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Venezuelanos em Roraima: intolerância e xenofobia à flor da pele

Publicado por: em 21/08/18 5:03 PM

O prefeito de Pacaraima, Juliano Torquato (PRB), disse ao Blog do Luiz Valério, que o problema está na “repreensão na fronteira”. A governadora do estado de Roraima, Suely Campos (PP) também afirmou ser necessário o fechamento da fronteira.

A crise econômica na Venezuela se pendura desde a morte de Hugo Chávez e o início do governo de Nicolás Maduro, provocando uma grande falta de alimentos e produtos de higiene e necessidade básica, e consequentemente, significativa oposição popular à presidência de Maduro. Nesse cenário de 800% de inflação, milhares de venezuelanos apostaram como último recurso em se aventurar na imigração para países vizinhos, e o Brasil tem sido invariavelmente o mais procurado desde o agravamento da crise. Mas para o azar dos que tentam fugir de circunstâncias deploráveis, enquanto alguns brasileiros creem no auxílio desses venezuelanos, muitos ainda trabalham na expulsão dos estrangeiros e depreciação de seu bens, como foi visto na fronteira do Brasil com a Venezuela em Roraima esta semana.

O ataque ocorreu na manhã deste ultimo sábado (18) e foi motivado por um assalto, supostamente cometido por imigrantes no dia anterior contra o comerciante Raimundo Nonato, esfaqueado pelo assaltante. Nonato está internado no hospital de Pacaraima, e de acordo com a PM da cidade, encontra-se estável. Por se tratar de um comerciante conhecido e querido por quase todos na região, houve grande comoção quando a notícia do roubo e da internação de Raimundo se espalharam. Segundo moradores, a violência tem aumentado nos últimos 2 a 3 anos, e muitos juram de pé junto que é efeito direto da entrada dos venezuelanos na cidade fronteiriça. Essa crença é tão significativa que fez com que dezenas de moradores se reunissem para incendiar e destruir os principais acampamentos improvisados dos imigrantes como estratégia de retaliação.

Há quem tenha medo de alguma vingança por parte dos venezuelanos que tiveram seus bens depredados, entretanto é difícil que esse cenário chegue a se concretizar  considerando as poucas condições oferecidas tanto pelo Estado brasileiro quanto pelos cidadãos de Pacaraima sequer para a sobrevivência desses refugiados, imagine então para que alcancem grandes meios de vingança. Dados do exército afirmaram que mais de 1200 venezuelanos já saíram do Brasil devido a dura retaliação. Segundo informações recebidas por A Coluna, há feridos, mas a polícia militar ainda não soube informar o número de vítimas. “Tiveram escoriações leves”, disse um policial militar à reportagem. A Força-Tarefa Humanitária que estava ajudando a organizar as barracas e buscar abrigo digno aos imigrantes emitiu uma nota sobre o ocorrido (veja abaixo).

Em um áudio enviado por um dos manifestantes é possível ouvir sons de tiro; ele declara que vendedores ambulantes estavam sendo expulsos das calçadas e que a manifestação iria de encontro aos acampamentos dos venezuelanos. Ele também alertou que a passeata “poderia ocasionar conflitos diretos entre população e estrangeiros. “A revolta é grande, a indignação é “tremenda” e tudo isso poderia ter sido evitado se as autoridades locais (estaduais e federais) tivessem tomado as devidas providências, agora é muito tarde, porque a insatisfação e a indignação é grande e só Deus sabe o resultado ao final desta manifestação”, afirmou em meio as fortes emoções do cenário conflituoso.

O prefeito de Pacaraima, Juliano Torquato (PRB), disse ao Blog do Luiz Valério, que o problema está na “repreensão na fronteira”. A governadora do estado de Roraima, Suely Campos (PP) também afirmou ser necessário o fechamento da fronteira e que conta com a ajuda do governo federal para isso e pediu, no domingo (19), ao Supremo Tribunal Federal que suspenda temporariamente a imigração na fronteira do Brasil com a Venezuela, além de exigir o estabelecimento de uma barreira sanitária na fronteira, a instalação de um hospital de campanha do exército exclusivamente para venezuelanos e a redistribuição de conciliação entre União e todos os estados para distribuir a cota de refugiados e medidas compensatórias. O senador Romero Jucá (MDB-RR) também engrossou o coro dos que pedem o fechamento da fronteira e apresentou um pedido formal ao presidente Michel Temer na tarde desta segunda-feira. Segundo informações da Empresa Brasileira de Comunicação, na reunião de domingo (19) entre Temer e os ministros, foram definidas medidas emergenciais para Roraima: 120 homens vão para a Força Nacional, além de 36 voluntários da área da saúde prestarão serviços nos hospitais universitários da região. Ainda não se tem notícias oficiais sobre o que foi discutido na reunião de hoje (20) entre o presidente e os ministros, mas, de acordo com a Empresa Brasileira de Comunicação, o ministro do Gabinente de Segurança Insititucional (GSI), Sérgio Etchegoyen já declarou ser contra o fechamento da fronteiro, dizendo ser esta uma questão “impensável”.

Nota da Força-Tarefa Humanitária

Fonte: G1

Sobre o fato ocorrido na noite de sexta-feira, dia 17 de agosto, em que o senhor Raimundo Nonato de Oliveira, morador da cidade de Pacaraima, foi assaltado supostamente por imigrantes que estavam na cidade, a Força-Tarefa Logística Humanitária esclarece que o agredido, após ser socorrido pela equipe médica de plantão do Hospital Délio de Oliveira Tupinambá, foi evacuado para Boa Vista, chegando em uma ambulância no Hospital Geral de Roraima. Atualmente, o senhor Raimundo encontra-se em situação estável.

O fato gerou um descontentamento de alguns moradores de Pacaraima e, na manhã deste sábado, 18 de agosto, ocorreu uma manifestação com atos de violência e destruição de acampamentos de imigrantes situados em alguns locais públicos.

Órgãos de Segurança Pública buscaram conter as manifestações de violência. A Força-Tarefa deslocou parte de sua equipe médica para o Hospital Délio de Oliveira Tupinambá para apoiar eventuais casos, em consequência da manifestação.

Veja o que os presidenciáveis falam sobre a crise em Roraima

Redação A Coluna
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