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– Jornalismo com opinião

Torcidas à venda: o futebol moderno comercializou nossa cultura?

Muito falamos sobre como o corporativismo e a ascensão capitalista causaram uma profunda e decadente mudança no futebol popular. Isso é um ponto extremamente crucial para que possamos analisar e abordar uma outra questão: até onde a adaptação com o novo cenário pode transformar a “cultura do torcer” em mais uma peça na prateleira do futebol moderno?

É sabido por todos nós que a elitização econômica imposta por determinados setores dentro do futebol vem distorcendo a maneira de se torcer e de se jogar bola.
Os focos de resistência que lutam pelo direito de torcer da maneira original dentro das arquibancadas refletem uma alternativa  que, se não for bem articulada e direcionada, pode vir a culminar em algo pior que a extinção: a banalização.

Isto é, torcer pode virar parte do futebol moderno, um detalhe, como um artefato exótico. Algo para constar como adereço e não como parte inseparável do futebol.

Antes de prosseguir, devemos concordar que o futebol está obrigatoriamente ligado ao ato de torcer, sem qualquer chance da desassociação das partes. Não há futebol sem o verbo torcer.

Dito isso, onde queremos chegar? Atualmente notamos um crescimento espantoso na comercialização da cultura de torcer. Ou seja, a exclusão das massas e a proibição de suas características causadas pelo futebol moderno criaram uma outra maneira de manter viva a cultura de torcer, através da comercialização de artigos exaltando o uso de sinalizadores, todo tipo de materiais que repudiem o futebol moderno e suas instituições, como adesivos, chaveiros, camisas, agasalhos e bonés. Filmes, revistas e até centro de exposição. São produtos vendidos em diferentes sites e locais, direcionados para uma alta parcela dos amantes do futebol, que se sentem representados de alguma forma já que não podem mais exercer a cultura de torcer. É quase um memorial, um museu. E o negócio é lucrativo.

Em um primeiro momento parecia genial, afinal, estamos mantendo viva a chama da arquibancada, o espírito do torcedor que ainda respira nas cadeiras das novas arenas. Mas o fato é que esse caminho pode trazer um saudosismo exagerado, capaz de transformar a cultura do torcer em algo lindo – mas distante. Algo admirável – mas não tolerado. Esse conformismo com a nova realidade pode sobreviver eternamente se anestesiando com lembranças. É justamente essa linha tênue que deve ser analisada. Não o repúdio a essa expansão, mas sim o cuidado para não transformar uma luta em adaptação ao novo cenário, que precise olhar para trás quando quiser reviver as glórias do banco de cimento.

A cultura de torcer nunca foi comercializada porque sempre foi algo palpável. Sempre esteve conosco, todo fim de semana, em todos os jogos. Era um ritual.

À medida que o futebol moderno avançou, fomos buscando alternativas de socialização. Buscamos alternativas para que fôssemos aceitos dentro do nosso próprio espaço. Não entendemos a necessidade de se impor desde o início contra todas as mudanças, e muitas delas foram escancaradas.

Agora, tarde ou não, as torcidas começam a perceber que a sua sobrevivência depende unicamente da luta ser intensificada em todas as esferas. Inclusive dentro dos Clubes, exigindo posicionamento dos mesmos. Dentro dos órgãos públicos, dentro da sociedade como um todo. Não se pode tratar algo diretamente ligado ao povo utilizando uma redoma de vidro, isolado e sem voz.

Quando falamos em torcidas não estamos nos referindo especificamente às organizadas, aos ultras, barrasbravas ou grupos uniformizados. Nos referimos ao torcedor de maneira geral, pois como foi dito anteriormente, não existe futebol sem o ato de torcer. Se transformarem a cultura de torcer em um mero produto comercial – consumido mas não exercido – estaremos decretando a nossa morte.

Ou pior, estaremos contribuindo para transformar essa cultura popular em mais uma ferramenta do capitalismo que, sorrateiramente, se apropriou do nosso ato e o acalmou, o modificou e o excluiu. Exatamente como planejaram.
Devemos expandir a cultura, mas sem transformá-la meramente em um artefato de exposição. À luta!

Redação A Coluna
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