes recentemente na véspera de jogos decisivos. O treino aberto para os torcedores acompanharem é uma prática não só esportiva eficaz, pois os próprios atletas reconhecem o ânimo renovado com o acontecimento, mas há um componente a mais, o real simbolismo oculto e que vem cada vez mais à tona: a elitização do futebol.

Para além da prática esportiva, a prática social, de trocar um quilo de alimento pelo ingresso para acompanhar o treino, vem sendo muito elogiada. Entretanto, o fator social de poder permitir torcedores que não têm, em condições normais, dinheiro para assistir qualquer jogo no estádio, conhecerem a Arena e terem contato com o time, é um fenômeno que podemos presenciar com ainda maior entusiasmo.

Pôde-se observar a quantidade enorme de torcedores que levaram suas famílias para ver um mero treino da equipe. Muitos destes torcedores entraram pela primeira vez no novo estádio do clube, que não tem nem cinco anos de inauguração, mas já é conhecido – além da beleza e do conforto – por ser um estádio com ingressos caros para o torcedor comum.

O horário do treino aberto também pode chocar os mais desavisados: às 15h30. Isso mesmo, três e meia da tarde, escrito por extenso para não haver confusão! Quase quarenta mil pessoas num estádio para ver um treino! Claro que, o fato do futebol mercadológico não estar atuando com uma política de preços alta neste treinamento de um clube que tem uma torcida conhecida pelo fanatismo e por proporcionar – apesar do alto preço das entradas – uma boa média de público ano após ano, evidencia que existe uma grande parcela de torcedores carentes de ingressos mais condizentes com sua realidade sócio-econômica.

Quarenta mil pessoas num dia de semana no estádio para acompanhar um simples treino, gera de um lado, um discurso que circula entre as próprias camadas mais pobres da população que pertence à elite. Tal discurso é o de que tem “40 mil vagabundos em dia de semana num treino! Não têm o que fazer?”. Para este tipo de pensamento, pode existir muitas respostas e a principal delas é: Não! Muitas dessas pessoas não tem o que fazer, pois estão desempregadas ou trabalhando meio período, fazendo “bicos” esporádicos e, por isso, não tem acesso aos jogos, pela falta de dinheiro para comprar ingressos!

O discurso de “torcedores vagabundos” demonstra a criminalização da pobreza, da classe social menos abastada, do perfil dos torcedores que comparecem a este tipo de evento. E ainda expõe o apartheid social existente no modelo mercadológico que tomou conta do futebol.

Nasceu o futebol, tal como conhecemos hoje, no século XIX, e muito atrelado à elite econômica e gradativamente foi-se tornando mais popular. Essa é a história do esporte em quase todos os países e é muito triste ver um caminho inverso acontecendo quase um século depois do início e consolidação do processo de popularização do esporte mais praticado no mundo.

As gestões esportivas cada vez mais profissionais exigem do clube uma grande arrecadação, aumentando o valor monetário dos ingressos. O que parecia até pouco tempo não ter uma solução conciliatória a princípio, demonstra que abrir os portões para a torcida de modo episódico é um bom começo para um caminho de volta.

Precisamente no treino aberto corintiano na véspera da final do título paulista de 2018, numa sexta-feira à noite (06 de abril), ocorreu o mesmo que na última terça-feira. Uma gigantesca festa popular com famílias, bandeirões, inclusive os modelos proibidos pela Polícia Militar no estado de São Paulo, instrumentos, sinalizadores etc, com direito à invasão de campo da torcida ao final do treino. Tudo de forma pacífica e sem a supervisão de um policiamento.

Não só há um claro desgaste do modelo mercadológico no futebol, como também do proibitivo, a pretexto de segurança. Isso vai na contramão de qualquer pensamento moderno, pois podemos notar em estádios europeus a presença de instrumentos, bandeiras e, em alguns países, até fogos de artifício, que ser proibido por questões de segurança é até compreensível. E para por aí, mas já é uma outra história…

Redação A Coluna
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