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Trabalhadores são resgatados em uma fazenda com condições análogas a escravidão

No interior de Minas Gerais, um grupo de trabalhadores viviam em condições desumanas. Eles estavam trabalhando com a colheita do café na fazenda Córrego da Prata.

Na casa onde estavam abrigados, as condições para dormir, de higiene e alimentação eram decadentes. No início, conta um dos trabalhadores, chegaram a ficar três dias trabalhando sem comer, pois o empregador não forneceu nem o fogão, nem o gás, nem os alimentos que havia prometido.

Na colheita do café era necessária uma máquina para realizar o trabalho, de valor médio de R$ 2 mil. E para isso, cada trabalhador da fazenda foi obrigado a comprar a sua e pagar pela gasolina que gastava. Uma situação totalmente irregular. O artigo 458 da Constituição Federal diz que ferramenta de trabalho não é salário, e que ela deve ser fornecida pelo patrão.

Os trabalhadores não tinham horário para pausa de trabalho e também não recebiam alimentação de qualidade. “A gente não recebia por feriado, domingo, nada. E trabalhava de segunda a sábado, sem marcação de horas. Durante a semana, entrava às 6h e só parava às 17h”, afirma um dos trabalhadores resgatados. “Tinha muito morcego e rato. A gente comprava comida e os ratos comiam. Aí, tinha que comprar de novo”, diz outra ex-trabalhadora da fazenda.

Eles também não tinham acesso a água potável. Os auditores entenderam que a rede de saneamento era tão precária que colocava em risco a saúde dos trabalhadores. Segundo o relato do grupo resgatado, era comum encontrarem morcegos mortos nas caixas d´água, que não tinham tampa.

As contagens da colheita para a remuneração eram fraudadas. “Mas o que mais deu raiva foi o roubo na produção”, conta um dos jovens, de 22 anos. Funcionava assim: eles colhiam 55 sacas de café, de acordo com suas contas, mas na contagem do dia o administrador anotava 30. “Não adiantava discutir. Ele começava a gritar e a bater nas coisas”, conta.

E na hora da remuneração, os trabalhadores precisavam se deslocar para uma cidade próxima, e tinham que pagar R$ 20 em um ônibus clandestino “Para receber o pagamento, a gente já tinha que pagar. Perdia dinheiro”.

A fazenda tinha o selo UTZ, o maior do café, que atesta qualidade, tanto do produto, como da maneira como ele é produzido. A certificadora suspendeu a certificação após ser questionada sobre o flagrante.

A propriedade rural possuía também a certificação C.A.F.E. Practices, selo da Starbucks em parceria com SCS Global Services. 

Franciele Garcia
Contribui com A Coluna na redação jornalística.
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